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A realidade agora a cores

por João Sousa, em 20.01.21

Os números preocupam e as imagens transtornam. Urgências entupidas, filas de ambulâncias à porta, médicos e enfermeiros exaustos, assim nos mostra a comunicação social o caos provocado pelo Covid no SNS.

Só que há exactamente um ano, ainda a senhora das orquídeas descansava-nos com a improbabilidade do vírus chegar cá e a semanas da ministra da agricultura via na epidemia (que já se fazia à estrada) oportunidades para os nossos agricultores, a mesma comunicação social relatava-nos urgências entupidas, filas de ambulâncias, médicos e enfermeiros exaustos. E em 2019, muitos meses antes de ficarmos a conhecer o comércio de caça nos mercados chineses, a comunicação social mostrava-nos urgências, ambulâncias, médicos e enfermeiros. E em 2018. E em 2017. E recuasse eu mais, mais encontraria.

Sim, os números preocupam e as imagens consternam. Mas a base da nossa tragédia é isto: o SNS não precisa do Covid para entrar em colapso com a chegada destes frios de Janeiro - tem conseguido fazê-lo muito bem sozinho.


16 comentários

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De Carlos Sousa a 20.01.2021 às 20:06

É pena é não ter havido testes a assintomáticos da gripe; em 2017,2018 e 2019, para se poder comparar tal como se podem comparar as notícias.
Sempre foi assim o caos nos hospitais, as listas de espera são uma realidade, e este ano por causa do frio é um bocado mais agressivo.
Era bom saber se alguns dos infectados e dos mortos que tomaram a primeira dose da vacina também entram para a contabilidade diária.
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De João Sousa a 20.01.2021 às 20:45

O Boletim de Vigilância Epidemológica é uma interessante fonte de dados para fazer comparações futuras.

Em Fevereiro de 2019, desloquei um ombro (de novo) e tive que ir às urgências do Garcia da Orta, para meu azar o hospital da minha área de residência. A salinha de espera mais parecia uma tenda de campanha de um campo de refugiados onde se acotovelavam o tipo de ombro à banda, velhotes com botijas de oxigénio, duas grávidas em estágio avançado, pessoas a tossirem e a fungarem, outros a gemerem, um mitra com uma facada para coser, um outro indivíduo com ar de ter caído da mota... É preciso cair-se nas malhas do SNS para perceber, de facto, a sua realidade.

A narrativa do "ficar em casa para evitar o colapso do SNS" irrita-me profundamente. De um SNS que obriga a esperar anos por uma consulta de especialidade e meses por uma consulta ao médico de família, que se pode dizer senão que está em permanente estado de colapso? Eu só desejo que haja, num futuro mais ou menos próximo, alguém suficientemente dono de si mesmo para fazer um retrato do real custo desta gestão da pandemia: quantos AVCs ficaram por tratar, quantos enfartes não foram recuperados, quantos cancros não foram diagnosticados em tempo útil...
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De Carlos Sousa a 20.01.2021 às 21:20

Tive um enfarte agudo do miocárdio em Agosto de 2019( foi a minha sorte)estava no trabalho e fui de ambulância para Santa Maria, estive 4 horas numa maca no corredor das urgências. Tive um segundo ataque, saí do corredor e fui visto por uma enfermeira. Aí já não sei quanto tempo passou pois perdi os sentidos e quando acordei já estava na mesa de operações.
Correu tudo bem felizmente, apesar do caos, pessoal super simpático.
Agora vem a parte negra da história.
Tinha a primeira consulta em Agosto de 2020 para rever a medicação, foi adiada para Dezembro de 2020 e já foi novamente adiada para Março de 2021.
Será que o gabinete do cardiologista em Santa Maria também foi ocupado com doentes covid?
Ou vou ter de apanhar covid para ter uma consulta de cardiologia em Santa Maria?
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De João Sousa a 20.01.2021 às 22:54

Tenho um cliente com problemas respiratórios ao qual marcaram (e adiaram duas vezes) a consulta anual de acompanhamento para ser feita por telefone. Perguntei-lhe: e como é que o médico o vai auscultar, encosta o telemóvel ao peito?
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De Susana V a 20.01.2021 às 21:51

Em Janeiro de 2019 chegou-se aos 500 mortos por dia no surto de gripe. Curiosamente as notícias da época referem-se ao frio como factor determinante, mas não ao Natal ou ao efeitos psicológicos da vacinação.
Este inverno a vaga de frio a partir do Natal foi mais intensa e mais prolongada que em 2019. Mas isso não interessa nada. A culpa, está visto, é dos portugueses.

https://www.google.pt/amp/s/www.dn.pt/pais/amp/surto-de-gripe-em-portugal-e-o-mais-forte-da-europa-10461066.html
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De João Sousa a 20.01.2021 às 22:38

A gestão desta pandemia tem sido 90% política e 10% técnica.
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De João Pedro Pimenta a 20.01.2021 às 23:12

O problema é que isto não é gripe e dias com mais de 500 mortos foram raros, mesmo em Janeiro, e os serviços não tinham de se multiplicar. Agora andamos com seiscentos e tal há dias seguidos.
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De João Sousa a 21.01.2021 às 00:28

Seiscentos e tal não, duzentos e tal. Credo, a coisa não está tão má assim. Acho que mesmo na massacrada Itália, que tem seis vezes mais habitantes do que Portugal, o máximo de mortes diárias foi cerca de mil.
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De João Pedro Pimenta a 21.01.2021 às 18:22

Seiscentas e tal são as mortes diárias na totalidade, por todas as causas, não só por covid (que ajudam muito a chegar a este número). Isto em resposta à notícia do DN que se referia a 500 e tal por dia, també por todas as causas. Janeiro costuma ser o mês mais letal, maso o deste ano está anda pior.
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De Anonimus a 20.01.2021 às 22:44

Gosto das alusões que por vezes se fazem de que as listas de espera e adiamentos são um fenómeno pós-covid.
Não ajudará o pessoal mal ter dinheiro para aquecer as (mal construídas) casas e muitas vezes para uma boa alimentação.
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De João Sousa a 20.01.2021 às 22:58

O Covid é um imenso tapete para debaixo do qual se vai varrer muita coisa.
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De Anónimo a 20.01.2021 às 22:47

francamente : difícil encontrar explicações mais enviesadas privatização dos serviços de saúde é que era bom porque para se ser tratado seria preciso pagar; ora como haveria pouca gente a poder pagar também não haveria sobrecarga de trabalho nos hospitais
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De João Sousa a 21.01.2021 às 12:49

Não faça contorções retóricas para ler aquilo que não está escrito.
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De Antonio Vaz a 21.01.2021 às 02:04

Sim João Sousa, é por mais do que evidente que as «Urgências entupidas, filas de ambulâncias à porta, médicos e enfermeiros exaustos, (…) o caos provocado pelo Covid no SNS» existem: é por isso que, universalmente, se resolveu considerar que o que estamos a viver é, uma pandemia. E um país com uma média de 10 mil e tal infectados por dia, até nem consegue parecer a “excepção” que foi antes.
Não, não é uma conclusão minha mas sim da OMS, a existência da pandemia! Mas lá está, julgo que até seria um exagero meu exigir-lhe alguma honestidade da sua parte, quanto a revelar exemplos de estabelecimentos de saúde privados em Portugal, que até estão, na realidade, preocupados e empenhados perante os problemas que os portugueses estão a enfrentar: exemplos? Talvez uma explicação razoável, lógica e fundamentada sobre a idiotice que nos leva, mesmo quando nos descobrimos infectados com Covid-19 a, em vez de nos dirigirmos a um estabelecimento de saúde privado, nos dirigirmos aos do estado… conseguisse explicar a coisa. Masoquismo nacional?
«Só que há exactamente um ano, ainda a (…) – até esperava uma argumentação mais inteligente da sua parte do que essa de evocar, em plena crise pandemónica, a realidade de há um ano: se não me percebeu limito-me a perguntar-lhe quantos casos de infectados com Covid-19, V. até consegue apontar em Janeiro de 2020? Ou Fevereiro ou em Março desse tão distante ano de 2020? Porque não evocar a realidade de Janeiro de 2019?
Mas esquecendo isso: é verdade que «o SNS não precisa do Covid para entrar em colapso com a chegada destes frios de Janeiro»… talvez sim?!? Talvez não… na verdade, o SNS está reduzido a algo moribundo que, mesmo assim, consegue demonstrar uma energia vital reconhecidas por milhares de centenas dos nossos cidadãos: a maioria deles , mesmo até ambicionando possivelmente consultas em hospitais privados, sabem que o SNS é a sua salvação!
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De balio a 21.01.2021 às 11:56

Aconselho o autor do post a olhar para o gráfico relativo ao Z-score de Portugal no site euromomo. Aí poderá verificar que a mortalidade total em Portugal desde meados de dezembro é efetivamente completamente anormal (isto é, muitíssimo superior ao normal dos anos precedentes).
É verdade que o SNS está sempre a rebentar pelas costuras em janeiro. Só que, este ano as costuras já estão substancialmente mais largas do que em anos precedentes.
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De João Sousa a 21.01.2021 às 13:49

No essencial, parece-me estarmos de acordo pois foi sobre isso que escrevi: o Covid não ser a razão única da pressão que existe no SNS mas sim ter-se juntado à pressão que existe normalmente.

(Recordo-me de ler, no final do ano passado, várias notícias onde se afirmava que o Covid apenas explicava entre 33% e 50% das mortes adicionais.)

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