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Delito de Opinião

A ténue luz que se apagou de vez

Pedro Correia, 23.03.14

 

Nenhum político em Espanha foi tão aplaudido, nenhum político foi tão vilipendiado. Nenhum foi tão enaltecido em tão curto tempo. Nenhum acabou tão solitário como ele.

Adolfo Suárez, o homem que conduziu com habilidade florentina e uma vontade férrea a transição espanhola da ditadura para a democracia em dois anos vertiginosos, entre 1976 e 1978, morreu há poucas horas. Morrer, neste caso, talvez não seja a expressão mais correcta: seria melhor dizermos, como sugere Juan Cruz numa excelente prosa publicada no El País, que a ténue luz que ainda o iluminava se apagou de vez. A doença de Alzheimer, que lhe fora diagnosticada em 2003, mantivera-lhe relativamente incólume o corpo mas fora-lhe remetendo o espírito para parte incerta.

 

Foi um dos raros políticos que admirei sem reservas. Pela missão que levou a bom porto de reconciliar os espanhóis, incompatibilizando-se à vez com todos os sectores políticos, entre bombas da ETA e atentados extremistas cometidos a um ritmo quase diário naquele final da década de 70 por todos os inimigos da democracia, oriundos da esquerda e da direita. Sofreu ameaças de morte, foi alvo das mais torpes injúrias, mil vezes lhe vaticinaram um prematuro obituário político: ele soube resistir a todas as adversidades. Com uma assombrosa coragem física e moral.

 

 

Ficou na memória colectiva de todos os democratas -- em Espanha e não só -- aquele momento crucial, ao fim da tarde de 23 de Fevereiro de 1981, quando o Parlamento em Madrid foi tomado de assalto por oficiais golpistas armados até aos dentes enquanto decorria o debate de investidura do executivo liderado pelo seu sucessor, Leopoldo Calvo-Sotelo. Ao grito de "Todos no chão!", soltado pelo líder dos golpistas entre vários tiros intimidatórios, só dois civis se mantiveram sentados nos seus lugares do hemiciclo, sem se sujeitarem ao ditame do pistoleiro: Adolfo Suárez e o então líder comunista, Santiago Carrillo.

Aquele gesto de verticalidade do chefe do Governo cessante no que poderia ter sido o último dia da sua vida fez mais pela pedagogia democrática em Espanha do que mil discursos de cem políticos.

 

Tal como Churchill, despedido pelos eleitores britânicos no Verão de 1945, logo após ter ganho a guerra aos nazis graças à sua coragem inquebrantável, também ele recebeu guia de marcha depois de ter cumprido uma missão que parecia utópica: lançar as bases de uma democracia sólida num país que fora dilacerado pela mais sangrenta guerra civil dos tempos modernos e por quatro décadas de regime ditatorial. Uma das frases que proferiu nesses exemplares anos da transição espanhola podia bem servir-lhe de lema: "Posso prometer e prometo."

Ninguém como ele -- a par do Rei Juan Carlos -- fez tanto para pôr fim às "duas Espanhas" que sempre se encararam com ódio homicida e visceral. Ninguém como ele acabou por ser tão desprezado por ambas -- numa prova evidente de que a política devora muitos dos seus melhores talentos. E só a doença, somada aos dramas familiares que o afectaram, acabou por reabilitá-lo junto de quase todos quando não podia fazer sombra a ninguém.

Nessa altura Adolfo Suárez era já uma espécie de personagem póstuma ainda em vida. Perdeu a memória da missão histórica que desempenhou, deixou de reconhecer até os parentes mais próximos. Quando em 2008 o seu amigo Juan Carlos o visitou na residência madrilena para lhe entregar em mão a mais alta condecoração civil espanhola, limitou-se a perguntar-lhe com aquele sorriso desarmante que conservara de outros tempos: "Quem és tu?"

 

Por vezes questiono-me até que ponto degenerou a política europeia para termos deixado de ver à nossa volta homens com a envergadura de um Adolfo Suárez. Homens tocados por um sentido de elementar decência que os levam a servir da melhor maneira os concidadãos deixando as nações que governam mais respeitadas, mais dignas e mais livres. E que depois se afastam rumo ao crepúsculo, sem aguardarem honrarias nem esperarem o reconhecimento ou até a mais elementar gratidão dos contemporâneos, apesar de terem deixado a sua marca impressa no destino histórico. Bastando-lhes a convicção da missão cumprida e a certeza de terem contribuído para transformar o mundo num lugar mais habitável.

 

Leitura complementar:

Um homem já com lugar na História

Grandezas e misérias da política

As duas Espanhas

Suárez não sonhou com esta Espanha

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