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A tradição ainda é o que era

por Luís Naves, em 18.07.18

O anti-americanismo visceral das elites portuguesas merecia estudo, mas há outra constante nas relações luso-americanas: Washington sempre olhou para Portugal como um país irrelevante ou um aliado pouco fiável. Como tentei explicar no meu livro Portugal Visto pela CIA (Bertrand 2017), a espionagem americana teve indisfarçável simpatia pelos nacionalistas que combatiam os portugueses nas antigas colónias e a CIA chegou a sonhar com a independência de Angola. Na abrilada de 1961 os americanos tentaram derrubar Salazar ou, no mínimo, ficariam contentes se isso tivesse acontecido. No Verão de 1974, e apesar dos insistentes pedidos de ajuda do general Spínola, os EUA abandonaram o novo regime à sua sorte, o que facilitou a radicalização revolucionária. Podia dar outros exemplos deste desencontro histórico. O facto é que a esquerda portuguesa sempre detestou a América e a direita sempre desconfiou das intenções imperiais da super-potência. Vem isto a propósito das opiniões que tenho lido ao longo dos últimos meses sobre Donald Trump e, em particular sobre a cimeira de Helsínquia com o presidente russo, Vladimir Putin. Neste segundo caso, é como se nunca tivesse ocorrido um encontro entre as duas maiores super-potências nucleares do mundo, nada disso, toda a controvérsia se concentra numa única frase de política interna americana. Aliás, existe um problema sério quando a política externa de um país é determinada ou condicionada por questiúnculas partidárias. A cimeira serviu obviamente para normalizar a relação entre as duas potências e evitar eventuais choques militares em três zonas de conflito onde os interesses russos e americanos ameaçam colidir. Na Síria, a Rússia apoia grupos xiitas ligados ao Irão, que por sua vez é inimigo declarado de Israel, país que qualquer presidente americano não hesitará em proteger. Outro evidente foco de tensão é a Ucrânia, onde rebeldes pró-russos contestam um governo pró-ocidental e controlam parte do território, com outra região, a Crimeia, anexada pela própria Rússia. Os três países bálticos, o terceiro problema potencial, são membros da NATO difíceis de defender, mas fáceis de desestabilizar, pois têm minorias russófonas que se sentem discriminadas. A redução destas tensões é algo de objectivamente positivo, mas nos textos portugueses que li sobre a cimeira de Helsínquia tudo isto foi ignorado, a favor da análise do costume sobre a estupidez americana (tese salazarista) ou de tiradas retóricas sobre a morte da democracia e o regresso do fascismo (tese revolucionária). Não considero preocupante que haja pessoas a escrever e dizer estas coisas, isso sempre houve. O que me inquieta é que só haja pessoas a dizer isto e que qualquer opinião divergente mereça insultos imediatos.


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