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Abril no feminino?

por Cristina Torrão, em 24.04.19

Rev 35.jpg

Imagem: Centro de Documentação 25 de Abril – Universidade de Coimbra

Lisboa, Calçada de Carriche; mural do PCP

 

Estava eu sem inspiração nenhuma para escrever sobre o 25 de Abril, quando deparei com um post da jornalista Helena Ferro de Gouveia no Facebook:

«Mulheres de Abril

A história da Revolução ainda é contada no masculino deixando na sombra aquelas que foram chamadas de “companheiras na sombra”. Seja Maria Barroso, a retaguarda familiar de Soares, sejam as mulheres no partido comunista, sejam escritoras, artistas, professoras, sejam as mulheres de alguns movimentos católicos, sejam as mulheres-mães-noivas-namoradas dos que combateram na guerra colonial ou dos que pensaram o derrube do regime.

Mesmo após o fim da ditadura, no período quente, elas não viveram tempos fáceis. A escritora Maria Teresa Horta recorda que ajudou a organizar uma manifestação de luta pelos direitos das mulheres. Nessa manifestação previa-se a queima de símbolos da opressão feminina: vassouras, grinaldas de noiva… Porém, centenas de homens juntaram-se em redor das mulheres e começaram a bater-lhes. "Eram murros, despiam as mulheres, tentavam violá-las", conta a escritora.

Quarenta e cinco anos depois de Abril muito mudou para as mulheres em matéria de direitos e liberdades, há ainda um longo caminho a percorrer para mudar mentalidades e falta cumprir a igualdade. E foi também para isso que se fez Abril.»

 

Interessa-me o papel da mulher nos vários momentos da História e comecei a ler Mulheres da Clandestinidade, de Vanessa de Almeida. O que mais me surpreendeu, até agora, foi a forma de como as mulheres comunistas eram discriminadas no próprio partido, um partido que, já durante o salazarismo, fazia da igualdade uma das suas bandeiras.

Porém, os nossos comunistas não são caso único. Vi, há tempos, um documentário na TV alemã sobre as mulheres do Kremlin e fiquei igualmente abismada como elas eram usadas, mas “escondidas”, a fim de dar protagonismo aos homens. Muito poucos saberão o nome das mulheres que estiveram ao lado de personalidades como Lenine ou Estaline, por exemplo. Ainda hoje, a Rússia não lida bem com a figura da “primeira dama” (para não falar de uma mulher à frente dos destinos da nação). Nesse programa, dizia-se que Raíssa Gorbachev foi muito criticada por constantemente surgir ao lado do marido. Putin surge sempre sozinho. É verdade que se separou da mulher, mas, mesmo quando ainda eram casados, a sua actuação era idêntica. Ou alguém se lembra da mulher de Putin?

Regressando à nossa Revolução: é sabido que o 25 de Abril abalou os costumes, porquanto o vendaval causado pelos chaimites de Salgueiro Maia coincidiu com a revisão da Concordata, por parte do Vaticano, permitindo o divórcio civil para casais unidos pela Igreja. Mesmo sendo criança (entre os oito e os doze anos, se englobarmos o Verão Quente e o período que se lhe seguiu), não fiquei indiferente à confusão de certos adultos, perante tanta liberdade. Há uns anos, escrevi as minhas memórias do 25 de Abril, que acabei por misturar com comentários da adulta que hoje sou. Ainda não consegui publicá-las em livro, mas não resisto a transcrever um pequeno excerto:

«Muitos pais de família romperam com as amarras que os haviam levado ao casamento apenas para terem sexo à disposição. Partiram à procura das Emanuelles* e das gargantas fundas*, o que aliás está longe de implicar que as tenham encontrado. Sá Carneiro acabou por personalizar esta nova ordem, ao divorciar-se para se juntar a outra mulher. É curioso constatar que foi um homem de direita, que muitos apelidavam ainda de fascista, que acabou por se tornar na personificação da nova ordem.

Porém, o desaparecer de muitas convenções sociais e de outras fachadas foi, em parte, aparente. À semelhança de outros momentos da História, as liberdades a nível individual eram pensadas sobretudo para os homens. Naqueles anos imediatos ao 25 de Abril, ainda não se aceitava bem a ideia de que a esposa, a mãe divorciada, que ficava com os filhos a seu cargo, fosse à procura de novo parceiro. Ela própria se escusava a tal comportamento. A sua atitude de protesto passava, paradoxalmente, pela defesa dos valores tradicionais».

 

* Expressões baseadas em títulos de filmes mais ou menos pornográficos que, na altura, se mantiveram meses (talvez até anos) em exibição nos cinemas e se transformaram em verdadeiros símbolos da nova era.

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52 comentários

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De Pedro Vorph a 24.04.2019 às 19:52

Cristina, numa prespectiva Darwinista as mulheres são as culpadas pela Luta pelo Reconhecimento de Hobbes. Ou seja as barbaridades masculinas, em nome do Poder, visam em última razão o acesso indiscriminado ao mulherio.

https://www.nytimes.com/1999/02/21/magazine/men-women-sex-and-darwin.html
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De Pedro Vorph a 24.04.2019 às 23:01

Perspectiva....santa ignorância....
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 12:27

Muito interessante, Pedro Vorph (se bem que um pouco longo, confesso que não li tudo a eito; desde que comecei a escrever aqui no Delito, não tenho tempo para mais nada, que não seja responder a comentários ).

Mas já que estamos no tema, deparei, há uns anos, com uma tese interessante. Escrevi sobre ela no meu blogue e deixo-lhe o link, já agora:

https://andancasmedievais.blogspot.com/2015/04/afinal-parece-que-sao-as-mulheres-que.html
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De Pedro Vorph a 25.04.2019 às 12:53

Cristina poupe-se aos comentários. Basta ler os meus ,os do V, os do Corvo e sobretudo os do Luck. O resto é tudo muito chato
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De Corvo a 25.04.2019 às 15:46

Excelente sugestão, Pedro Vorph. Esperemos que a senhora Cristina a siga.
Livra-se do cansaço e ganha saudáveis e clarificadores novos conhecimentos.
Tudo gente boa. Tanta que vai colmatar o Céu, por um lado, e o Inferno abrir falência, por outro.
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De Pedro Vorph a 25.04.2019 às 12:54

Cristina se lhe interessa a temática sugiro:


https://www.wook.pt/livro/comportamento-robert-m-sapolsky/21685514

Vou na terceira leitura...uma gema
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De Pedro Vorph a 24.04.2019 às 20:06

Cristina há muitos sociólogos (incluindo, penso, o jpt) que dizem que os verdadeiros vencedores da Revolução Sexual foram os homens, porque ela deu, a estes, a Liberdade para procurarem as suas Emanuelles. Às mulheres, a Revolução Sexual, deu a Liberdade de criarem os filhos sozinhas.
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De jpt a 24.04.2019 às 22:29

ó Vorph não me ponha a dizer coisas que nunca disse nem pensei. Por outras palavras, não me chateie
Já agora, não sou sociólogo. Nem nisso você acerta
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De Pedro Vorph a 24.04.2019 às 23:09

Tá bem, jpt
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De V. a 25.04.2019 às 00:18

Antropólogo se faz favor — sociologia sem método. Muito melhor, a milhas do qui quadrado.
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De jpt a 25.04.2019 às 05:25

boa boca. Não vou negar a sua ideia, cada um que pense como entende. Não reclamei qualquer supeioridade (ou inferioridade) corporativa. Apenas resmunguei (lamentei, se seguindo a sua ideia) que me atribuíam uma carta de corso que não tenho
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De Anónimo a 24.04.2019 às 20:19

Notável falta de inspiração. Desejo as suas melhoras.
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De kika a 25.04.2019 às 10:54

A Deusa-Mãe ocupou o maior período
na história da humanidade.
Ninguém se interessa por isso .
Talvez por ignorância ou por outras razões obscuras .
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 12:30

A coisa deve ter mudado, quando os homens viram as vantagens de pôr as mulheres na sua dependência económica.
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De kika a 25.04.2019 às 12:42

Económica e não só 🙊 🌻
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De Corvo a 24.04.2019 às 20:39

Ah! Essas mulheres.
Meninas, noivas, esposas e mães.
Seres sublimes tão profundamente ignoradas, dificilmente escutadas, nunca compreendidas e quase nunca perdoadas.
Essas mulheres e todas do meu tempo, a perfeição da Criação.
Que o Céu lhes seja doce.
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 08:20

Sublimes? A perfeição da criação? Nunca! Isso são delírios machistas.
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De Corvo a 25.04.2019 às 12:56

Bom dia, senhora Cristina Torrão.
Por acaso a senhora é um excelente exemplo da sublime perfeição feminina.
Com que delicadeza e elegância, e até classe; a partir de duas linhas soube definir não só o meu perfil psicológico, como sócio-educacional-civilizacional.
Resto de um excelente dia.
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 13:17

Não foi minha intenção defini-lo. Notei que o seu comentário era irónico. E quis sublinhar que não considero as mulheres perfeitas, ou melhor do que os homens.

Elogios exagerados às mulheres, pondo-as nas alturas, é uma grande armadilha machista. Mas repito que percebi que o Corvo estava a ser irónico.
Desejo-lhe igualmente um bom resto de dia.
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De Corvo a 25.04.2019 às 15:05

Senhora Cristina.
Compreendo o que pensou ser de minha parte ironia, mas asseguro-lho que não era. Nunca sou irónico quando a feminilidade é descrita em termos de condição humana através da história, seu papel e importância, ou melhor: a importância que o passado lhe deu, isto é, nenhuma.
E isso eu conheci. Seres sublimes tão profundamente ignoradas, nunca escutadas e sobremaneira sacrificadas. E a obra-prima da natureza, sim!
Mostrem-me um homem. Um só de entre todos os homens do mundo, de qualquer cor ou crença, que estivesse disposto durante nove meses a carregar um filho na barriga, pari-lo, alimentá-lo e a deformar o corpo por ele.
Ah e tal, dirão. A biologia não é igual e um homem não tem como pari-lo.
Ok. Tudo bem. Que avance então a cesariana.
Um homem, e no exemplo que apresento, no que concerne a um filho seu gerado por ela, faz o seguinte.
Ela, - à noite, cansada porque o bebé não lhe dá tréguas, e já enervada porque o traste a ressonar ao lado, impávido e sereno na paz de Deus com os anjos, tirando a cervejola não faz mais nenhum esforço digno de registo, - ela, portanto.
O bebé está a chorar outra vez. Vai lá tu desta vez porque ele tanto meu como teu.
Ele, na calma e serenidade dos abençoados.
- Tá bem. Então vai lá calar a tua metade e deixa chorar a minha

Foi assim que conheci. Agora parece que os níveis educacionais treparam um pouco e provavelmente a coisa se fará mais civilizadamente.

Contrafeito primeiro, esperançado depois,- "já que a gaja me acordou pode ser que já não lhe doa a cabeça. Deixa-me despachar com o raio do puto"
Vai, olha, vê, volta e diz à mulher.
- Tem cocó na fralda. Vai lá tu mudá-lo que eu não me ajeito nestas coisas.
:)

Continuação de um excelente dia.
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De Anónimo a 24.04.2019 às 21:05

Qual foi o país Comunista que teve como líder uma mulher?

lucklucky
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De Pedro Vorph a 24.04.2019 às 21:33

Luck as mulheres sendo na sua maioria futeis , tendo como propósito vital a mala nova, o novo par de sapatos Luis d'Onofre, etc são, pela febre consumista as grandes aliadas do capitalismo. O Comunismo é um regime intrinsecamente masculino, pois só os homens são capazes da idealização social, do pensamento cósmico e ontológico....penso que também não existiram mulheres profetas.
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De Anónimo a 25.04.2019 às 01:25

"O Comunismo é um regime intrinsecamente masculino"

Sim, pois baseia-se na violência e na presença permanente dela. Para começar contra outros Comunistas.


"...idealização social, do pensamento cósmico e ontológico..."

...cheio de contradições para começar entre a igualdade e a liberdade....

talvez sirva para tema de um romance feminino... :)

lucklucky
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 08:24

Claro. Um romance feminino é uma categoria literária menor, ou uma sub-categoria . O desprezo que exprime diz tudo, caro Anónimo.
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De Anónimo a 25.04.2019 às 18:58

Calma, chamei o humor do preconceito.

lucklucky
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 08:25

Peço desculpa: "caro luck"!
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De jpt a 24.04.2019 às 22:38

Simpatizando e concordando com o postal venho discordar de uma parcela dele, não fundamental, disso da "primeira-dama": se há coisa que posso gostar em Putin (seja lá porque razão for) é isso de não apresentar a sua "senhora". A figura - vinda da peculiar situação, em múltiplas facetas, de Eleanor Roosevelt e depois de Jacqueline Kennedy - da "primeira-dama" é um absurdo inaceitável e só passa pela demissão intelectual generalizada. Inclusive é o oposto da retórica feminista e das reclamações femininas (estou a apartar águas sem querer entrar em debate sobre o assunto). Uma vez (pelo menos) botei sobre isso, se me permite o pecadilho da auto-referência: https://ma-schamba.blogs.sapo.pt/49800.html
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De Pedro Vorph a 24.04.2019 às 23:13

Jpt eu penso que Putin não a apresenta por não ter nenhum interesse nela....penso que o Putin é um pinga amor... há uns anos ,contaram-me, andava metido como uma agente da policia russa....
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De jpt a 25.04.2019 às 05:28

Sobre os amores dos "espiões que estão no frio" nada sei. Mas a vida afectiva dessa personagem não me é relevante - o que o é, e a isso aludi, é que não impôs uma "primeira dama". Se calhar exactamente devido ao seu percurso amoroso, mas isso já é outra coisa. Factualmente não há ali um desvio monárquico da república - o qual nos EUA já tem a dimensão de "primeira filha", "primeiro genro" e etc. E não só nos EUA, se virmos bem
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 08:39

Caro jpt, tem razão, quando essas damas se limitam a um papel decorativo. Mas eu referia-me a mulheres interventivas. Nesse documentário se mostrou como mulheres e companheiras dos líderes comunistas trabalharam para o partido e o governo, algumas com contribuições essenciais, e permaneceram propositadamente na sombra.
Claro, a do Putin não era interventiva. Mas, se nos EUA se abusa dessa função decorativa, na Rússia constrói-se a imagem do líder todo-poderoso, enquanto a mulher se deve manter recolhida.
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De jpt a 25.04.2019 às 09:36

Eu não vi o documentário, lamento. Mas há o consabido caso da mulher de Lenine, ela própria militante revolucionária. Não terá sido "apagada" mas era "a mulher de Lenine" (e se calhar assim também se entendeu, digo-o como hipótese). Quanto a Putin - o meu apreço pela figura não existe, disse-o retoricamente - concordo que constrói a imagem do líder todo-poderoso: o que abrange a hipotética conjuge e todos os outros.
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 12:50

Só agora pude ler o texto que indicou (através de link) e concordo. Não sabia que a "primeira dama" tinha «direito a gabinete e a colaboradores»! Nos EUA, calculei que sim, pois vive igualmente na Casa Branca e faz parte do "aparelho presidencial". Mas em Portugal? É novidade para mim (penso que nunca me ocupei do assunto).

Eu falei mais no facto singelo de a "primeira dama" acompanhar o marido. Acho bem, se o casal se sente bem junto (penso que seria o caso dos Gorbachev). Mas não considero obrigação. Caso contrário (eles não se darem muito bem), ou se a "primeira dama" for uma pessoa mais avessa às luzes da ribalta, pois que surja o Presidente sozinho. E referi a "primeira dama" na Rússia, porque este é um país notoriamente machista e parece que cai mesmo mal a mulher do Presidente andar sempre a aparecer.

De resto, o nosso sistema patriarcal continua a criar situações difíceis. Falo no caso monárquico, cujas leis se modificaram (até em Espanha!) e o sucessor do trono já não é um homem (o filho mais velho, independentemente da idade das irmãs), mas a criança mais velha. Na Suécia, a lei já funcionou uma vez (a herdeira de Carlos Gustavo é a princesa Victoria, apesar de ter um irmão) e vai funcionar outra vez, já que a filha de Victoria é mais velha do que o filho. Esta modificação da lei, porém, não resolveu o problema de a esposa do rei se intitular automaticamente rainha, mas não o marido da rainha, que continua a ser o príncipe consorte.

Quanto ao documentário que referi, já o vi há bastantes anos e não fui agora pesquisar. Lembro-me de focar esse aspecto de as mulheres soviéticas serem obrigadas a agir na sombra, apesar de se lhes exigir a sua prestação. E o mesmo descreve Vanessa de Almeida no seu livro "Mulheres da Clandestinidade" sobre as mulheres do PCP. É muito interessante.

Tenho para ler igualmente "Mulheres de Armas", de Isabel Lindim, e "Memórias de uma Falsificadora", de Margarida Tengarrinha. E olhe que não sou de esquerda!
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 18:39

Parafraseando já não sei quem: "tantos livros para ler e tão pouco tempo..."

Obrigada pelas sugestões.
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De marta a 26.04.2019 às 13:47

Bem mais curta que o livro, aqui vai a entrevista da Anabela Mota Ribeiro a Irene Pimentel: https://anabelamotaribeiro.pt/64735.html

Boas leituras!
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De Cristina Torrão a 27.04.2019 às 10:48

Obrigada, marta.
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De jpt a 25.04.2019 às 19:29

A "primeira dama" tem esse gabinete e seus colaboradores de tal forma que até está legislado - eu lembro de Belém ter enviado os seus assessores aquando de uma cheia em Moçambique em 2000/1 para preparar a visita da "primeira dama" que iria entregar uma forte ajuda humanitária, que tinha congregado em Portugal. E de eu ter resmungado se aquilo (despesas ligadas a essa viagem e sua preparação) não seria ilegal. Que não, que até está legislado. Foi-o no tempo de Sampaio para enquadrar o que já era prática desde Eanes. Que fique explícito, não estava na altura, nem estou agora, a criticar o esforço solidário que então foi feito nem o presidente de então (Sampaio) e sua mulher.
A minha questão é outra, e foi o que botei no texto que lhe indiquei - tem 15 anos!, e é engraçado ao relê-lo ver como então blogava, os textos eram bem mais vulcânicos, numa forma bem mais blogal. Não há dúvida que fiquei (e ficou o bloguismo) bem mais conservador -, que, e sem que haja uma crítica intelectual e política (em particular pelos mais ligados ao feminismo) das funções simbólicas que são atribuídas às primeiras-damas (veja-se o caso da mulher de Obama, tão querida pelos movimentos da esquerda identitarista, e nisso dos feminismos, que fazia o papel da mãe culta e inteligente, preocupada com a alimentação saudável. Uma boa "dona de casa" e "mãe de família", por assim dizer. Sim, é um país de obesos, os pobres engordam com a comida industrial, mas não deixa de reproduzir estereótipos que não passam pela crítica, que é tão omnipresente noutras áreas e se dedicada a outro tipo de personagens)

Raisa Gorbatchev era um caso especial - independentemente da senhora e da relação que teria com o marido, o seu colocar no centro das atenções serviu para tentar patentear uma URSS diferente, moderna. Não era exactamente a mera reprodução, um pouco segunda a moda actual, da mãe burguesa de XIX., Mas de resto, as outras personagens, decalcam completamente esse ideal.

Ser de esquerda ou não tem muito que se lhe diga. Há (muita) gente que se sente descansada, confortável, assumindo um local qualquer no tabuleiro do jogo de Monopólio. De facto, quer dizer muito pouco. Principalmente devido ao que depois são levados a apoiar ou refutar, que nada tem a ver com o que julgam que são.
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De Anónimo a 25.04.2019 às 00:43

Não há mais ninguém importante que a mulher , basta perguntar aos filhos .
E não venham chatear com outras questões pois elas são completamente acessórias para a comunidade .

Luis Almeida
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 08:42

A mulher é mãe, o resto é acessório.
Eu não sou mãe, sou completamente inútil para a comunidade. Se fosse homem, já era diferente, claro, mesmo que não fosse pai.
Obrigada, iluminou o meu dia.
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De Pedro Vorph a 25.04.2019 às 09:22

Cristina, o DO (comentadores) está a abarrotar de machos ibéricos, saudositas do "Botas", ou mesmo do Rolão Preto, simpatizantes da Liga 28 de Maio e da Heidi - mas ressalvo, tudo gente boa.


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De Pedro Vorph a 25.04.2019 às 09:08

Cristina eu gostei do seu texto. Apenas estava a brincar.

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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 12:53

Tudo bem, Pedro.
Comente sempre!
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De Vento a 25.04.2019 às 10:59

Redacção

O 25 de Abril foi um dia porreirito: todo o mundo teve feriado e, devido aos problemas ecológicos e à falta de terra, o povo teve de plantar cravos nos canos dos fuzis. Foi um dia que todo o mundo pôde ver chaimites e canhões e permitiu que os machos dissessem que participaram na revolução.

Imediatamente a seguir constatou-se uma grande revolução culinária: o uso da manteiga, por ser matéria mais ecológica, pois disto nos deu a conhecer o grande filme revolucionário designado por "último tango em Paris". Não obstante, em prol do conhecimento e do desvendar dos mistérios políticos, um filme de natureza politica, designado por "garganta funda", deu inicio ao desvendar do caso "watergate", pois veio a provar-se que um dos precursores desse acontecimento levava por nome "garganta funda".
E vai daí, apareceu-nos emanuel. Não o Emanuel (Deus connosco), mas a emanuel deusa com todos e com todas. Foi porreiro, aquilo é que era uma deusa, e ainda difícil de substituir. Uma dádiva universal.
E também surgiram outros conteúdos culturais designados por porno-grafia. Isto sim, isto é que foi mostrar o quanto a cultura e as técnicas cinematográficas estavam a evoluir. A paixão que se colocava e o realismo das cenas, o multiculturalismo e as expressões corporais deram a conhecer o quanto os estrangeiros e as estrangeiras estavam bem mais evoluído(a)s na arte de representar. Aquilo é que era cultura, e bem provou que a arte merecia ser aberta ao grande público!

O 25 de Abril foi um grande dia histórico, abriu-nos o véu da história: os operários começaram a comer lagosta, camarão e queijo da serra; e os grandes capitalistas passavam a comer açorda, cação, carapaus, sardinhas, arroz de grelos, ovos escalfados e sopa de ervas do campo. Foi o prenúncio de que estas seriam as iguarias do futuro e que se tornariam acessíveis somente a uma classe que soubesse preservar os valores e os manjares tradicionais. Pois hoje os operários, também chamados de cientistas, comem pão e, com sorte, migam-no em água. Sendo que a lagosta e o camarão passaram a ser um decorativo em prato para inglês ver.
A política mudou totalmente, o corporativismo limitado a uns transformou-se em corporações para mais alguns, e tudo ficou na mesma fazendo parecer que é de todos.

Depois de tudo isto vieram as mulheres da revolução; e como com elas tudo é imprevisível deixo para mais tarde o encerramento deste capítulo.
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 12:58

Olhe, gostei de ler este seu comentário, tem piada.
Realmente, não se aguentava de tanta pornografia. Havia até revistas pornográficas, com capas bem explícitas, nas papelarias onde nós crianças íamos comprar os livros escolares. Que, na altura, estavam constantemente esgotados e nos obrigavam a milhentas idas às tais papelarias (ainda não havia hipermercados).

Sim, havia essa ideia de que os estrangeiros eram mais evoluídos e se afogavam igualmente em pornografia.
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De Vento a 25.04.2019 às 20:27

Verifico que, um pouco mais recomposto, lá continua a sua santa e imaculada cruzada. Não li os links que anexou, mas, pela tradição, estou convencido que você pensa que no fogo dos outros se purifica.
A mulher de Ló, ao olhar para trás, com o que acontecia a Sodoma, mas concretamente por ter o coração naquilo que foi condenado ao fogo, também não escapou ao castigo.
Tenho pena de si, o seu não será diferente se continuar por aí.

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De Anónimo a 26.04.2019 às 14:50

Vá deixe-se disso...abraço

Pedro Vorph

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De Anónimo a 25.04.2019 às 11:27

Para quem não estava inspirada, gosto da sua opinião e escrita.Já alguns dos seus seguidores não têm a mesma opinião. Bom dia.
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De Cristina Torrão a 25.04.2019 às 13:00

Obrigada. Desejo-lhe igualmente um bom dia.

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