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A redução ao absurdo

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.17

Poderá fazer sentido que se dê a uma crónica um título – "Se Mandela fosse do PSD, o BE arranjaria maneira de lhe chamar racista" – de cuja leitura não restem dúvidas sobre quem são os destinatários do texto, assim se restringindo a audiência. Neste caso ao BE, seus militantes e simpatizantes, e aos próprios e indefectíveis leitores do autor do texto. Isso pode servir também de aviso para quem, eventualmente, pudesse estar interessado em alargar horizontes, analisar argumentos e reflectir com o autor sobre o tema.

Se o cronista considera que as posições críticas do BE em relação a Passos Coelho são um disparate, penso que faz muito bem em dizê-lo. Isso é saudável em qualquer democracia. Mas devia, penso eu, fazê-lo de maneira a não restringir tanto o campo dos seus potenciais leitores.

Afinal, Feliciano Barreiras Duarte, que foi secretário de Estado nos três últimos governos do PSD, e também discorreu de viva voz para o semanário Expresso sobre o que foi dito no Pontal, tendo visto "com muita preocupação" as declarações de Passos Coelho sobre as alterações à lei da emigração e chegando ao ponto de dizer que "têm sido muitas as pessoas e as instituições, sendo ou não do PSD, que depois dessas declarações me têm contactado, demonstrando nuns casos revolta e indignação e noutros casos preocupação, porque não se revêem neste tipo de proclamações e temem o efeito rastilho que podem ter negativamente para Portugal e os portugueses", ainda acrescentando que "para muitos a grande dúvida é se este tipo de proclamações é apenas típico da época pré-eleitoral autárquica ou se é o início de um caminho diferente do PSD relativamente a estas matérias", poderia ter interesse em também ler sobre esse assunto. Tal como José Eduardo Martins e muitos outros que no PSD não partilham de todas as opiniões de Passos Coelho.

O racismo é com todos nós e não me parece que alguém, mesmo no BE, no seu perfeito juízo considerasse que as infelizes declarações de Arménio Carlos, a raiarem pelo menos o preconceito e que Rui Ramos achou por bem repescar neste momento, devessem ser aplaudidas. Como também não me parece, pela mesma ordem de razões, que alguém, à esquerda ou à direita e no seu perfeito juízo, fosse retirar das igualmente infelizes declarações de Passos Coelho no Pontal, que o fulano é racista ou xenófobo.   

Pensava eu que de um professor universitário e historiador seria de esperar outro tipo de argumentação. Mas não, voltei a enganar-me. Para além da mais do que evidente confusão de conceitos, enfiando tudo no mesmo saco, como aliás é típico do discurso populista mais ranhoso, ultimamente muito em voga na Casa Branca, a argumentação usada por Rui Ramos, de tão básica e redutora, assemelha-se à que, segundo ele, é utilizada pelos que no BE criticam Passos Coelho.

Pessoalmente, desconheço que esquerda democrática é essa, e à qual Rui Ramos se refere, que adopta o método "comunista e neo-comunista" (sic) de "desqualificar os adversários". Ramos devia esclarecê-lo, dizendo a quem se refere, porque só uma esquerda estúpida e ignorante o faria. Desqualificar os adversários é próprio de gente estúpida. De outro modo, se não o fizer, estaremos perante uma outra forma de reduzir a argumentação ao primarismo daquela que foi por ele usada no seu texto.

Em todo o caso, tenho a convicção de que Mandela, por muito que virasse à direita, nunca seria deste PSD a que Ramos se refere, o que desde logo e para seu evidente desgosto retiraria ao BE a oportunidade de lhe chamar racista, e a ele a oportunidade de escrever outra crónica como a que escreveu.

Parafraseando o autor, "com o devido respeito", "resistir sem medo" à argumentação delirante e maniqueísta de um cronista, professor universitário e historiador,  "não é apenas um meio de manter a liberdade de espírito necessária para enfrentar problemas como os que derivam das migrações do Médio Oriente: é também um meio de defender a democracia". E, acrescento eu, uma forma de manter a sanidade e combater os que dividem o mundo entre os que estão com Passos Coelho e os outros.


9 comentários

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De JS a 22.08.2017 às 12:07

A legislação que confere direitos a um qualquer invasor que ponha o pé em solo europeu é um erro. Mais um dos muitos que saiem de Bruxelas.

A AR portuguesa, a geringonça, bem à altura da suas génese, conseguiu acrescentar o absurdo que faltava ao absurdo original. Parabéns "deputados".
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De Vlad, o Emborcador a 22.08.2017 às 13:49

Se há segmento que tem sido perseguido e diabolizado em Portugal são os comunistas - veja-se o livro de Soromenho Marques, Manual da Intolerância em Portugal.
As desgraças actuais - da exclusiva responsabilidade dos políticos eleitos e dos seus eleitores - conseguem ser sempre assacadas a um PREC, por linhas que só Deus sabe...
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De Vento a 22.08.2017 às 14:17

"demonstrando nuns casos revolta e indignação e noutros casos preocupação, porque não se revêem neste tipo de proclamações e temem o efeito rastilho que podem ter negativamente para Portugal e os portugueses".

Começo com esta citação para revelar que há sempre quem se refira a Portugal e aos portugueses para centrar em si mesmo essa fatia que dizem ser os outros. Na realidade, à semelhança de outros quadrantes políticos e tecidos sociais, o BE também é constituído por fariseus que julgam ver na matéria legal fundamento para coagir seus adversários e/ou contrapartes políticas.

Já reparei que hoje em dia em muitos existe uma vaidade que procura amplificar em sons e palavras a afirmação que não são racistas, para parecer que são uns avançados intelectuais.
O uso do intelecto não coabita, de modo algum, com a vaidade. Não se pode ser ambas, porque só se revela que não são nenhumas.
Nas últimas declarações efectuadas em torno de uma campanha autárquica, lá para os lados de Loures, bem como nas declarações que conheço terem sido feitas no Pontal, não encontro qualquer indício de natureza racista ou xenófoba. O que me é dado observar revela simplesmente que existe uma base programática selectiva que é tão legitima quanto quaisquer outras.
Conheço também militantes de esquerda que revelam preconceitos raciais. Aqui chegado importa considerar o seguinte:

O preconceito racial, étnico, religioso, cultural, político e social não configura qualquer tipo de crime. O que é crime é causar-se dano ao semelhante em nome de um não sei quê. E há já algum tempo esse não sei quê leva por nome esquerda e direita.
A história tem-nos revelado que nem uns nem outros conseguiram satisfazer as necessidades do Homem e tampouco se obteve a tão necessária e almejada Paz social.
A Paz, tal como as questões supra abordadas, não se alcança por elementos externos e jurídicos, e tampouco perseguindo e coagindo grupos ou pessoas aparentemente dissemelhantes. Este atributo é estranho a todas essas formas farisaicas de organização social, pois ele resulta de um trabalho interior que é próprio de um vocado inaudível externamente.

Numa fase de caos económico que vivemos a nível mundial, importa antes referir que ocorreu em Portugal aquilo que previ com alguma antecipação, isto é: Portugal cresceu marginalmente (0,2%) relativamente ao trimestre anterior, ainda que se pretenda disfarçar com o discurso dos "períodos homólogos" - o que é mesmo homólogo é o discurso que se usa para justificar qualquer coisa. Aquilo a que assistiremos nos próximos tempos será a inércia do mais do mesmo.
Portanto, o governo PS-BE-PCP tem de revelar a todos nós, os portugueses, que é mais material que ideológico. Tem de nos revelar que com o aumento da dívida a fatia das reversões será comida quer pelos juros da dívida quer pelo serviço da dívida (comissões e outros custos). Mas também deve revelar-nos o que anda a fazer em termos de negociações externas para resolver este problema e que tipo de mexidas na economia/investimentos estão programados. Não basta lançar obras públicas se os custos das mesmas servirem como despesa e encargos futuros. Precisamos saber qual o investimento produtivo que preconizam.
Em resumo, precisamos que esta coligação revele bem mais que a gestão partidária que tem vindo a fazer. As próximas eleições autárquicas revelar-nos-ão que estes não convenceram ainda. E o único convencimento que existe é que o PSD necessita de um valente restauro. É fácil para este governo, mas não suficiente, mostrar que tem força na fraqueza dos outros.
Também eu penso que a tragédia dos refugiados se resolverá nos locais de origem. Facilitar a progressão da maldade na origem facilita a onda de refugiados. Portugal, com a caótica política ultramarina, recordará o tempo dos "retornados", que no meio de tanto mal e hostilidade perfumaram o país.
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De Vlad, o Emborcador a 22.08.2017 às 18:15

Vento, quando refere" o que é crime é causar-se dano em nome de não sei quê. ..", presumo que esse "não sei quê" se designe por preconceito.
Vento, desde que as pessoas andem assustadas o melhor restauro para quem quer viver da política é o restauração de preconceitos que por vergonha, e não por esquecimento, tinham deixado de se mostrar. Noutros tempos. ...

Vento, o que podemos esperar se as palavras de ordem são, crescimentos contínuos, que geram gastos contínuos, concorrências e não cooperação, rivalidades e não solidariedades, que esta é para os fracos....Qualquer dia até no Amor se verá instrumento conspirativo.
Vento,que venha o Armagedão, restaurar pelo fogo, o que a Água não levou.
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De Vento a 23.08.2017 às 14:02

O preconceito é a arma de arremesso político de quem julga que representa uma cambada de infantes acéfalos.
Por metáfora, a esquerda actualmente, em particular no BE e alguns outros ícones no PS, fazem lembrar aqueles e aquelas revolucionarias do sexo que julgando descobrir uma novidade esquecem que andam por aqui precisamente porque seus pais já sabiam como usar os instrumentos. Todavia pensam que o ruído causado pela amplificação das cordas vocais e dos caracteres semânticos torna-os doutos e plenos de razão.
Por um outro lado, os aborrecentes, que é a idade que surge muito próxima da adolescência, julgam que a complacência que lhes é votada funciona como sinal de aprovação.
O PS de Costa, também fazendo as suas manobras de poder, embarca nesta onda e esquece que o país também é composto por gente crescida que já anda farta de atender a necessidades de uma espécie de jardim de infância.

Como o presente e o futuro da nação não passa por cortar e reformar eucaliptos e nem de jogar para debaixo do tapete furtos ou roubos ou desvios de armas de paióis, é chegada a hora de mostrar que os números são números e conduzem a resultados concretos. Como tal, o governo PS-BE-PCP tem de deixar de imitar seus antecessores com a retórica e provar que é capaz de fazer diferente.
A Banca, para poder sustentar-se, aumentou o crédito a particulares, e não fossem as exportações, nomeadamente o turismo, concluiríamos que nada de substantivo, para além de algumas reversões que mais beneficiam clientelas eleitorais, foi feito pela e na economia portuguesa, e até mesmo em termos de investimento público (é preciso lembrar as cativações). E até mesmo aquelas empresas que necessitam de crédito, e têm poder de o adquirir, estão a encontrar apoio, isto é, a fazer negócio, nos bancos não residentes. Creio que são cerca de 3,5 mil milhões de empréstimos contraídos cujo negócio é feito com os de fora. E para fingir que está tudo bem lá vão consentindo com um bail in na CGD em nome de um nacionalismo que me parece precisamente um não sei quê.
O que esta coligação anda a fazer é devolver hoje o que amanhã tomará. Entretanto, é Schauble que continua no comando e cerca de 3 milhões de portugueses continuam na miséria. Alguém encontra alguma diferença com o governo anterior?
Pois é, Vlad, a afirmação já anda por aqui há séculos: "Eu vim lançar fogo à terra".
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De Justiniano a 22.08.2017 às 14:44

Não sei se percebi o seu arrazoado em relação à coluna do Rui Ramos!! O texto parece-me confuso e contraditório! Ou, de facto, Vcmcê não percebeu o Rui Ramos nem ouviu a acusação de racista a Passos Coelho (tanto do BE como do PS Galamba). Tem, Vcmcê, aparentemente, andado desatento "Como também não me parece, pela mesma ordem de razões, que alguém, à esquerda ou à direita e no seu perfeito juízo, fosse retirar das igualmente infelizes declarações de Passos Coelho no Pontal, que o fulano é racista ou xenófobo." Ou quer simultaneamente repudiar e secundar o Rui Ramos!! Decida-se!! Esclareça-nos!
Eu recomendaria ao caro Sérgio que se preocupasse mais com a inteligibilidade e congruências das suas crónicas doque com a dimensão das audiências do Rui Ramos.

Surpreende-me a facilidade e duplicidade com que actualmente se arremessa o labéu de racista!
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De Jorg a 22.08.2017 às 16:17

Mas afinal o BE e os caes de fila da xuxalada geringonça tipo Galamba e tanto comentadeiro encartado da xuxa prensa da capital e academias não escarraram com adjectivação "xenófoba" e "racista" ás afirmações de Passos de Coelho no Pontal?
Este cadinho de escarro não culmina com um palerma (parece com avença recente do Estado, porventura componente da "reversão" anunciada pelo Xuxa Costa para os seus "pals" ) a invocar calvicies derivadas de tratamentos oncológicos para piadolas sobre "cabeças rapadas" que, aliás, encontraram o silêncio das Mortáguas, dos Galambas ou de outros papagaios profissionais acolitados á xuxa prensa da Capital e academias?
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De Anónimo a 22.08.2017 às 18:17

Acabei de reagir à polémica sem fim do AO.
Ao ler este texto, reparei que os dois temas são, ao mesmo tempo, simétricos (mas de sentido contrário) e coincidentes.
Simétricos: o AO não justifica tanta conversa, porque não tem importância nenhuma; muita conversa sobre o Racismo é também muito arriscado (atentemos nos dois textos em apreço), porque é um assunto demasiado importante e melindroso.
Coincidentes: relativamente a qualquer um dos dois temas, o mais importante é a prática e não as palavras.
João de Brito
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De amendes a 22.08.2017 às 19:27

No dia seguinte ao discurso de PPCoelho no Pontal, os deputados da Nação: Galamba e Mortágua,apelidaram ( Na Assembleia da República) PPC de "racista e xenofobo"...

Não se lembra?
"Então porquê não te calas"?

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