Absolutamente sarcástico: isto é serviço público


Com maioria absoluta em São Bento, Ricardo Araújo Pereira vai valer-nos ainda mais. É o que esperamos muitos de nós, sabendo que os espaços de ironia e sátira política são residuais numa televisão higienizada, veneradora do poder de turno. Sobretudo quando esse poder reforça o seu alegado braço protector aos meios de informação, agora diluídos numa nebulosa a que chamam «indústria mediática» vocacionada para a «produção de conteúdos», seja lá o que isso for.
Em época de evidente carência de meios humanos qualificados e de escassez de recursos financeiros para informar com isenção e rigor, sem vénias a secretários de Estado e directores-gerais, o consumidor de notícias tem de estar atento: é bem provável que lhe sirvam gato por lebre. Faz-nos falta uma DECO nesta área. Ou uma ASAE, atenta à contrafacção galopante.
Na ausência de ambas, resta-nos a sigla RAP – detectora da incompetência e garimpeira da estupidez. Pondo a nu uma cascata de afirmações delirantes, que Araújo Pereira destacou na mais recente emissão de Isto é gozar com quem trabalha, colada à prédica dominical de Marques Mendes na SIC.
Nem Mendes escapou ao olhar sarcástico do comediante, que passou em revista alguns dislates proferidos pelos tudólogos em antena nos dias precedentes às legislativas. Um hilariante estendal de pitonisas sem vocação para ler o futuro nos interstícios políticos: tombaram na noite de 30 de Janeiro, alvejadas pelas suas próprias palavras, em doloroso e humilhante ricochete. Quase nenhuma fez a autocrítica que se impunha em nome da elementar honestidade intelectual.
Mas a maior autocrítica que vai tardando é a das empresas de sondagens. Nem as realizadas à boca das urnas, no dia da votação, garantiram o essencial. Daí o histriónico José Rodrigues dos Santos ter gritado, a abrir o Telejornal da RTP: «O PS pode chegar à maioria absoluta mas não é o mais provável.» A novidade viria a ser revelada, noite adiante, por Catarina Martins, recebida com vibrantes aplausos pela claque bloquista, que parecia festejar a perda de 14 dos 19 deputados e a ultrapassagem pelo Chega e pela Iniciativa Liberal no parlamento. Foi ela a anunciar ao país a maioria absoluta rosa, vá lá saber-se porquê.
Mérito suplementar de RAP, igualmente protagonista de previsões falhadas naquele programa sem nome que tem na SIC. Ele não se pôs de fora. Lá surgiu retratado entre as sibilas que erraram o alvo.
Será mais necessário que nunca, neste novo ciclo de maioria absoluta monopartidária – a primeira desde os dias nada saudosos de José Sócrates, quando diversos órgãos de informação funcionaram como contrapeso à arrogância autoritária do presidente do Conselho de Ministros.
Há uma diferença assinalável em relação aos tempos actuais, década e meia depois: jornais e televisões estão muito mais fragilizados. Por culpa própria, em grande parte. E também por serem vítimas da vampirização das redes sociais e da imparável pirataria que prossegue impune. Ninguém tenha ilusões: vêm aí tempos difíceis.
Texto publicado no semanário Novo

