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No século XVI, um dos maiores prémios da exploração asiática era o controlo das ilhas Molucas, onde se produziam algumas especiarias importantes. Aquele arquipélago (na actual Indonésia e que surge muitas vezes escrito como Ilhas Malucas) era distante e sobre ele pouco se sabia na Europa, como pouco se sabia sobre a Ásia e o Índico, o que explica o enorme interesse no Tratado dos Descobrimentos, livro escrito pelo português António Galvão e publicado em 1563, já depois da morte do autor. A obra, a primeira do seu género, tornou-se muito famosa no século XVII e foi traduzida para inglês em 1601, quando as outras potências europeias começavam a interessar-se em estabelecer os seus próprios impérios.

Galvão foi um militar exemplar e participou em múltiplas acções de combate na Índia Portuguesa e nas costas de África. Tinha uma carreira irrepreensível, foi governador das Molucas e, apesar da coragem e honestidade dos seus serviços, regressou a Portugal, para viver na pobreza e até o seu funeral foi pago por esmolas. O editor do livro, Francisco Sousa Tavares, lamentava o tratamento dado ao autor seu amigo e a “fraqueza da natureza humana, que vindo ele  (António Galvão) a Portugal com grande confiança, que pelo que tinha feito devia ser mais favorecido e honrado, que só trouxera cem mil cruzados, se achou muito enganado, porque nele não achou outro favor ou honra, senão a dos pobres miseráveis, quero dizer, o do hospital: onde o tiveram dezassete anos, até que dele morreu e dele lhe deram o lençol para o amortalhar” (1).

  

Em resumo, esta é uma história sobre como servir a pátria e acabar com uma mão à frente e outra atrás. Entre os livros que António Galvão escreveu no final da vida estará um volume sobre A História das Molucas, perdido total ou parcialmente, do qual existe um esboço ou uma cópia parcial que o militar e cronista não terá escrito pelo seu punho. O texto sobrevivente, chamado Tratado sobre as Ilhas Molucas (2), tem informação preciosa sobre as sociedades nativas, as condições de vida e também sobre o curto período em que Galvão esteve a comandar aquele distante e crucial pedaço do império. Pela primeira vez, são associadas as descrições da geografia e do contexto histórico, um princípio que o capitão português viria a desenvolver na sua obra máxima, o já referido Tratado sobre os Descobrimentos, que teve enorme influência na compreensão europeia do mundo.

No documento que sobreviveu sobre as Molucas a geografia exótica é sempre comparada a zonas mais familiares: “O mar é quente e não do de Espanha diferente” escreve o autor, antes de explicar até que ponto o arquipélago está repleto de especiarias cujos preços atingiam fortunas nos mercados da Europa: “A noz, maça, pimenta-longa, gengibre e cravo”, entre outras.

A riqueza das plantas locais era imensa, com nomes estranhos, como sagueiros, nipas, arequeiras, jaqueiras, catapas, mangueiras, caramboleiras, canárias, lanceiras, cada uma com frutos sumarentos e ricos, doces ou nutritivos. O escritor descreve minuciosamente os insectos, as colheitas, os peixes e os pássaros, as cobras no mar e as feições dos homens, que são, segundo diz, “forçosos, manhosos, desenvoltos e bem dispostos (...) grandes nadadores (...) dados muito aos vícios e pouco aos trabalhos”. Nada escapava à atenção do narrador, dos costumes às minúcias políticas, a religião, a justiça, a maneira como as pessoas locais trabalhavam e combatiam: “São de grandes ardis, ciladas e homens destros nas armas e têm por costume ou leis não ferir nem matar os reis”.  

A escassa cultura científica das elites não académicas é exemplificada neste trecho, no qual o autor se espanta com a informação de que a Ilha de Ternate fica na latitude de São Tomé, sendo a segunda insalubre e a primeira gozando de boas condições: “A causa disto eu não a posso entender, senão se é São Tomé ser de todas as partes cercada de terra firme e receber os maus vapores dela”. As ilhas estariam em pólos opostos da Terra e isso introduzia um problema insolúvel: “Porque parece estarem contrapostos [os homens] e que devem andar com os pés uns para os outros (…) Causa disto fique a quem melhor entender”.

Tirando curiosidades como neste excerto, para mais em frases relativamente confusas, o Tratado sobre as Ilhas Molucas (atribuído a António Galvão ou escrito por alguém que o transforma em personagem central) está repleto de informação etnográfica e detalhes sobre a história dos territórios. De resto, Galvão devia ser um homem instruído, tendo em conta o seu tempo e profissão. O militar tinha boas ligações familiares, pois era filho bastardo do cronista Duarte Galvão, ele próprio um português cuja vida dava um filme e que morreu em 1517, quando chefiava uma embaixada à Etiópia.

Para além da origem familiar, pouco mais se sabe sobre a infância e juventude de António Galvão, nem sequer o ano em que nasceu ou o nome da mãe. A incerteza sobre a data de nascimento não permite saber que idade tinha em 1522, quando embarcou rumo à Índia, num navio que era comandado por um primo seu. Sabe-se que fez uma viagem de regresso a Portugal e que voltou à Índia, onde se distinguiu como um dos comandantes militares mais capazes, a ponto de ganhar a confiança do governador Nuno da Cunha, que o nomeou em 1536 para liderar a presença portuguesa na ilha de Ternate, no arquipélago das Molucas. Conhecendo todos os recantos do império, Galvão dispunha de muita informação e conhecia as grandes histórias que viriam a constar do seu famoso livro sobre os descobrimentos.

 

Na década de 20 do século XVI, as ilhas Molucas eram reclamadas por Portugal e por Castela, que não se entendiam em torno da divisão do mundo acordada em 1494 em Tordesilhas, e que dependia da dimensão da Terra. Fernão de Magalhães, ao serviço dos castelhanos, tentara demonstrar que a fonte das especiarias estava na esfera castelhana, mas a rota de Magalhães era mais difícil do que a portuguesa, pois as distâncias tinham sido subestimadas pelo navegador português, cuja frota saiu de Sevilha em 1519.

Tordesilhas definira um meridiano que passava a 370 léguas de Cabo Verde, na direcção do poente, mas o tratado era vago sobre a posição exacta do respectivo prolongamento oriental, que devia definir os dois hemisférios, o português e o castelhano.      

Em 1524, houve um acordo, que envolveu um pagamento português e deu a Portugal o comércio das Molucas, mas pouco antes, em 1522, os portugueses tinham entrado em força na região, erguendo em Ternate uma fortaleza e construindo uma pequena colónia que se dedicava ao controlo do comércio internacional de cravo, produto abundante na ilha e muito apreciado na Europa. A presença portuguesa foi contestada pelos habitantes e na década seguinte houve guerras e rebeliões, com uma actuação inábil dos invasores, que exerceram grande violência.

 

António Galvão chegou ao Maluco em Outubro de 1536, achando a fortaleza de São João Baptista de Ternate “ainda pior e mais desbaratada do que dela contava, a ilha despovoada e os lugares queimados, tudo destruído, muita gente portuguesa e escravos mortos” (3). Através de um misto de força e diplomacia, Galvão submeteu as ilhas rebeldes, tendo inclusivamente casado com uma princesa de Tidore, para evitar o prolongamento da guerra, e “mandou à princesa muitas peças ricas em que ia uma cadeia, manilhas e uma espera de ouro, cheias de âmbar, para os ter mais contentes; assim que por todas as vias este casamento não lhe custou pouco, o qual foi celebrado com muitas festas, prazeres e triunfos”.

A reconstrução foi penosa e não havia recursos para o fazer. A certo ponto da narrativa, o autor do Tratado sobre as Ilhas Molucas queixa-se que António Galvão mantinha a fortaleza “quase às suas custas, emprestando dinheiro a el-rei”, pois tinham sido tirados “quatro mil bares de cravo” e ele, Galvão, não ganhara “um só arrátel”. Nos quatro anos em que exerceu o cargo de governador, o militar e cronista podia ter acumulado uma enorme fortuna, mas pagou do próprio bolso as despesas do Estado. Não havia dinheiro para manter o poder português naquela zona ou as verbas ficavam pelo caminho. Na prática, Lisboa abandonara Ternate à sua sorte.

Mesmo assim, Galvão não apenas pacificou as ilhas, mas mandou construir um seminário e promoveu a colonização de cristãos e isso também lhe custou dinheiro. O capitão estava obcecado com a evangelização dos nativos e tomou decisões que o arruinaram, promovendo a construção de novos edifícios, comprando mantimentos para as tropas, exigindo a honestidade absoluta nas contas do comércio. Em última análise, Galvão entrou em conflito com os mercadores que o tentaram subornar e acabou por ser recambiado para Lisboa em 1540.

O capitão caíra em desgraça e regressou à Pátria crivado de dívidas. O militar tinha atingido interesses poderosos, talvez ao recusar permitir o comércio de feitores que pretendiam enganar a coroa e contavam com um governador corrupto que aceitasse receber a sua comissão nos lucros. Tinha também feito alguns amigos e dedicou-se à escrita, para ganhar dinheiro. Estes auxílios permitiram-lhe sobreviver 17 anos no Hospital Real (na imagem), onde ajudava a tratar os doentes, apesar dele próprio estar debilitado pelos efeitos das doenças tropicais. Os homens poderosos do seu tempo faziam fortuna pessoal, mas Galvão tentou defender os lucros da monarquia e quis travar a corrupção do império.

O cronista viveu um heroísmo efémero e acabou por se transformar num doente embaraçoso. António Galvão morreu em 1557, na maior miséria. Teve um funeral de indigente e dizem que deixou uma dívida de dois mil cruzados.

 

 

(1) Tratado sobre os Descobrimentos, introdução do editor Francisco Sousa Tavares, Lisboa, 1563.

 

(2) Tratado sobre as ilhas Molucas (António Galvão nas Molucas), manuscrito no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha, de autor desconhecido, transcrição para português actual de Maria da Graça Pericão, edição de Luís Albuquerque.

 

(3) idem

 


5 comentários

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De Luís Lavoura a 01.10.2014 às 13:15

a Ilha de Ternate fica na latitude de São Tomé, sendo a segunda insalubre e a primeira gozando de boas condições

Interessante observação. Alguém sabe explicar isto?
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De da Maia a 01.10.2014 às 21:29

Por respeito à importância da memória de António Galvão, fazer um texto destes com referência nula ao conteúdo do seu livro, que contradiz grande parte da oficializada historieta dos descobrimentos, é uma afronta despudorada ou indigente.

O livro é referido por Hayklut, o tradutor inglês, da seguinte forma:
"The work though small in bulk contained so much rare and profitable matter, as I know not where to seek the like, within so narrow and straight a compasse".


Hayklut é uma figura relevante na exploração marítima da Inglaterra de Isabel I, e há uma sociedade prestigiada que tomou o seu nome.

Reduzir António Galvão à figura do "desgraçadinho", seria como falar das desgraças da vida de Camões, omitindo os Lusíadas.
Para crime à memória é suficiente saber que a obra de António Galvão é ainda hoje marginalizada, ao contrário do tradutor inglês.

Por isso, se este texto tem o lado saudável de trazer António Galvão à memória, trazê-lo assim seria um total fracasso e uma afronta. A menos que alguém acrescentasse aqui um comentário suficientemente exaltado para chamar a atenção para a importância da obra que está digitalizada:
http://purl.pt/15321

Em particular, basta referir a passagem seguinte, para se perceber como Galvão revela que o conhecimento do Estreito de Magalhães estava documentado em mapas, pelo menos 100 anos antes da viagem de "descobrimento":

No ano de 1428 diz que foi o Infante D. Pedro a Inglaterra, França, Alemanha, à Casa Santa, e a outras daquela banda, tornou por Itália, esteve em Roma, e Veneza, trouxe de lá um Mapamundo que tinha todo o âmbito da terra, e o Estreito de Magalhães se chamava "Cola do Dragão", o Cabo de Boa Esperança: "Fronteira de África", e que deste padrão se ajudara o Infante D. Henrique em seu descobrimento. Francisco de Sousa Tavares me disse que no ano de 1528 o Infante D. Fernando lhe mostrara um Mapa que se achara no Cartório de Alcobaça que havia mais de cento e vinte anos que era feito, o qual tinha toda a navegação da India, com o Cabo de Boa Esperança, como as de agora, se assim é isto, já em tempo passado era tanto como agora, ou mais, descoberto.

Santa paciência...
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De Luís Naves a 02.10.2014 às 10:36

Lamento não ter citado os seus numerosos e frequentes textos sobre este tema e peço desculpa por centrar este post na passagem de Galvão pelas Molucas, o que de facto é lamentável. Também verifico que o seu direito à crítica tem a curiosa tendência para considerar cada frase que escrevo como uma verdadeira afronta à sua inteligência. É uma curiosa forma de bullying, da minha parte, que este comentador sofre, quando choca com os meus posts gratuitos. Sugiro um remédio infalível: há por aí tanta coisa melhor para ler.
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De Vento a 03.10.2014 às 12:11

O seu texto é de uma extraordinária subtileza, parabéns. O Luís pega na história para contar as estórias cá da terra.

Permito-me concluir que das entranhas da história emerge o presente histórico.
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De xico a 03.10.2014 às 21:37

Obrigado por trazer esta história e este homem que desconhecia. Infelizmente a nossa história está repleta de homens honestos maltratados. Mas não será essa a condição de um homem honesto? Não se gosta de homens honestos, já Aristides o sabia!

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