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Delito de Opinião

A Síndrome de Évora

Rui Rocha, 08.06.15

A mente humana, sabemo-lo, é capaz de produzir determinadas anomalias como estratégia de sobrevivência. Na Síndrome de Estocolmo, por exemplo, a vítima de cativeiro desenvolve um estado psicológico em que cria laços afectivos com o agressor. Não espantaria, portanto, que as notícias que chegam de Évora constituíssem uma nova manifestação dessa Síndrome já razoavelmente descrita. José Sócrates teria desenvolvido, eventualmente, uma especial afeição ao juiz Carlos Alexandre, ao Director do Estabelecimento Prisional ou (o que sabemos nós dos caminhos tortuosos da mente?) a algum carcereiro.  E estaria, por isso, inclinado a rejeitar, contra qualquer racionalidade (um pombo anilhado com movimentos restritos ao perímetro de um pombal é relativamente mais livre do que um pombo confinado a uma gaiola), uma forma mitigada de privação de liberdade. Todavia, uma análise mais detalhada revela que o tipo de anomalia aqui presente não corresponde à descrição da Síndrome de Estocolmo. Vejamos. Sócrates procurou, desde o princípio, passar para a opinião pública a ideia de que era um prisioneiro político. Ora, a encenação desse drama convive mal com a imagem de um pequeno-almoço em roupão na Rua Castilho ou, para nos mantermos fiéis ao guião, numa mansão cedida a título gratuito por algum amigo. Portanto, confirmada a decisão de não aceitar a prisão domiciliária, estamos, é certo, perante uma anomalia ditada por uma estratégia de sobrevivência. Mas, ao contrário do que acontece na Síndrome de Estocolmo, não temos aqui qualquer tipo de afeição pelo agressor, mas antes uma lealdade exacerbada de Sócrates a si mesmo. Se virmos bem, trata-se do entumescimento do eu socrático, agora enquanto réu e, mais do que isso, refém de si próprio: um Sócrates preso, com a porta da cela aberta, mas algemado ao espelho onde contempla a sua imagem de perseguido. A solidariedade absoluta de Sócrates com a estória que construiu. Uma escalada formidável de compromisso. Uma espécie de Mito de Narciso encrustado nas grades da prisão. Em suma, um fenómeno épico de auto-ejecção da realidade que, à falta de melhor, designaremos por Síndrome do Prisioneiro 44 ou, simplesmente, por Síndrome de Évora.

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