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A tradição já não é o que era

por José Meireles Graça, em 04.11.19

Os partidos tradicionais, com excepção do PS, estão-se a esfrangalhar debaixo do nosso nariz.

O PCP era o refúgio dos operários mal pagos que odiavam o Mercedes do patrão, dos velhos intelectuais antifascistas que o regime anterior maltratou e perseguiu, e do lúmpen alentejano que uma terra pobre deixava na miséria. Mas operários há menos, de indústrias mais pequenas e com grande taxa de mortalidade, pertencentes a patrões sufocados por uma fiscalidade voraz e inquisitorial; os velhos estão a morrer, e os novos marxistas são da versão gramsciana porque a da Bayer abriu falência em 1989; e os vários programas para desprotegidos, desempregados e reformados com que a esquerda, e ocasionalmente a direita, compraram fidelidade e votos, mais o reforço dos meios das autarquias locais, que se transformaram em empregadoras-mores, foram lentamente desarmando a bomba do ressentimento, tanto e tão bem que bastiões do PCP se transformaram em bastiões do PS. A actual direcção do partido dos trabalhadores, aterrorizada com o que poderia fazer o fascista Passos, depois de liberto da troica, puxou para cima de si a tampa do caixão, aliando-se ao figadal inimigo PS e afugentando a clientela, que se foi acolher sob as asas protectoras e modernas do Bloco, quando não emigrou para paragens ideológicas mais longínquas.

O Bloco aburguesou-se: disponibilizou um untuoso conselheiro para o Estado e o Banco de Portugal, do seu ventre revolucionário brotou pelo menos um empreendedor de modernidades imobiliárias, fornece habitualmente comentadores para as televisões mainstream e já um ou outro dirigente, se espremido, se confessa social-democrata – está aqui está a distribuir ex-dirigentes por empresas públicas, bancos e grandes grupos do ramo das mercearias e utilities.

O PSD descobriu que tinha dentro de si não apenas tendências, como os outros partidos também têm mas menos barulhentas, mas dois partidos inconciliáveis: um o de Passos e Miguel Morgado, outro o de Rui Rio. O primeiro chegou à conclusão que a social-democracia nórdica, que entretanto até mesmo nos países de origem se tornou num fantasma de si mesma, não casa nem com a demografia actual, nem com a globalização, nem com taxas de crescimento exangues, se é que alguma vez nos conveio; e o segundo amarrou-se a um teimoso impenitente, regionalista primário e obcecado com a Justiça e o jornalismo decadente, cujas diferenças em relação ao novo PS são de estilo e quadros, não de substância, sob o alto patrocínio de um intelectual que não entende hoje, como não entendeu quase nunca, o mundo que o rodeia. Estes dois partidos poriam em surdina as suas divergências se, estando no Poder, houvesse lugares para distribuir. Para lá chegar, porém, precisam de se unir. Não o farão.

O CDS sempre conciliou dentro de si com alguma dificuldade as três capelas que o compõem, e sempre foi obrigado a confiar num líder que, sem ostracizar excessivamente nenhuma delas, tivesse a autoridade bastante para garantir uma unidade estratégica. Partido tradicionalmente minoritário, porque nasceu quando os outros já tinham abarbatado os lugares no aparelho do Estado, e sendo visto inicialmente como o depósito do remanescente vencido da Velha Senhora, nunca teve vida fácil. Daí que quem o dirija tenha muito menos margem para erros tácticos, e mais ainda estratégicos. Assunção navegou sempre à vista, deslumbrou-se com o resultado nas autárquicas em Lisboa, que imaginou projectáveis para o país, o eleitorado não lhe tolerou as hesitações e os erros, e cada uma das capelas concluiu, e trombeteia, em particular a que nega ser, mas é, confessional, que com ela é que o CDS não sei quê.

Quanto aos novos partidos:

O PAN não é bem um partido, é mais uma anedota servida por rousseaunianos demasiado ignorantes para sequer assim se imaginarem, fornecendo uma estrutura reivindicativa e respeitabilizadora para sentimentalismos antropomórficos. Pode servir de muleta para o PS, que lhe comprará alguns dos delírios em troca de apoio, mas o seu moderado sucesso não deve estar longe do limite: o entusiasmo com a legislação protectora dos animais domésticos durará até os respectivos donos se derem conta de que o não são, apenas guardiães forçadamente extremosos (os animais têm uma sorte que não cabe aos velhos exilados em instituições da terceira idade), e logo que bandos de cães ferais ataquem velhos ou crianças; assim como é apenas uma questão de tempo até que os grupos sociais que não subscrevem as pieguices panianas, nem as pulsões ditatoriais em matéria de alimentação e comportamentos, comecem a exigir que esta escumalha demente e imberbe regresse às bolhas das redes sociais, de onde nunca deveria ter saído.

O Livre é um partido pessoal de um radical egocêntrico e palavroso saído das coudelarias do Bloco, e depositário das maluqueiras reviso-esquerdistas que, com origem nos EUA, têm vindo a tomar conta dos campus universitários em todo o mundo. São igualitaristas à outrance, feministas raivosos, internacionalistas, e depositários de conceitos exóticos como a interseccionalidade, óptima para doutoramentos em tretas ininteligíveis, excepto para os Boaventuras Sousa Santos desta vida. São também completamente a favor da liberdade de opinião, desde que de esquerda, e do capitalismo, desde que, por via fiscal, depurado dos seus efeitos até realizada a perfeita igualdade material entre os cidadãos (dito de outro modo, os meios de produção pequenos e médios não devem ser nacionalizados, mas sim o seu rendimento – uma concepção de capitalismo suicidário que o Bloco também partilha, Deus nos dê paciência).

Este Livre é um nado-morto: inaugurou o seu primeiro dia no Parlamento com a entrada triunfante da eleita Joacine, acolitada por um assessor de saias. Ou seja, uma negra que assumidamente acha um triunfo ser eleita por causa da cor da sua pele (ao contrário de Obama, que foi eleito apesar de), como se esse facto não devesse ser uma irrelevância, da sua gaguez, como se ela a recomendasse para o exercício do cargo, e que se fez acompanhar de um homem que se veste de mulher, como se o Parlamento fosse o sítio indicado para estabelecer regras em modas e bordados.

A IL é um caso sério. Sangrou o CDS na sua ala liberal, e com isso enfraqueceu-o (tal como o Chega, por outras razões), mas há motivos para as doutrinas liberais, em Portugal, nunca terem levantado voo (nas últimas décadas; em tempos mais recuados as razões são diferentes): é que o regime saído do 25 de Abril criou, à sombra do Estado, uma mole de dependentes feita de funcionários, reformados, pensionistas, subsidiados, as suas famílias, que constituem hoje o partido do Estado. E naqueles serviços que o eleitor estima, e não dispensa, como o SNS ou a Educação, a propaganda sufocante de esquerda fez passar com sucesso a ideia de que a propriedade pública dos estabelecimentos era indissociável da universalidade e eficiência. Este nó só poderá ser desatado por uma nova crise, ou, se ela tardar, pela constatação melancólica e lenta de que Portugal se atrasa paulatinamente em direcção a todas as caudas. Entretanto, a IL fará, com maior visibilidade, a mesma propaganda e pedagogia que os seus simpatizantes vêm fazendo há muito nas redes sociais. Com que resultados, é cedo para dizer.

O Chega é um partido de protesto contra o politicamente correcto, e tenderá portanto a sobraçar as causas conservadoras e securitárias, ambas ofendidas por toda a sorte de esquerdismos dirigistas e engenharias sociais sortidas. É o partido dos indignados de direita. Espaço tem porque preenche um vácuo; e muito não será, porque Portugal não é a América republicana.

Que sairá deste caldeirão? Que a direita, toda a direita, se deve unir para eleições, em torno de um programa mínimo, deixei escrito noutro texto, largamente apreciado por pelo menos três pessoas, das quais duas com reservas. Isso é certo. Mas, até lá, a tentação será grande para a agressividade:

Dos dois PSDs entre si porque um é de direita e o outro rigorosamente ao centro, isto é, o lugar geométrico de coisa nenhuma, sendo os dois incompatíveis porque um pode, se as circunstâncias o permitirem, aliar-se ao PS, e o outro não.

Do CDS contra a IL e o Chega, porque ambos são concorrentes directos a faixas do seu antigo eleitorado.

Da IL contra os partidos ditos de direita, por terem pactuado em alguns momentos com o PS, e por terem nos seus programas, e nas suas práticas, inclinações dirigistas e intervencionistas, em nome da democracia cristã ou da social-democracia.

Do Chega contra todos porque nasceu em nome da recusa do que está, tudo o que está, a benefício de soluções simplistas para problemas complexos.

Não é impossível que se assista, desde logo no PSD, a uma prática que não tem grande tradição entre nós, e é aliás olhada com suspeita, de mudanças de camisolas partidárias; se o CDS vai conseguir reconquistar eleitorado perdido dependerá do perfil do dirigente que escolher; a IL e o Chega só crescerão e se consolidarão se atraírem novas vagas de desencantados, o que está longe de automático ou garantido; e a reconfiguração da direita, qualquer que seja,  tendo embora o maior interesse para as tribos envolvidas, apenas o terá obrigatoriamente para o país não se mas quando vier a crise.


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