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A virtude do processo de decisão

por Alexandre Guerra, em 17.07.18

thailand-s-pm-prayuth-chan-ocha-gestures-with-acti

O primeiro-ministro tailandês, Prayuth Chan-ocha (direita), questiona o governador da província de Chiang Rai e comandante operacional do salvamento, Narongsak Osatanakorn (esquerda), sobre o plano para resgatar do sistema de grutas Tham Luang as doze crianças da equipa de futebol e o jovem treinador/Foto: Thailand Government House/Handout via REUTERS

 

Com as emoções atenuadas e os factos mais apurados, volvidos alguns dias depois do resgate bem-sucedido das doze crianças de uma equipa de futebol e do seu jovem treinador das entranhas do sistema de grutas Tham Luang na província remota de Chiang Rai na Tailândia, talvez seja importante fazer uma análise, não tanto à operação em si mesma, mas ao processo de decisão que esteve na sua origem. Porque, em grande parte, o final feliz desta história tanto se deve à coragem e perícia dos mergulhadores, como à “boa fortuna” e “virtude” dos decisores políticos que, sob pressão imensa, deram luz verde a uma operação quase impossível, numa lógica de mal menor, atendendo aos cenários dramáticos que se apresentavam: um salvamento imediato com riscos imensos para todos em plena época de chuvas; ou se aguardava por um abaixamento do nível da água, que poderia demorar meses, com vários imponderáveis que podiam resvalar facilmente para a tragédia. Embora as autoridades tailandesas nunca o tenham afirmado peremptoriamente, presume-se que esta segunda opção tenha acabado por ser posta de parte (se é que foi verdadeiramente equacionada), já que dificilmente as crianças sobreviveriam muitas mais semanas em ambiente de escassez crescente de oxigénio. Além do mais, havia ainda o risco, caso as chuvas se intensificassem, de, um momento para o outro, o nível da água subir de tal maneira que provocaria a inundação completa da caverna onde as crianças e o jovem treinador se encontravam.

 

Na prática, os decisores políticos, secundados pelo “expertise” militar e pressionados pela urgência da decisão face às previsíveis tréguas que a monção ia dar durante três dias, terão chegado à conclusão de que a escolha da segunda opção seria o mesmo que condenar aquelas treze pessoas à morte. É importante notar que a decisão última numa crise deste género é sempre solitária e, muito provavelmente, coube ao primeiro-ministro tailandês, Prayuth Chan-ocha, dar a aprovação final para que os militares avançassem pelo resgate imediato.

 

Uma decisão destas contém em si uma carga dramática, uma vez que não está isenta de riscos. Pelo contrário, qualquer dos cenários que foi colocado em cima da mesa de Prayuth Chan-ocha não dava garantia alguma de sucesso pleno, com os militares, certamente, a considerarem realisticamente a possibilidade de se verificarem baixas entre os resgatados e os mergulhadores (como, efectivamente, veio a acontecer).

 

É nestes momentos que se exigem decisões firmes aos líderes políticos, decisões que têm de ser tomadas num curto espaço de tempo, sob uma enorme pressão social e mediática, já para não falar na componente humana e emocional que se abate sobre um governante numa altura destas. Assim que a decisão foi tomada, passou a ser a estrutura castrense a liderar todo o processo, tendo o comando operacional do resgate ficado a cargo do também militar, o governador da província de Chiang Rai, Narongsak Osotthanakorn. Assumiu a operacionalização do plano, que contou com 150 militares e civis especializados de vários países do mundo. No terreno, coube aos Thai Navy Seals, sob a liderança do contra-almirante Arpakorn Yuukongkaew, implementarem cirurgicamente o que estava delineado no papel. E convém não esquecer de que estávamos a falar de uma gruta com cerca de três quilómetros de extensão, entre a entrada e o local onde se encontravam os resgatados, em que quase metade estava parcial ou totalmente inundada. Além disso, havia locais onde apenas passava uma pessoa e nada mais, nem mesmo a garrafa de oxigénio.

 

Analisando agora já com algum distanciamento, constata-se que tudo foi decidido e executado com determinação, firmeza e profissionalismo. E ao contrário do que foi dito por muitos, de milagre esta operação nada teve. Pelo contrário, se algo há a retirar de toda esta história, é que o Divino não teve qualquer papel relevante no processo de decisão política nem na operacionalização do plano. Quanto muito, os mais crentes poderão querer atribuir a causas mais místicas a “aberta” de três dias no tempo que permitiu a “janela de oportunidade” para que a operação avançasse.

 

A verdade é que este sucesso resulta de um processo virtuoso de decisão política, apoiado na única estrutura estatal capaz de dar resposta em ambientes particularmente adversos: os militares. O que aqui esteve em causa foi uma assunção cabal e corajosa do Estado na prossecução das suas funções mais elementares na defesa do seu Povo. Infelizmente, nesse aspeto, Portugal tem sido um triste e lamentável exemplo.

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12 comentários

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De Luís Lavoura a 17.07.2018 às 16:26

a decisão última numa crise deste género é sempre solitária

Não creio, de forma nenhuma, que seja uma decisão solitária. É certamente uma decisão colegial. Só num Estado totalitário é que as decisões são solitárias. O primeiro-ministro tailandês terá tomado a decisão em conjunto e com aconselhamento contínuo com outros ministros e com as chefias militares.
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De João André a 18.07.2018 às 08:57

Vindo de um individualista (OK; libertário, ou liberal, ou lá como seja) este seu post é muito colectivista. Cada decisão coube em última instância a uma pessoa. Inicialmente a quem decidiu que o processo seria liderado pelos militares e, dentro destes, a quem deu luz verde à operação. Claro que houve um processo colegial de planeamento e avaliação de riscos, mas a decisão final entre várias opções foi de uma pessoa. Terá tido conselhos sobre qual a decisão a tomar, mas a decisão foi sempre individual.
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De Luís Lavoura a 17.07.2018 às 16:30

o Estado na prossecução das suas funções mais elementares na defesa do seu Povo

Isto é uma conversa muito bonita, mas quem tem a primeira obrigação de se defender é o próprio povo, ao ter o cuidado de não se colocar em situações de risco.

Nomeadamente neste caso, o salvamento foi uma operação muito bela, mas convem pensar na parvoíce que levou os meninos a avançar sem parar por uma gruta adentro, quilómetros a fio.

No caso português, também convem pensar na parvoíce de pessoas que insistem em continuar a morar nas suas aldeias ancestrais, quando já não têm força nem capacidade financeira para limparem as terras à volta dessas aldeias.

A primeira e melhor defesa é a precaução.
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De O Gajo a 17.07.2018 às 17:31

"Isto é uma conversa muito bonita, mas quem tem a primeira obrigação de se defender é o próprio povo" - E assim do próprio Povo nasce a vontade de um Estado. A primeira Obrigação da Razão de Estado é a protecção das suas populações. Dos muitos que não conseguem, por si, proteger-se
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De João André a 18.07.2018 às 08:55

Qualquer especialista em segurança diz que o principal responsável pela segurança pessoal é a própria pessoa. No entanto não é a única pessoa responsável. Existe um conjunto de medidas que têm que ajudar cada indivíduo a poder ser responsável pela sua própria segurança.

Neste caso as medidas falharam: a gruta seria nessa altura segura. As indicações seriam que a gruta poderia ser explorada ness aaltura do ano porque não haveria ainda chuvas. Durante a exploração, as chuvas chegaram e inundaram as entradas. Nessa zona, quando a monção chega, as chuvas podem ser tão brutais e trazer tanta água para determinadas zonas de captação, que as entradas podem ficar cheias num par de horas.

O problema seria o equivalente de, numa praia, termos uma bandeira verde ou amarela e, num par de horas, se formar uma corrente submarina sem que o nadador-salvador se apercebesse. Nesse caso os banhistas arriscariam a vida ao pensar que poderiam nadar sem riscos de maior.
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De O Gajo a 17.07.2018 às 17:20

Contrastando com a relutância russa em assumir o problema que tinham com o Submarino Kursk e evitando, até mais não poderem, um pedido de auxilio internacional.
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De Anónimo a 17.07.2018 às 18:03

" Infelizmente, nesse aspeto, Portugal tem sido um triste e lamentável exemplo."
Não me parece justo nem adequado fazer esta declaração neste contexto.
De facto, desde a "exemplar descolonização" até aos últimos incêndios florestais, Portugal "tem sido um triste e lamentável exemplo".
Mas, estou certo, perante uma situação como a tailandesa, fortemente mediatizada, Portugal ter-se-ia saído também a contento.
Tão bem como na Expo, no Euro, nos inúmeros festivais de verão...
Somos incapazes de nos organizarmos para uma vida mais próspera e justa.
Mas adolescentes numa gruta inundada de água e de jornalistas seria canja.
Seria mais um evento de sucesso.
Não tenho dúvidas.
João de Brito
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De Vento a 17.07.2018 às 20:33

O seu texto vai bem esgalhado até ao momento em procura introduzir o Humano e o Divino como factores antagónicos.

O risco não é e nunca foi um valor em si mesmo, mas um meio ponderado para se atingir a eficácia em um qualquer empreendimento. O risco como valor em si mesmo faz parte dos tolos. O risco calculado é aquele em que se procuram as variáveis, mesmo aquelas que se sabem vir a causar adversidades, para conseguir o bem maior.
E nisto, meu caro Alexandre, o Humano e o Divino complementam-se.

A maior operação de resgate que ocorreu no pós guerra foi a queda do muro de Berlim; e sem a intervenção do Divino, em todas as suas circunstâncias Humanas, não poderia ter ocorrido.

Quanto a Portugal, uma operação também de resgate ocorreu em 1970 na Guiné Conacri (operação Mar Verde), território hostil e soberano. E saímos de lá com os 26 prisioneiros portugueses feitos pelo PAIGC (só não se destruíram os Mig 15 e alguns outros alvos). A maioria, senão a totalidade dos humanos que aí interveio, incluindo os operacionais africanos seleccionados a dedo para essa operação, também sabiam que o Divino daria uma ajuda: quer no planeamento quer na execução.
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De Gay a 17.07.2018 às 21:59

Tem razão. O divino, na maioria das vezes, serve de mascote. Dá sorte, assim como uma pata de coelho
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De Vento a 19.07.2018 às 22:07

Percebe-se que se sentiu tocado. Nesta matéria há sempre quem queira jogar aos dados.
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De Sérgio De Almeida Correia a 18.07.2018 às 05:55

Caro Alexandre,
A operação foi um êxito, salvaram-se vidas e devemos estar todos satisfeitos com isso.
Mas há, todavia, dois aspectos que lendo o teu texto não podem ser esquecidos, independentemente do sucesso da operação e da forma como tudo foi planeado e gerido até ao seu final, incluindo a própria relação com a imprensa: a natureza do regime tailandês, por um lado, e a concessão de imunidade diplomática, por outro lado, a alguns dos participantes estrangeiros que foram fundamentais para o sucesso da operação.
Parece-me demasiado simplista colocar as coisas nesses termos.
Todos os regimes têm virtualidade e defeitos. E não é a mesma coisa viver e decidir num regime sob a ameaça permanente das armas e numa democracia. Para o bem e para o mal (a Tailândia continua a registar uma das mais altas taxas de mortalidade mundial nas estradas, logo a seguir à Líbia, coisa que, pelos vistos, os militares se mostram pouco eficientes: "since Gen Prayut instructed officials to work on a policy plan in May last year, there has been little progress", cfr. https://www.bangkokpost.com/news/general/1376875/thailand-tops-road-death-ranking-list).
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De António a 18.07.2018 às 13:35

Cá os miúdos morriam antes de alguém fazer alguma coisa, e o PR ia consolar as famílias com uma equipa de fotógrafos atrás, afirmando que tinha sido feito o possível. O PM ia de férias e a Ministra responsável adulteraria o número de vítimas. Seriam feitos grandes discursos e muitos decretos, os donativos de solidariedade desapareceriam, e um mês depois acontecia o mesmo numa gruta ao lado.

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