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A tribo do futebol.

por Luís Menezes Leitão, em 16.05.18

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O antropólogo Desmond Morris publicou uma vez um livro intitulado A tribo do Futebol, defendendo que o comportamento dos adeptos desportivos tem raízes no nosso passado mais primitivo, corresponde a uma forma de competição entre tribos que desde a pré-história faz parte do comportamento humano. E de facto quando os factores identitários tradicionais estão em crise, as pessoas agrupam-se através das suas preferência clubísticas, esquecendo toda e qualquer racionalidade, e seguindo o chefe da tribo em qualquer direcção mesmo que para o abismo.

 

A situação que o Sporting está a atravessar já foi atravessada por outros clubes, como o Benfica no tempo de Vale e Azevedo, mas isso não desculpa a irracionalidade em que aquele clube decidiu cair, num processo autofágico absolutamente destrutivo. Hoje um clube desportivo e uma sociedade desportiva gerem um património de milhões, em passes de jogadores, contratos televisivos, contratos publicitários, etc. É manifesto que esse património não pode ser posto em causa por estados de alma de um presidente. Mas a verdade é que facilmente esse presidente consegue obter votações albanesas dos sócios, mesmo quando qualquer observador sereno vê que a situação está a atingir o descalabro. O que esta história está a demonstrar é que os clubes de futebol não têm uma estrutura com os adequados pesos e contrapesos que o património que possuem e as aspirações dos adeptos exige. Numa qualquer outra sociedade, qualquer presidente que começasse a tomar decisões claramente contrárias aos interesses da empresa seria imediatamente destituído. Nos clubes de futebol limita-se a dizer que está a ser injustamente atacado pelos inimigos do clube e apela à união dos sócios que imediatamente o reconfirmam de olhos fechados, permitindo-lhe continuar a avançar até a situação chegar ao descalabro.

 

Mas o mais triste disto tudo é que os políticos vão pactuando com esta situação, havendo deputados comentadores desportivos e recepções aos clubes desportivos nas câmaras municipais, numa promiscuidade entre a política e o futebol a todos os títulos indesejável. As únicas excepções de que me recordo foram António Guterres, que se recusou sempre a receber Vale e Azevedo, e Rui Rio, que deixou sempre claro a Pinto da Costa quem é que mandava no Porto. Os restantes políticos fazem questão em assumir proximidade aos dirigentes desportivos, até aceitando convites para o futebol. Mas acho que se ultrapassam todos os limites, quando o Presidente da Assembleia da República acha que deve comentar a actuação do presidente de um clube de futebol. É nessa altura que acho que não foi só o Sporting, mas o próprio país que bateu no fundo.

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15 comentários

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De Luís Lavoura a 16.05.2018 às 18:30

O Presidente da Assembleia da República tem 69 anos de idade e já está um bocadinho gagá.
(Atrevo-me até a sugerir que a filha dele seria bem mais capaz de desempenhar o cargo sem fazer excessivas asneiras.)
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De Anónimo a 17.05.2018 às 14:35

Já Bruno de Carvalho, que tem 46 anos, parece tão velho como Trump.
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De Meister Von Kälhau a 16.05.2018 às 18:31

Mais uma vez secundo-o. Gostei de o ouvir no Prós e Contras . O governo se quer habitação social que seja ele o proprietário ou que pague parte da renda.....Luís depois do desvio a afinidade entre política e o futebol é electiva. Símbolos, hinos, berro, música, Acção. A razão moderna usada como racionalização da emoção primitiva....a extensão do Poder pela destruição do Outro. Na política, no futebol, no Liebe.
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De Costa a 16.05.2018 às 20:09

Creio que não. Pode parecer que bateu, mas muito provavelmente ainda é só lodo. Afinal vivemos num país onde quase diariamente senhores jornalistas reportam - em visíveis e audíveis transes de incontida comoção quase religiosa - a partir de um local que designam, com inabalável convicção de prosélitos, de "cidade do futebol". Coisa assim chamada não por uma inflamada devoção clubística, por isso naturalmente sem grande sentido das proporções e a olhar talvez com alguma bonomia - a mesma com que, no máximo, merecem ser olhadas as "academias" da bola -, mas por um organismo que, perdidamente inchado na sua megalomania de poder de facto (e, suponho, direito), parece esquecer a noção do bom senso e objectividade de que deveria ser rigoroso guardião.

E parece estar tudo muito bem assim.

Talvez quando finalmente os senhores presidentes dos clubes de futebol, dos ditos "três grandes", no caso, cumprirem o que parece ser um antigo e mal-contido objectivo de lançar o país numa guerra civil mais ou menos informal e de fundamento tão religioso como tantas outras no passado (objectivo que parecem ir acarinhando e mantendo numa espécie de estado de prontidão, distante não mais da sua concretização do que uma palavra lançada às legiões de "ultras", "super", "juventudes", "rapazes sem nome" e afins ansiando por essa ordem e licença, e que só forças e intenções inconfessáveis explicarão não tenham ainda sido pura e simplesmente ilegalizadas e duramente reprimidas), talvez aí se bata no fundo.

E nessa altura, como será de futebol que se tratará, quem sabe em vez de desgraça ainda se venha a falar de momento de verdadeiro orgulho nacional.

Costa

Ps.: Guterrres cuidou de sabiamente dispensar na sua vida a conveniência da legitimação eleitoral atribuída pelo "soberano" português. Rio - diga-se da sua conduta como líder político o que se disser - sabe (deve saber) que potencialmente se auto-mutilou em larguíssimos milhares de votos, e por fortíssima crença, donde comprometeu seriamente as coisas, ao enfrentar (e curvo-me perante a sua coragem) o senhor da guerra do norte.
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De Meister Von Kälhau a 17.05.2018 às 08:38

Cidade dos homens, de deus e agora também do futebol
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De lucklucky a 16.05.2018 às 21:45

Portugal está doente.

A palavra Populismo é só empregue quando é a Direita. Quando é a Esquerda chama-se ser "Democrático" ou chama-se "Justiça Social".
Por isso nunca quando um político apascenta a tribo do futebol sofre a etiqueta do jornalismo de populista.
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De Anónimo a 16.05.2018 às 21:48

O presidente e do sporting Como se diz ma minha terra POIS ELEVA
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De Vento a 16.05.2018 às 21:56

Como a polícia já tratou do caso, para mim é um ponto final. O Presidente da Assembleia tem de comentar a lei da matança que vai ser discutida, com o nome de eutanásia, no dia 29 de Maio. Mas também as outras leis que continuam a matar.
Para um governo que tanto se preocupa com o sal e o açúcar, a ponto de taxar estas excelentes iguarias, e também o tabaco, que é um excelente companheiro, fico surpreendido que se meta a comentar estaladas e não o que de substantivo habita nesta nação: o respeito pela Vida, por Viver e pela dignidade que habita cada ser em qualquer situação de sua vida.

Neste momento existem 3 partidos que são a esperança da nação: o PCP, o PSD e o CDS/PP. Eu recomendaria aos votantes do PS, em particular aos expectantes em Seguro, a migração de seus votos para um destes 3 partidos.

O BE já demonstrou que vem não para resolver o problema dos excluídos e encapotados por números em sua miséria, mas para preencher uma agenda dita modernista, para parecer que sim.
O PS, esgotado que está em suas paráfrases, continua a não ser capaz de explicar o sentido e significado de ser governo.
Se quando não se é capaz de apontar caminhos e antecipar, evitando, situações se recorre ao faz de conta legislativo para tentar mostrar que se avança desestruturando a essência de uma nação, como o faz o PS e o BE em matérias que designo por farturantes e não fracturantes, então, comentar situações que são de facto triviais, e podem ser facilmente contidas pela autoridade, só revela o referido esgotamento.

Como veio à baila o assunto através de um comentador, na realidade é necessário colocar um fim à lei das tendas, lei Cristas. A propriedade, ou a posse desta, não nos desobriga de responsabilidades sociais. Mas o Estado deve também fazer seu papel, e não só legislar. A posse não determina a vontade de um sobre o outro e o direito a exercer em qualquer circunstância essa mesma vontade.
Uma das formas que resolveria o problema era o governo legislar para se colocarem os stocks de habitações vazias, em particular as detidas por fundos e bancos, no mercado.
É este o papel do governo, regular.
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De Tiro ao Alvo a 17.05.2018 às 08:52

Quanto às casas vazas, penso que bastaria que todos os seus detentores, essencialmente fundos imobiliários e Bancos, pagassem IMI por esses prédios e a situação mudava rapidamente.
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De Meister Von Kälhau a 17.05.2018 às 12:54

Já pagam!
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De Tiro ao Alvo a 17.05.2018 às 14:14

"casas vazias", claro.
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De rão arques a 16.05.2018 às 22:36

Sobre o P.A.R. que nos ofende repito o que já deixei noutro sitio:
Este agora deu em juiz? Apontar um dedo de mão cagada é feio!
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De jo a 17.05.2018 às 11:22

Parece que a culpa dos desmandos do futebol é dos políticos, dos presidentes dos clubes, das claques, da justiça, da política.

Ninguém se lembra dos adeptos.

O ambiente de trogloditas à volta do futebol existe porque existem adeptos e muitos.
Acha-se normal que se diga que não se tem de ser racional com o futebol e seguidamente clama-se que a irracionalidade atingiu pontos impensáveis.
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De Meister Von Kälhau a 17.05.2018 às 12:58

A maior irracionalidade é pensar que é a razão que nos traz o bom senso.

O ambiente do futebol é igual ao da politica. O Excesso de algo comanda o sonho da Vida.
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De jo a 17.05.2018 às 18:12

Se o ambiente do futebol fosse igual ao da política teria de haver polícia de intervenção antes de qualquer manifestação e os manifestantes seriam revistados e acantonados antes.
Graças a Deus ainda não chegámos a este ponto.

Acho fantástico que alguém se diga adepto de uma organização que trata como criminosos potenciais todos os que vão ver os seus jogos, com revistas e acantonamentos de adeptos frente aos cassetetes da polícia.

Só demonstra que no futebol qualquer um se acha no direito de ser um vândalo.

Visto isso, não percebo a admiração com os incidentes do Sporting. É uma consequência lógica dom que vem detrás.

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