Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A viragem grega.

por Luís Menezes Leitão, em 28.01.15

Contrariando as perspectivas optimistas de rendição de Tsipras às posições de Merkel, os primeiros sinais que vêm da Grécia são muito elucidativos. Primeiro, o facto de o primeiro acto de Tsipras ter sido homenagear os gregos vítimas do nazismo, numa clara mensagem para Merkel que se prepara para levantar a questão das indemnizações não cobradas à Alemanha após a guerra. Logo de seguida Tsipras tem uma reunião com o embaixador russo, e nesse mesmo dia a Grécia bloqueia uma declaração conjunta dos países da União Europeia sobre a Rússia. Tsipras mostra assim urbi et orbi que o seu coração pende muito mais para Moscovo do que para Berlim. Tal pode significar uma alteração do posicionamento geo-estratégico da Grécia, um país da Nato com uma posição fulcral no Mediterrãneo Oriental, e que pode agora assumir-se como o cavalo de Tróia de Putin dentro da União Europeia.

 

No plano económico as primeiras medidas de Tsipras assemelham-se às do PREC: fim das privatizações, electricidade gratuita para 300.000 gregos e salário mínimo nos 751 euros. Os danos que isto vai causar na competitividade da economia grega são evidentes. Mas não me parece que isso preocupe os actuais governantes gregos. No Portugal de 1974 também o salário mínimo foi colocado em valores tão elevados que em termos reais nunca mais foram atingidos, o que, juntamente com as intervenções nas empresas, arrasou completamente a economia. Mas isso não fez perder um segundo de sono aos homens sem sono e muito menos a Vasco Gonçalves. Os dirigentes comunistas não se costumam preocupar com a saúde da economia capitalista e muito menos com os mercados, que já fizeram os juros gregos disparar e a bolsa cair a pique. Recorde-se que Mao-Tsé-Tung dizia: "Está um caos total debaixo dos céus. A situação é excelente".

 

O que me aborrece é que tudo isto era previsível e poderia ter sido evitado se não fosse a incompetência total na gestão da crise europeia por parte de Merkel e Barroso, naturalmente apoiados por Passos Coelho que acha tudo isto um conto de crianças. Mas os contos de crianças também ensinam algumas coisas: uma delas é que os génios podem ser perigosos quando são libertados da garrafa.

Autoria e outros dados (tags, etc)


14 comentários

Sem imagem de perfil

De Vão longe... a 28.01.2015 às 17:19

Como já comentei noutro post do DdO, electricidade gratuita é pura nefelibatice. Assim, e para começar, as pessoas vão-se marimbar para apagar as luzes quando delas não precisarem ou a tv quando não a estiverem a ver. E quem não for abrangido mas for vizinho irá fazer o que puder para arranjar uma ligação clandestina e deixar também de pagar. Apenas uma tarifa reduzida faria sentido, obviamente.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 28.01.2015 às 18:08

Em geral, bens gratuitos são pura nefelibatice. Incluindo estacionamento gratuito nas cidades.
Sem imagem de perfil

De Irra! a 28.01.2015 às 21:09

Muito parecido. Nada para arranjar confusões idiotas como cavadores.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 29.01.2015 às 09:06

Bem me parecia que a referência à necessidade de o estacionamento nas cidades ser pago iria provocar irritação.
Imagem de perfil

De RAA a 28.01.2015 às 17:23

" O coração pende muito mais para Moscovo, do que para Berlim." É possível. Não haverá neste momento nenhum coração da Europa do Sul que penda para Berlim, excepto o de Passos Coelho. Daí a extrapolações sobre uma alteração estratégica da Grécia, parece-me, para já, um pouco precipitado. E mesmo que a Grécia de Tsipras não endosse a estúpida política externa da UE relativamente à Ucrânia, tal não terá forçosamente outro significado que não esse mesmo, pois, como se sabe, a não consegue ter interesses permanentes comuns. Com a política de Berlim, aliás, essa ilusão acalentada por muitos (eu incluído) desfez-se por muitos e bons anos. Veremos se a seguir não se desfará a própria UE.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 28.01.2015 às 18:09

a estúpida política externa da UE relativamente à Ucrânia

Diz bem. Estúpida se não mesmo criminosa.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 28.01.2015 às 18:18

Esqueceu-se do meu. Mas já percebi que é um neo-comunista que acha que os russo têm direitos a violar o que quiserem.

É preciso ter valores bem trocados para colocar o ónus em quem quer que seja excepto nos Gregos. Endividaram-se, viveram à larga num país comparativamente ineficiente e não produziram com o crédito que pediram que lhes desse para sequer o pagar.

Sem imagem de perfil

De da Maia a 28.01.2015 às 19:10

Muito bem.

Tsipras ainda não chegou ao ponto da sua congénere:
http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?did=154481

Os gregos ficam um pouco acima de metade do salário mínimo alemão.
Se Merkel tivesse decretado que tal salário dependeria da produtividade de cada região alemã (sendo conhecidos problemas a norte e a leste), ainda poderia ter moral para criticar.
Não o fez, considerou que as regiões alemãs seriam iguais.
Por isso, não vejo como poderá pensar que os gregos podem estar a sonhar querendo pouco mais de metade. Será porque aqui a malta do Senhor dos Passos se sacrifica aguentando com pouco mais de 1/3 do valor alemão.

Sejamos claros, dificilmente alguma vez poderíamos falar em "união económica" com disparidades destas. É claro, perante as curtas vistas, centradas no seu burgo nacional, tudo estava a pedir a confrontação.

Tsipras dificilmente conseguirá aguentar os 750 euros, mas poderá conseguir impor os 750 mil dracmas, brevemente.
Só que isso significará provavelmente o fim do euro, porque assim que os países entrarem na sua lógica nacionalista, a lógica imperialista, que tem prevalecido, irá ser ameaçada.
O que está em cima da mesa é a posição nacionalista contra a posição imperialista.
Não creio que ninguém seja burro ao ponto de não prever o que se pode passar... simplesmente há quem queira que se passe assim.
Sem imagem de perfil

De William Wallace a 29.01.2015 às 06:12

Pois acho bem que os Gregos pensem pela sua cabeça e não queiram arranjar mais lenha para se queimarem além da que já têm.

A leste Putin e bem não se amedrontou com sanções económicas e os "rebeldes" após rechassarem várias ofensivas do pseudo exército ucraniano passaram á ofensiva e ganham terreno todos os dias estando prestes a cercar o exercito ucraniano na zona de conflito.

A UE e os USA patrocinaram a alimentaram a revolta de uma praça para satisfazerem desejos económicos e Geo-Estratégicos e pelo andar da coisa vamos pagar todos.

Quanto ao resto perdido por 1 perdido por mil, pois o que nós vemos aqui todos em Portugal é a completa destruição da capacidade de pagarmos as nossas dividas com a riqueza que poderíamos produzir com a subsidiação do Estado a monopólios privados sem qualquer retorno para a sociedade.

Ao menos os Gregos acordaram e de esquerda ou direita vão começar a defender os seus interesses numa União Europeia que prima sobretudo pelo parasitar dos fracos pelos fortes e se for para continuar assim mais vale a pena sair e já !

Estou farto de ladrões e corruptos, não merecem o ar que respiram, deviam pagar por ele.
Sem imagem de perfil

De da Maia a 29.01.2015 às 19:57

Não dês ideias, ainda que pagar o ar, já está documentada:
https://www.youtube.com/watch?v=R6JUkZgDcPI

Eu acho que a sorte dos gregos é que a ideia não é atacá-los a eles, mas sim atacar a UE como um todo, e em especial a Alemanha. Por isso, o Syriza vai correr bem enquanto conseguir sacar o máximo da UE, já que isso irá destabilizar o euro. Os tubarões de Wall Street e da City de certeza que estão a apostar forte nesta altura... e não apostam em Merkel para já, pois seria quem renderia menos lucro. A Grécia por enquanto é só um meio para outro fim... os gregos foram quase forçados a fazer este caminho, com as sucessivas imposições europeias.
Portanto, os cordelinhos foram puxados, agora às bruxelas só resta a vassoura - ou a UE varre a Grécia, ou vai ceder e cair com ela...
Sem imagem de perfil

De Futuro Risonho a 28.01.2015 às 20:53

Desde o início de Janeiro, os bancos gregos já perderam 11 mil milhões de euros em depósitos, avança a Bloomberg esta quarta-feira, 28 de Janeiro.

E, de acordo com fontes da agência noticiosa, a fuga de depósitos terá atingido um nível recorde na semana passada, na recta final para as eleições legislativas que catapultaram para o poder o Syriza, o partido anti-austeridade. A retirada de dinheiro dos bancos gregos terá sido ainda maior do que a registada em Maio de 2012, altura em que a possibilidade de a Grécia abandonar a Zona Euro estava em cima da mesa.

(Jornal Negócios)
Sem imagem de perfil

De Vento a 28.01.2015 às 22:13

Por favor, acrescente-se estou em total acordo consigo relativamente ao último parágrafo.
Sem imagem de perfil

De Vento a 28.01.2015 às 22:12

Antes de tudo gostaria de dizer-lhe que repetiu os dois primeiros links.

Depois apresentar um link sobre o que aqui referi a respeito do interesse da Rússia:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/grexit-6990607#comentarios

Em terceiro, dizer que a medida relativa ao aumento do salário mínimo é uma boa medida, uma vez que eles necessitam fazer subir o consumo interno. Mas as demais também o são no contexto.

Quarto: A subida dos juros gregos terá efeito neutro neste "conflito".

Por último: estou em total acordo consigo.


Sem imagem de perfil

De Vento a 29.01.2015 às 12:43

Permita que inclua mais um comentário.

Num comentário a um post de Luís Naves tive oportunidade de referir que aguardaria a forma como os EUA reagiriam à situação grega, aqui;

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/eleicoes-decisivas-7050383#comentarios

Pois surgem agora os indícios de como se resolverá a situação grega:
http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=1&did=176504

Andam por aí uns analistas que julgam que estas coisitas da economia se centram no facto de se saber fazer umas contitas. Mas eu sei que muitas destas análises não passam de propaganda ao serviço de interesses de partidos e até mesmo de governos, o que no caso português também é mato, e não possuem qualquer base de sustentação que explique a realidade mundial.

A situação grega, juntamente com o que foi a infeliz situação na Crimeia e Ucrânia, por culpa desta UE, poderá ser a salvação desta Europa.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D