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A Sputnik V.

por Luís Menezes Leitão, em 12.08.20

Vacina-russa-é-baseada-no-método-dos-dois-veto

No filme Contágio de Steven Soderbergh, lançado em 2011, conta-se a história de um vírus mortal, transmitido por um morcego, que rapidamente se propaga, contaminando o mundo e causando pânico global. O argumento parece uma previsão do que se viria a passar a 2020, e nele a pandemia só é controlada porque uma médica produz uma vacina e decide experimentá-la em si própria, garantindo assim a sua eficácia.

Ontem assistimos a uma história semelhante quando o Presidente russo, Vladimir Putin, anunciou possuir uma vacina e que a sua própria filha já a tinha testado com sucesso. Pode ser uma manobra de propaganda, mas é uma propaganda muito eficaz, especialmente num mundo desesperado em que qualquer esperança será acolhida de braços abertos. É manifesto que a Rússia marcou com esta antecipação muitos pontos na esfera global, sendo para ela que neste momento os países do terceiro mundo estão a olhar, em ordem a resolver rapidamente este magno problema de saúde pública.

No Ocidente e na OMS o anúncio da Rússia foi recebido com reservas, dizendo uns que seria uma mistificação, e que a vacina não seria eficaz, e outros que teria sido obtida por espionagem industrial. Não me parece, porém, que Putin arriscasse dessa forma o prestígio mundial da Rússia, parecendo-me muito provável que, mesmo não sendo a ideal, esta vacina assegure já algum nível de protecção contra o vírus, sendo que a esmagadora maioria da população seguramente pensará que mais vale alguma protecção hoje, do que uma protecção total que não se sabe quando estará disponível.

Se há coisa que o mundo deveria ter aprendido é que não se subestima a Rússia. Napoleão e Hitler desgraçaram-se quando o fizeram, acabando por perder os seus impérios. E o poder da Rússia nunca foi apenas militar, foi sempre também científico. Aquando da corrida espacial, o mundo foi assistindo perplexo ao lançamento dos sucessivos Sputniks, primeiro apenas um satélite artificial, que depois foram evoluindo, passando, desde a cadela Leika, a permitir colocar animais no espaço. Em 12 de Abril de 1961, para espanto geral, a URSS lançou o Vostok 1, que permitiu colocar o primeiro homem no espaço, Iuri Gagarine.

Ontem, 11 de Agosto de 2020, a Rússia anunciou o lançamento de outro Sputnik, a Sputnik V. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos, mas aposto desde já que este anúncio é para levar a sério.


8 comentários

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De Vorph "ги́ря" Valknut a 12.08.2020 às 11:46

Os regimes autoritários a marcarem pontos. Não me lembro de outra doença ter sido instrumentalizada, como esta, para fins ideológicos, políticos, com a conivência da comunidade científica.

Contudo, verdade seja dita, Putin não é Trump, ou Bolsonaro. É carismático, dotado de uma inteligência matreira, e assessorado por um marketing genial.

https://youtu.be/ARtqpGMkhN4

Um Czar
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De V. a 13.08.2020 às 08:21

Não é a minha área mas tenho algumas reticências em relação a isto — pensava que as ciências médicas já estavam num ponto de open source e partilha de conhecimento que não seria possível um cientista descobrir uma coisa sem que outro a soubesse lá chegar também. Os break-throughs não são quase sempre resultado de partes de investigações da comunidade científica?

E depois os russos são conhecidos por sacrificar pessoas pelo show-off, desde deixar marinheiros morrer no fundo do mar a crimes ambientais dos quais não há retorno como a poluição no Lago Baikal.

Quando cair o dedo e o nariz e os macacos que o dedo explorava à filha do Putin é que vamos perceber que isto era tudo um embuste :)
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De Vento a 12.08.2020 às 12:32

As potencias líderes olham o mundo de forma diferente do comum cidadão. Elas vêem-no numa perspectiva de competição e domínio e não de uma interacção.
Neste sentido, o nome Sputnik para a vacina está aí para reavivar o que LML expõe, e assinalar o regresso desse espírito que se iniciou nos anos 50.

A existência de uma vacina, na óptica das grandes potências, não está aí para assinalar um sucesso da humanidade, mas para realçar que essa imunização alcançada garante e reforça a sua influência também militar. Este facto em si mesmo garante uma mobilização de tropas em qualquer parte do mundo neste cenário de pandemia.
Dito isto, não se estranhe a mobilização do ocidente obstaculizando a eficácia deste avanço científico russo, que para muitos não passa do registo de uma vacina e não de uma evidência.
Também creio que não é por aqui que se deve ir.
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De Antonio Vaz a 12.08.2020 às 19:06

Factos picarescos em torno da vacina “Made in Russia”, como não poderia deixar de acontecer, até não faltam: os populistas da Direita adoram cultivar extravagâncias comportamentais!
Há quem insista que Putin não é um palhaço como os outros…
A vacina é segura e eficiente, Putin confirmou-o publicamente citando, como que uma espécie de prova típica destes nossos dias em que mais de 1/3 do nosso Mundo é governado por alucinados-naturais, que uma das suas duas filhas até tinha servido de cobaia… a filha, não ele, o que só por si só é um perfeito sintoma do seu alucinado universo mental e, para ser sincero, até a única coisa que me espanta é como ele até não a enjaulou com uma dezena de contaminados com o vírus… para acabar num verdadeiro exclusivo explosivo da RT.
Putin também confirmou que vários países já encomendaram doses massivas da possível banha-de-cobra – que países? Ele, tal como sobre tudo o que é importante saber sobre ela, não revelou mas… ainda ontem, o alucinado Duterte das Filipinas acabou por anunciar que não só a tinha encomendado como até iria ser o primeiro a ser vacinado e, em público, prestando-se assim ao papel do apresentado paralítico que depois de beber o elixir do Dr. Putin, passou a caminhar pelas 4 patas. Hoje, lá está, acabei por ler a notícia de que ele tinha dado ordens para enviarem um grupo de especialistas à Rússia para que, antes de pagarem a “conta”, eles averiguassem o que ela, de facto, até é! Sejamos sinceros: os supostos paralíticos até cobravam antecipadamente a sua actuação!
Luís Menezes Leitão escreve que «Não (lhe) parece, porém, que Putin arriscasse dessa forma o prestígio mundial da Rússia, parecendo-me muito provável que, mesmo não sendo a ideal, esta vacina assegure já algum nível de protecção contra o vírus» parecendo não querer perceber que a Rússia de Putin até há muito deixou de se preocupar com essa moralista vertente do mencionado “prestígio mundial”: a melhor prova disso é que quando todo o mundo, na busca da vacina, vai tentando colaborar, revelando os seus progressos para poderem ser analisados e revistos por pares do ramo, eles mantiveram tudo em segredo… o “prestígio mundial” já o perderam há muito. Resta-lhes o papel de vendedores de banha-de-cobra ao serviço do projecto nacionalista do populista de Direita que evidentemente, até poderão ter o apoio público de outros populistas nacionalistas de Direita mas que a jogada é perigosa, lá isso é.
Nada tenho contra uma vacina russa desde que ela seja sujeita aos melhore procedimentos adoptados pela comunidade internacional: a OMS sobre ela já foi bastante clara… eles não cumpriram nenhuma das suas obrigações internacionais: esta é uma vacina ideológica! E só espero que funcione, no mínimo dos estragos, para bem dos que irão servir como cobaias…
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De Francisco Almeida a 12.08.2020 às 23:41

Concordo com o que escreveu e ainda discordo da parte final do post de LML.
A Rússia nunca foi grande na ciência, a União Soviética é que foi.

Sem atingirem a excelência de Goebbels, todos os regimes totalitários precisam de uma máquina de propaganda e, para se projectarem internacionalmente, necessitam de algumas realizações com visibilidade.
Todos ou quase todos recorreram ao desporto porque tinham o poder de obrigar os atletas à entrega total aos treinos, controlando toda sua vida. Os que tinham meios para isso, também utilizaram a ciência porque tinham a possibilidade de atribuir verbas, normalmente dentro das verbas militares que eram inquestionáveis.

As sanções e a guerra dos preços de petróleo deixaram Putin em terrenos apertados mas, doa a quem doer (isto é, à população russa) ele não pode prescindir da propaganda e a pandemia foi uma oportunidade que não desperdiçou.
Espanta-me que a generalidade de comentadores, na imprensa e em blogues, vibre com Trump, Bolsonaro ou Duterte e pareça não se aperceber que Maduro e Putin, são uma categoria àparte, isto é, que os governos da Venezuela e da Rússia foram capturados por gangsters.
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De Anónimo a 12.08.2020 às 22:43

Boa noite ,
Putin inteligente como é, percebeu que este vírus é só mais um como tantos que o corpo humano está preparado para lidar , vai daí registou uma vacina ,que provavelmente é um placebo , e deu cabo dos planos dos globalistas como Bil gaitas e outros .

Luis Almeida
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De Anónimo a 13.08.2020 às 06:25

"E o poder da Rússia nunca foi apenas militar, foi sempre também científico."

Então o programa espacial soviético não foi militar? como apareceram os mísseis balísticos intercontinentais?

...as V2 apareceram em 1944-45.

---

Que exportações cientificas além de armamento fizeram os soviéticos?



lucklucky
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De João Pedro Pimenta a 13.08.2020 às 18:20

Também me lembre e Gagarin e do enorme passo da URSS na corrida ao Espaço. Só que isso implicou anos de experiÊncia e pesquisa. Neste caso, a "vacina" não cumpriu os testes e as etapas normais e está a ser lançada às três pancadas, sem sequer haver partilha ou amostra de estudos. Pode resultar? Pode, mas tendo em conta o criador, é uma autêntica eliteral roleta russa.
E agora também me lembrei nas hormonas e outras substâncias injectadas às atletas do antigo Pacto de Varsóvia...

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