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A SIDA e o Covid

por Paulo Sousa, em 28.09.20

Há umas décadas atrás, o vírus de que se falava era o da SIDA. Fazia capas de jornais e foi tema para filmes e músicas. O seu surgimento e propagação colocou o mundo a falar de hábitos sexuais com uma ligeireza impensável até então. Se no início era uma doença de homossexuais, de prostitutas e de drogados, acabou por contagiar figuras públicas que não pertenciam a esses grupos. Com o tempo passou a ser apenas uma doença associada a comportamentos de risco, comportamentos esses que, estando bem identificados, excluía facilmente quem os evitasse. Além de contraceptivo, o preservativo passou a ser equipamento de segurança.

Ao longo dos anos em que a SIDA foi o maior flagelo sanitário do mundo ocidental, não faltaram teorias que a associaram esta doença a castigos diversos. Para os moralistas era um castigo contra depravações várias, os simpatizantes do bloco soviético esforçaram-se por interpretar a ausência de dados oriundos das ditaduras comunistas com que se identificavam, como sendo uma doença exclusiva dos capitalistas.

A banalização do preservativo, juntamente com os programas de troca de seringas, acabou por ser uma forma efectiva de, arredando os juízos morais da equação, travar a propagação da doença. Por motivos culturais, financeiros e também religiosos este tipo de medidas não foram adoptadas nos países mais pobres e isso explica também porque é que o epicentro da doença se deslocou para África.

Foi nos países ocidentais, onde mais agitadamente se viveu o espírito do flower power do anos 60, que a liberdade sexual, muito ou pouco promiscua, foi mais refreada. Sendo uma doença associada aos referidos comportamentos de risco, acabou por motivar mudanças de comportamentos.

Nessa perspectiva o Covid, sendo menos mortífero é muito mais abrangente e impactante. É a fragilidade prévia de cada indivíduo que o coloca, ou não, no grupo de risco. Por mais banais que sejam as suas rotinas, o contacto com o vírus pode ocorrer com a maior naturalidade durante actos banais da vida social. Por comparação, este novo vírus já está a ter, e terá ainda mais consequências nos comportamentos de todos nós, do que o vírus da SIDA.

Depois do debate sobre as fronteiras de linguagem despoletado aquando da proibição do piropo, depois dos excessos que resultaram do movimento MeToo, o Covid é sem dúvida mais um duro golpe na forma como duas pessoas se podem aproximar e se envolver emocional e fisicamente, com especial relevo para quem esteja à procura de um relacionamento. Como cidadão amante da liberdade acho que estas repetidas e cumulativas restrições são perturbadoras.

Até o governo britânico, que normalmente consegue manter alguma sobriedade e mostrar alguma sabedoria, estabeleceu há uns meses atrás limitações ao contacto físico entre casais com relacionamento estabelecido, casados inclusive, que não residam juntos. Desde há poucos dias, essas limitações foram aliviadas e desde então já se podem beijar e tocar. No entanto, avisam as autoridades, parceiros em estágio inicial de relacionamento devem tomar especial cuidado. As expressões usadas foram “test the strength of his relationship” e logo depois “Test really carefully your strength of feeling”.

As reacções não se fizeram esperar. Quando um governo ou regime se propõe a regular detalhes tão pessoais como estes da vida dos seus cidadãos, a pergunta que se coloca é onde fica a fronteira entre esses dois conceitos? O que distingue um relacionamento estabelecido de outro em estágio inicial? Quais os critérios que se devem usar para se saber a que categoria se pertence? Claro que a resposta acaba sempre por ser: Usem o bom-senso, o que sendo uma resposta aceitável mostra também que a regra é toda ela desnecessária, pois o bom-senso, e por definição, não carece de ser legislado.

Faltou ainda que alguém lhe perguntasse se é legal ter um caso de uma noite só, ou o que recomenda a quem aspira simplesmente a ter sexo recreativo com alguém conhecido, ou mesmo desconhecido. Será que a Deputy chief medical officer pode sugerir alguma posição específica que considere mais segura para o acto? E, além do preservativo, existe algum outro equipamento de segurança que recomende?

A actual pandemia é um cenário de sonho para quem esteja colocado na posição de decidir pelos outros e que goste de o fazer, assim como para quem não consegue tomar decisões e prefira ser instruído. Para os demais, os que têm a ilusão de ter controle sobre a própria vida, para esses, tudo isto é de facto um pesadelo.


12 comentários

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De balio a 28.09.2020 às 09:33

As pessoas que fazem (muito) sexo são tipicamente pessoas jovens, para as quais o risco do vírus é negligivelmente baixo. Podem contraí-lo à vontade, que não ficarão doentes. Portanto, eu sugeriria que continuem a fazer (muito) sexo, despreocupadamente, com a convicão de que, se se contaminarem, somente estarão a contribuir para a construção da imunidade de grupo da sociedade.
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De Paulo Sousa a 28.09.2020 às 11:11

Alguns patriarcas africanos garantem isso mesmo e o resultado está à vista.
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De João André a 28.09.2020 às 15:55

O risco não é para os jovens, é para quem esteja em risco e seja contaminado por eles se contaminarem uns aos outros.

O problema desta doença não é para cada um, é o poder transmiti-la sem se saber que a tem.
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De balio a 28.09.2020 às 16:13

Você está a baralhar tudo.
Duas pessoas jovens fazem sexo despreocupadamente. Se uma delas contaminar a outra, não faz mal, porque ambas são jovens e imunes à COVID-19.
Suponhamos agora que passados uns dias uma dessas pessoas quer dar um beijo a um velhinho de 80 anos. O velhinho tem o direito de lhe dizer, "não te aproximes de mim, que podes estar contaminado, e muito menos me beijes".
Ou seja, quem se deve proteger do SARS-COV-2 é o velhinho, que lhe é suscetível; não é o jovem, que lhe é imune.
O velhinho não tem o direito de pedir ao jovem que deixe de fazer sexo com quem lhe apeteça, para não se infetar. O jovem tem todo o direito de se infetar, sem preocupações nem angústias nem vergonhas. O velhinho tem é que se proteger de contactos com o jovem.
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De Anonimus a 28.09.2020 às 13:35

Uma das questões legais consequência da SIDA foi determinar se um/a indivíduo infectado estava a cometer um crime caso tivesse, conscientemente, relações desprotegidas com um/a parceiro/a
Não deve faltar muito até começarem a processar criminalmente quem ainda a espalhar o Corona...
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De Paulo Sousa a 28.09.2020 às 14:04

Insistir que o Covid se trata de uma gripezinha é de facto um wishful thinking insensato. Daí a ser ilegal... pode acontecer, embora os legisladores também andem às aranhas com tudo isto.
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De António a 28.09.2020 às 13:36

É um pesadelo.
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De Paulo Sousa a 28.09.2020 às 14:06

E um sonho para os governantes autoritários.
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De Francisco Almeida a 28.09.2020 às 14:38

E para governantes "tout court".
Em Janeiro já se começavam a conhecer dados reveladores do desgoverno de António Costa, sobretudo nos números de empresas.
Agora a culpa é da Covid.
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De António a 28.09.2020 às 20:51

Pois, mas eu não sou um governante autoritário.
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De João André a 28.09.2020 às 15:57

Os ingleses têm sido mau exemplo, não porque tenham más medidas, mas porque as mudam quase a cada 5 minutos (e os próprios governantes as ignoram). Mas é verdade que esta pandemia deitou fora as regras sem dar ideia de quais são as novas.
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De Elvimonte a 28.09.2020 às 17:34

A Preservita tem a solução para todos esses problemas:

https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/de-boca-bem-tapada-11739083?thread=95422923#t95422923

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