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Delito de Opinião

A situação actual

jpt, 06.03.22

PRaça-D-Joao-I-1940.jpg

[Porto, Praça D. João I, c. 1940 | Fotografia: Porto Desaparecido]

(Postal antes colocado no meu Nenhures)
 
Nestes dias de regresso a um passado bélico europeu que julgara desaparecido, e face à explosão de russofilia e de anti-europeíce - algo diferente do anti-europeísmo -, bem como às posições dos "camaradas e amigos" comunistas portugueses (e não só), tenho conversado bastante com o meu pai.
 
O camarada Pimentel, apesar de ter morrido há já dez anos, continua lúcido e informado. Atento. Na sua inabalável convicção de uma futura transição para o socialismo. Segue intransigente com as cedências eurocomunistas, descrente na omnipresente propaganda norte-americana veiculada pela imprensa burguesa, avesso à alienação promovida pelo consumismo individualista. Irredutível quanto à necessidade de enfrentar o imperialismo. Lamenta a dolorosa derrocada do mundo socialista, desaire que considera mero episódio de uma difícil história e muito devido a "erros e desvios". E, apenas no privado do convívio familiar - condição que vou violar dada a sua condição póstuma -, algo lamenta a decadência da qualidade dos quadros do Partido, que relaciona com a tercearização da economia (que afirma suicidária em termos nacionais) e os efeitos da referida dêbácle soviética.
 
Ontem cheguei a casa já após a meia-noite, vindo de belo jantar em casa de compadres. Encontrei-o angustiado diante da televisão, vendo as notícias sobre a central Zaporizhzhia. Logo me juntei a ele, partilhando um Havana Club. Lembrei-me, como todos se terão lembrado, de Chernobyl. Quando o vi - ele engenheiro de barragens, industrialista, paladino da energia nuclear, sobre a qual recebera formação em Inglaterra logo após a sua licenciatura - pela primeira vez assumir dúvidas sobre as virtudes soviéticas.
 
Resmungou que nada disto é admissível, que "estes gajos são uns patifes", o seu pior insulto. Nem lhe pedi que esmiuçasse o que pensa sobre tudo o que se está a passar, porque o sei. Escorropichou o seu frugal cálice na menção de se ir deitar, esquecido que já lhe ocupei o quarto, e apenas me perguntou, sob um breve lacrimejar de velho, se tenho tido notícias da sua neta Carolina, lá longe na Inglaterra. Sosseguei-o num "está tudo bem".
 
E, para o reter mais um pouco, lembrei-lhe uma história que várias vezes me contara, há tantos anos, e com a qual depois tanto eu o atazanara, convocando-o a um necessário aggiornamento. Mas sempre com insucesso, pois ele irredentista no "centralismo democrático". E a qual agora, mais uma vez, tanto sentido tem, face a estas novas gerações. Nascido no Porto em 23, ali cursou engenharia. Durante a II Guerra Mundial era ele, até mas não só por razões familiares, um "anglófilo", como então se dizia. Entre os seus colegas havia um "germanófilo", um tipo com quem não simpatizava (talvez por isso mesmo, nunca me disse). Um dia, após a guerra, foram em grupo ao cinema. Antes da fita passou, como sempre, um programa de "actualidades", com reportagem sobre a ocupação da Alemanha e algumas imagens dos campos de concentração. Foi-lhes um choque gigantesco. À saída da sessão estavam todos abaladíssimos. E o colega "germanófilo" estava devastado, nunca imaginara que tal fosse possível. E que pudesse ter apoiado quem fizera tamanhas coisas.
 
"Lembras-te desta história, foi mesmo assim?", perguntei-lhe... Mas só então percebi que ele já não estava ali. Tenho de lhe perguntar isto amanhã ou depois. Depois logo aqui o confirmarei. Ou desmentirei.
 
(Adenda: só de manhã percebi que ele fora para Grândola, sem me avisar disso, a um qualquer colóquio. Fico um bocado em cuidados, com a idade dele a viagem é sempre cansativa. Mas quando voltar logo aqui darei conta)

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