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teamguterres.jpg

 

Para aqueles que vivem isolados de formas de vida pubescentes, uma breve nota prévia: o fenómeno Twilight consiste numa saga livresca adaptada ao cinema cuja história, em traços gerais (aqueles que a saga merece), se resume a um jovem vampiro e a um jovem lobisomem que se digladiam pelo coração de uma rapariga apática e sem graça nenhuma. Foi um fenómeno de audiências intenso e à escala planetária. A legião de meninas adolescentes que acompanharam a saga divide-se, portanto, em dois bandos: a Team Edward, que torce pelas ambições amorosas do vampiro; e a Team Jacob, que apoia os sonhos românticos do lobisomem. Ambos os bandos são de um fanatismo implacável, onde qualquer concessão ao adversário é entendida como uma traição imperdoável. Foi dos fenómenos populares mais profundamente imbecis dos últimos vinte anos.

 

O processo de selecção para o cargo de Secretário-Geral da ONU foi uma espécie de Twilight dos crescidos e, finda a saga, parece que ganhou a Team Guterres. Julgo ser um bom desfecho. António Guterres tem um perfil mais do que adequado ao desempenho da função em apreço. As suas prestações nas diversas rondas de avaliação foram quase sempre notáveis e, gostando-se ou não, a verdade é que António Guterres não só domina tecnicamente os assuntos, como demonstrou ter pensamento próprio sobre o sistema das Nações Unidas. Foi um excelente candidato, merecedor de todos os louvores. E, claro, como somos portugueses, ficamos sempre muito satisfeitos quando um patrício singra no estrangeiro.

 

Porém, apesar de meses de paixões arrebatadas e de críticas encarniçadas, nenhum apoiante ou detractor se deu ao trabalho de explicar a importância do cargo ao qual António Guterres era candidato. Tal como a saga Twilight ignorou por completo o folclore e a tradição literária do género, de Bram Stoker a Alexandre Dumas, passando por Oscar Wilde ou Robert Lewis Stevenson, o debate sobre a eleição de um novo Secretário-Geral da ONU ignorou, pelo menos em Portugal, temas prementes como a reforma do sistema da ONU, a representatividade do Conselho de Segurança, os procedimentos da Assembleia Geral, os limites da polémica R2P, as sérias debilidades das missões de 'Peacekeeping', entre outros assuntos. No espaço público português, este processo foi um deserto onde as ideias foram obliteradas pelas emoções. E agora que a vitória de António Guterres é um facto, a Team Guterres, embevecida, insiste no tom de candura juvenil e disparatada, defendendo que, por exemplo, a eleição deste nosso compatriota é na verdade um reconhecimento da enorme relevância de Portugal no mundo. Se a racionalidade não acompanhou o processo de selecção, agora que temos novo Secretário-Geral o registo do debate público continua pobre e fanático. Mas enfim, o que interessa é que o nosso galã ganhou. E, já agora, a miúda dele é muito mais gira do que aquele pãozinho sem sal dos filmes.


7 comentários

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De lucklucky a 06.10.2016 às 12:16

Também se esqueceram como o autor das violações que muitas tropas ao serviço da ONU fazem pelo mundo - fossem tropas dos EUA e teríamos notícas constantes por todos os jornais e TV's, promoção do terrorismo, impostos mundiais.
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De Luís Lavoura a 06.10.2016 às 12:18

Este post faz-me lembrar a fábula da raposa e das uvas. A raposa, não conseguindo saltar suficientemente alto para comer as uvas que estão numa latada, vai-se embora resmungando "também não valia a pena, as uvas estão verdes...".
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De Diogo Noivo a 06.10.2016 às 12:33

Tive um excelente professor na faculdade que nos dizia com frequência que se estava marimbando para o facto dos seus alunos lerem muito: "Pouco me importa que leiam muito. O que me interessa é que sejam capazes de entender o que estão a ler".
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De Luís Lavoura a 17.10.2016 às 09:33

De um texto de hoje no blogue "Duas ou Três Coisas":

não escapou ao óbvio da moda: dizer mal de Guterres. O gosto do português de tentar liquidar quem, de entre nós, atinge alguma notoriedade é um vício nacional de regra. Se o mundo escolheu o antigo primeiro-ministro para a ONU, só havia dois caminhos: falar da "irrelevância" da ONU (para desqualificar o feito) e elencar os "defeitos" da personagem. Foi o que Valente fez, sem chiste e sem chama.

Um amigo meu teimava em que Pulido Valente não ia cair nessa esparrela: "ele vai ter a superioridade de ignorar Guterres, vais ver!". Não teve essa "superioridade", pelo que teve [...] o seu contrário, isto é, essa inferioridade.
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De Diogo Noivo a 17.10.2016 às 15:09

Portanto, defender que a nomeação de António Guterres foi “um bom desfecho”, que “António Guterres tem um perfil mais do que adequado ao desempenho da função”, que “as suas prestações nas diversas rondas de avaliação foram quase sempre notáveis”, que Guterres “não só domina tecnicamente os assuntos, como demonstrou ter pensamento próprio sobre o sistema das Nações Unidas” e, por último, afirmar que o novo SG da ONU foi “um excelente candidato, merecedor de todos os louvores” é dizer mal de António Guterres. Imagino o que será necessário escrever para elogiar o homem.
Luís Lavoura, lendo este e outros comentários seus, fico na dúvida se não percebe ou não quer perceber.
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De JAB a 06.10.2016 às 17:54

Congratulo-me com o facto da eleição de Guterres, enquanto português, mas não lhe reconheço importância relevante. 1) Se o cargo fosse mesmo importante lá estariam outros para ganhar; 2) E Guterres ganhou pelas razões em virtude das quais eu não o escolheria: não se vai meter com os grandes e será um SGNU como foi primeiro-ministro português: insignificante, mesmo que tenha competência técnica e cultura para o cargo. É a vida!...
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De asCético a 06.10.2016 às 21:50

Orgulhemo-nos por termos um português à frente da maior organização terrorista do mundo!

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