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A vingança de Malthus

por João André, em 11.02.19

Em 1798, Thomas Malthus escreveu o seu "An Essay on the Principle of Population", onde, de forma muito resumida, previa que a disponibilidade de recursos levaria a um aumento de população até um ponto onde os primeiros não sustentariam a segunda, isto é, os recursos seriam insuficientes para a população. Os recursos a que se referia eram essencialmente a produção de alimentos e a sua visão foi influente o suficiente para se falar em catástrofe malthusiana ou em pensamento malthusiano.

 

Malthus não tinha (penso) uma previsão para o momento em que o crescimento da população seria restringido pela disponibilidade de alimentos, mas seja como for, as suas previsões não se cumpriram até à II Guerra Mundial. Malthus tinha no entanto apontado guerra, peste e fome como instrumentos de controlo do crescimento populacional. Neste contexto, a Grande Fome (Great Famine, no original) na Irlanda em meados do século XIX, a I Guerra Mundial e a Gripe Espanhola de 1918 apoiariam as suas teses. Ainda assim, após a II Guerra Mundial, no período de desenvolvimento económico e científico que se seguiu à catástrofe, a produção agrícola disparou, especialmente através da Revolução Verde. Alguns neo-malthusianos apontaram que tal apenas reforçaria as teses de Malthus, dado que este apontava a sobre-abundância de alimentos como a causa para o aumento rápido da população.

 

Houve no entanto dois aspectos que contrariaram a tese de Malthus. Por um lado, a tecnologia continuou a permitir um aumento da produção de alimentos ao ponto que, hoje, seria teoricamente possível alimentar toda a população do planeta, mesmo sendo esta consideravelmente mais vasta que em 1960. O segundo aspecto é o facto de a prosperidade, inicialmente nos países ricos e mais tarde nos restantes, leva a uma redução da taxa de natalidade, especialmente quando a prosperidade vem associada a uma maior educação das mulheres. A população tem continuado a aumentar, mas a ritmos variáveis e, nos países ricos, só aumenta devido ao influxo de imigrantes e a um aumento da esperança de vida. Num livro recente, os autores argumentam que, ao contrário do que se espera, este fenómeno relacionado com a educação feminina levará a uma diminuição da população mundial já dentro de 3 décadas (não li o livro, apenas deixo o link para o artigo).

 

Parece então que a catástrofe malthusiana pode ser evitada. Pelo menos do lado dos alimentos. Mas será completamente evitável?

 

2018 viu um aumento da consciência social um pouco por todo o lado. Foi a questão dos plásticos; foi o aviso que poderá já ser quase tarde demais para evitar aumentos de temperatura catastróficos; foi a informação que metade da Great Barrier Reef, bem como 15-30% (as estimativas variam) dos corais do oceano estarão a morrer de forma acelerada (e o IPCC estima que se o aumento de temperatura ficar apenas nos 1,5 ºC, 70-90% dos corais desaprecerão); foi a notícia recente que pelo menos um terço dos glaciares do massivo Hindu Kush-Himalaias estarão a desaparecer; foi o aparente aumento da frequência de episódios de tempo extremos (calor na Austrália, frio nos EUA, tufões e tempestades tropicais em alturas incomuns e em zonas onde não sucedem frequentemente); é a seca em múltiplas partes do mundo; são os insectos a desaparecer, etc, etc, etc.

 

Tudo isto está relacionado com uma coisa: uma voracidade pelos recursos do planeta que não tem par em qualquer outra altura dos 4,5 mil milhões de anos da Terra. Não se trata só das alterações climáticas induzidas pelo aquecimento global causado pela actividade antropogénica. O problema dos plásticos está também relacionado com isto: os recursos naturais (vidro, papel, madeira, etc) são limitados e não têm a variedade de usos que os polímeros (no caso, com à base de petróleo) oferecem. O declínio das populações de insectos está correlacionada com as revoluções verdes e o uso extensivo de insecticidas que permanecem no solo durante anos e que destroem as larvas de onde oclodiriam os novos insectos. As populações animais estão em declínio, em parte pela desflorestação e em parte pela caça. Em alguns casos a caça, especialmente de herbívoros de grande porte ou de predadores de topo, é tão ou mais responsável quanto desflorestação intensiva.

 

Isto reflecte uma realidade muito malthusiana. Não tanto pelo lado dos alimentos, mas pelo lado do desenvolvimento ou conforto ou luxos. O aumento do consumo de carne nos países em via de desenvolvimento é responsável por muitos dos actuais problemas climáticos. O desejo de ter os mais recentes brinquedos electrónicos (o iPhone 234.2 ou o iPad ou o Tesla ou a nova TV plasma-LCD curva a 360º ou as luzes LED que iluminam permanentemente por baixo da sanita para o caso de ser necessário apanhar a escova de dentes. Tudo isto, bem como todos os outros bens que poderiam ser mencionados, exigem recursos para a sua produção (ou para fornecer os serviços envolvidos), sendo que muitos deles não estarão ligados directamente ao produto (o plástico ou o metal do produto que teremos na mão) mas serão essenciais para a sua existência, na forma das cadeias de produção, nomeadamente no transporte, construção do equipamento envolvido na sua produção, equipamento auxiliar ou outros recursos (no limite até na produção do balcão da loja que vende o produto).

 

Todos estes recursos, além disso, são de via única, ou seja, não são recuperáveis. Há elementos nos sistemas de reciclagem ou reuso que ajudam a evitar esta armadilha, como o ciclo da água ou do carbono (por exemplo o CO2 libertado na queima de combustíveis é capturado por árvores que depois morrem e se afundam no subsolo acabando por dar origem a mais combustívei fósseis). A dificuldade é que não só a reciclagem nunca pode ser perfeita (a 2ª lei da termodinâmica impede-o) mas em termos de engenharia actual (ou prevista para o próximo século) não é possível sequer estar perto de 100% de eficiência. Isso significa que mesmo um hipotético cenário Soylent Green não permitiria sustentabilidade.

 

Isso significa que de um ponto de vista matemático, iremos sempre acabar por consumir mais recursos do que recuperamos num sistema fechado. No caso do nosso planeta, este problema pode ser resolvido devido aos sistemas implícitos de reciclagem do planeta (água, CO2, sais, temperatura, etc), mas estes são tão lentos que exigem uso ponderado dos recursos. No entanto a população continua a crescer e a pedir mais recursos per capita. Isso significa que continuaremos a usar mais recursos do que os que temos disponíveis e atingiremos um momento em que a procura ultrapassará a oferta. E não vale a pena defendermo-nos falando em tecnologia porque esta resolve os problemas utilizando mais de outros recursos. A revolução verde é um excelente exemplo: foi possível graças a novos fertilizantes e pesticidas, mas estes têm também os seus custos em termos de recursos de outro tipo (outras matérias primas, energia...).

 

Isto significa que, no fim das contas, Malthus acabará por ter razão. O planeta terá recursos limitados, mesmo contabilizando as entradas (energia solar, gravidade...) no sistema. O nosso ritmo de consumo, seja de forma directa (comida) ou indirecta (recursos para fertilizantes) será sempre mais intenso que a capacidade de reposição dos mesmos no planeta. Em alguns aspectos, estaremos pior (água, biodiversidade, clima) que noutros e teremos que fazer mais e mais depressa, mas em todos os aspectos o nosso desenvolvimento está a ultrapassar a capacidade que o planeta tem de o sustentar. A vingança, mesmo indesejada, acabará por chegar.


4 comentários

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De João Campos a 11.02.2019 às 16:14

O Matt Damon já mostrou como plantar batatas em Marte. Se calhar é por aí... :)

Fora de brincadeiras, se calhar algumas das soluções estão mesmo no espaço...
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De João André a 11.02.2019 às 16:33

Gostei mais do livro (surpresa!). E a versão audiobook está espectacular. Aconselho vivamente. Mas o filme está bom, especialmente pelas opções que fizeram sobre o que cortar.

Não acredito na opção "espacial". Primeiro porque ainda não estamos avançados o suficiente (basta ver o esforço que foi para colocar uma simples estação espacial em órbita) e segundo porque Marte não tem nada de útil e qualquer planeta (ou satélite) que o tenha está demasiado longe.

O mais provável é ter um colapso de uma forma ou outra e a população diminuir de forma brutal. Isto parece-me pessimista, mas falta-me optimismo não fundamentado para acreditar em soluções...
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De Anónimo a 11.02.2019 às 19:27

Ainda que haja muitos desafios para superar no que à exploração espacial diz respeito, diria que o problema não é tanto tecnológico (a tecnologia existe, ou desenvolve-se) como económico (é muito difícil justificar os custos, por óbvios que sejam). E, claro, é também - sobretudo - de vontade, ou de falta dela. O que os norte-americanos fizeram numa dúzia de anos há cinco décadas foi espantoso; hoje, provavelmente todo o programa seria cancelado imediatamente após o desastre da Apolo 1.

É certo que os programas espaciais norte-americano e soviético foram, para todos os efeitos, o maior "pissing contest" da história da Humanidade; e mesmo assim foram tremendamente inspiradores. Se calhar do que precisamos para dar o salto para o vazio (no bom sentido) é de uma boa e velha competição...

Enfim, talvez o colapso fosse evitável com uma mudança profunda na forma como as sociedades estão organizadas. Como isso não deverá acontecer sem um colapso... então sim, o colapso deve mesmo ser inevitável.
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De João André a 12.02.2019 às 09:54

O lado económico é fundamental, claro, mas o científico não é de desprezar.

Primeiro: as distâncias. No livro The Martian, Andy Weir demonstra a melhor hipótese actual para viagens espaciais tripuladas: motores iónicos. Ainda assim estamos a falar de viagens extremamente longas mesmo apenas dentro do sistema solar (às vezes esquecemo-nos que Saturno, por exemplo, está quase tão longe de Júpiter quanto Júpiter do Sol. E quando falamos de Neptuno, Úrano, a cintura de Kuiper ou a nuvem de Oort, então são distâncias tão grandes que demoraria muitos anos para uma nave espacial com apenas uns 5-10 humanos para lá chegar. E ainda não estaríamos em nenhum local útil. Próxima Centauro está a 4 anos luz e também não tem interesse para nós excepto pela proximidade...

Dentro do Sistema Solar, não há nenhum local onde a civilização poderia viver em números significativos de forma sustentável. Marte não tem atmosfera e é esse o maior problema. A água está congelada e se a usarmos para encher a atmosfera de oxigénio, ficamos sem a água. Para aquecer a atmosfera de forma a descongelar o gelo, necessitamos de quantidades industriais de CO2. Para termos CO2 precisamos de o libertar das rochas através de aquecimento (e o CO2 seria de imediato reabsorvido se a temperatura baixasse um pouco). E mesmo assim, com CO2 e O2, ainda estaríamos a 70% de ter uma atmosfera útil, uma vez que nos faltaria o azoto. E mesmo que enchêssemos a atmosfera de azoto, o problema da gravidade manter-se-ia: Marte não tem gravidade suficiente para manter uma atmosfera útil para nós. E os problemas aumentam nos outros planetas ou satélites.

Claro, é possível que amanhã alguém mude o paradigma da ciência e descubra uma forma científica para permitir a viagem mais rápida que a luz (ou contorne esse problema). A dificuldade neste momento não é simplesmente tecnológica (construir o equipamento que a ciência consegue imaginar), mas científica: não temos ideia de como seria possível ter uma viagem interestelar (ou mesmo dentro do sistema solar) em períodos que fossem compatíveis com as exigências da vida humana.

Mas concordo com a tua avaliação final. A maior mudança na sociedade humana a nível global surgiu com o final da II Guerra Mundial. Como não acredito que seja possível evitar uma nova guerra a nível mundial e como a tecnologia nos levou a um ponto onde a devastação será muito pior (mesmo com a mortalidade de 3% da população mundial como na II GM, teríamos hoje 270 milhões de mortos). Nova catástrofe do género traria certamente uma nova ordem mundial. Não sei se seria melhor ou pior, mas seria certamente diferente. E acredito que caminhamos nessa direcção.

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