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A razão dos senhores do Castelo

por Luís Naves, em 12.09.18

Um dos maiores problemas da União Europeia é sem dúvida o défice democrático e de transparência no processo de tomada de decisões. Já aqui escrevi que a UE contemporânea faz lembrar o genial romance de Franz Kafka, O Castelo, onde não se entende muito bem como funciona a hierarquia, quem manda nela, como se decide e que intenções têm os burocratas que a compõem, muito menos se percebe a quem respondem e quem os controla. Os eleitores não são ali chamados. A UE tem um percursor, a monarquia dual austro-húngara, que era uma entidade política genuinamente multicultural, onde conviviam povos diferentes, em língua e religião, mas numa harmonia invulgar nessa época. O império era democrático, próspero e relativamente pacífico (suicidou-se por causa da insensatez de alguns idiotas), mas tinha fortes contradições, como bem assinalaram os grandes escritores que viveram neste espaço político. Tal como Kafka fantasiou a partir dessa realidade, há hoje contradições na UE que desafiam a razão. Como se justifica que um presidente da Comissão consiga no mesmo discurso dizer aos britânicos que estes, ao saírem da UE, não podem pertencer ao mercado único (que ajudaram a construir e do qual cumprem todas as regras), e nas frases seguintes o mesmo presidente defenda a ratificação urgente de acordos de livre comércio com países terceiros? O Canadá, por exemplo, verá anuladas as tarifas a 98% dos produtos transaccionados. A Noruega, que não é membro da UE, tem acesso pleno ao mercado único. O Japão negociou um acordo de livre comércio (e ainda bem que o fez). Ora, os ingleses, que, repito, cumprem toda a legislação, têm direito a um Brexit punitivo e os comentadores aplaudem, contentes com esse evidente absurdo. Se isto não se parece com os senhores do castelo, então é parecido com o quê?

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12 comentários

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De Pedro a 12.09.2018 às 12:18

O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu, de Stefan Zweig
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De Luís Lavoura a 12.09.2018 às 14:44

Não é absurdo nenhum. O Canadá, o Japão, etc negociaram, em todos os casos durante muitos anos, acordos ditos de livre-comércio mas que na verdade são acordos muito complexos de comércio muito bem gerido. A negociação de um desses acordos é sempre algo muito complexo, pois os acordos não se limitam ao comércio, têm também em conta uma data de setores protegidos, setores subsidiados, proteção de patentes e o diabo a quatro. O Reino Unido atualmente goza de comércio livre com o resto da UE mas em troca concede coisas como o acesso ao seu mercado de trabalho. Não pode esperar sair da UE e continuar a gozar de comércio livre mas deixar de conceder acessos irrestrito ao mercado de trabalho. Se quiser continuar a gozar de comércio dito livre, mas na verdade extensamente gerido, tem que negociar. Como os outros.
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De Anónimo a 12.09.2018 às 15:42

Um dos senhores do castelo (de cartas) o não eleito -apenas nomeado por um colégio de aflitos- o Sr. Juncker, vociferou perante a sua congregação uma dor que lhe vai na alma: Na sua União Europeia,

"It is absurd that Europe pays for 80 percent of its energy import bill – worth 300 billion euros a year – in U.S. dollars..."

“It is absurd that European companies buy European planes in dollars instead of euro,”

"in dollars". Pois é.

Para quem foi durante anos foi um dos maiores responsáveis por esta dita União, convenhamos, são duas frases auto-incriminadoras.

Na verdade no que respeita ao Euro a patroa do Sr. Juncker, a Alemanha, teve, mais uma vez, muitos olhinhos. Mas...

Criar uma moeda, digna de esse título, sem base em controladas fontes de metais preciosos, petróleo ou gigantesca produção industrial foi, é, um dos pesadêlos de quem vive fora das muralhas do castelo.

Não basta, não bastou, arregimentar à falsa-fé um grupo de Países periféricos, vender-lhes (com impostas proteções) a sua já incipiente indústria, individá-los e ainda por cima obriga-los a fazer quorum.
E agora Sr. Juncker?.
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De Luís Lavoura a 12.09.2018 às 17:48

O sr Juncker tem toda a razão. É absurdo que a UE continue a pagar em euros o petróleo que consome.
O sr Juncker fez muito bem em tê-lo dito. Agora, resta-lhe a ele, e aos outros, atuar no sentido em que isto deixe de ser assim.
Primeiro temos que nos aperceber dos problemas. Só depois podemos tentar resolvê-los.
Durante muito tempo pagar o petróleo em dólares não foi um problema. Por isso, não foi preciso resolvê-lo. Mas agora, parece que vai ser.
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De Anónimo a 12.09.2018 às 17:07

Discordo. As instituições da UE são uma experiência muito interessante de democracia participada não é uma experiência plenamente conseguida, mas tal como "Roma e Pavia" não se fizeram num dia também o modelo europeu leva o seu tempo a construire a aperfeiçoar numa Europa que idealmente seria coesa mas que na prática não o é. O interessante da democracia europeia é que para além do PE os parceiros sociais, a sociedade civil e as regiões tem órgãos de consulta que funcionam o CESE, por exemplo. É também um facto que regularmente os paises membros são visitados por membros da CE ou das diversas Direcções Gerais que contactam Governos, Parlamentos, parceiros sociais....isto é um exercicio de democracia que não se pode desvalorizar mesmo sendo caro e exigindo burocratas. Não se pode desvalorizar sobretudo para branquear lideres que se alimentam dos nacionalismos não percebendo que a Europa precisa de união para poder ter voz e dimensão estratégica num mundo de gigantes.




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De Anónimo a 12.09.2018 às 17:46

Este post é muito inconsciente.

Desde que o reino unido aceite os mesmos termos da Noruega i.e. se implementar todas as directivas do mercado comum e implementar a liberdade de circulação de bens, serviços e pessoas, o Reino Unido pode pertencer ao mercado comum.

O Reino Unido decide sair do mercado comum por sua própria inciativa. As consequencias sao as esperadas.
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De Luís Lavoura a 12.09.2018 às 17:52

O Luís Naves considera absurdo que o Reino Unido, que cumpre toda a legislação da UE, deixe automaticamente de ter comércio livre com a UE por sair dela.
Eu pela mesma bitola considero absurdo que a Catalunha, que cumpre toda a legislação da UE, deixe automaticamente de fazer parte da UE por sair de Espanha.
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De Luís Naves a 12.09.2018 às 18:35

O Luís Lavoura adora discutir os assuntos desta forma: se alguém falar sobre a bota, vem logo um argumento sobre a bolota. Se a Catalunha saísse da Espanha, de facto a legislação europeia estaria em vigor na Catalunha, mas quantos votos teria a Catalunha no conselho Europeu e quem decidia sobre isso? quantos eurodeputados e comissários? quantos funcionários? e a Estónia precisa de ser consultada sobre o novo parceiro, ou não vale a pena? e o Banco Central europeu? e todos os restantes organismos, como é que funcionavam? tinham participação automática dos catalães? e se os membros catalães das instituições quisessem permanecer espanhóis? O Reino Unido está a fazer o movimento contrário, a sair da UE, onde aliás entrou de livre vontade e sai de acordo com uma disposição dos tratados que o permite. Neste momento, se o Reino Unido cumpre toda a legislação comunitária, o que muda no dia seguinte ao Brexit? Pouca coisa: os britânicos deixam de ter pessoal nas comunidades, Londres deixa de votar ou discutir assuntos, mas a transação de um queijo camembert é exatamente a mesma. Igual para o BMW fabricado no Reino Unido e exportado para a Baviera ou a asa do Airbus enviada para Toulon pela mesma empresa (onde aliás os ingleses são acionistas). No comércio, pode ficar tudo igual no dia 20 de março de 2019, que ninguém será prejudicado. O caso catalão é o oposto. No dia em que a Catalunha saísse de Espanha, mudava tudo, passava a existir uma relação entre a Catalunha e a Lituânia, na qual ambos os países teriam uma palavra a dizer. Aí, sim, era preciso renegociar cada elemento e com cada um dos países.
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De Anónimo a 13.09.2018 às 10:07

O propósito do Brexit é o Reino Unido deixar de ter a obrigação de cumprir a legislação comunitária. Se o Reino Unido aceitar continuar a cumprir a legislação comunitária terá acesso ao mercado comum e poderá continuar exportar os seus produtos.
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De lucklucky a 12.09.2018 às 23:29

É o ódio da mentalidade tribal da falsa modernidade da cultura Marxista e tecnocrática aos que querem seguir outro caminho.
É como o pai que odeia o filho por não seguir a sua profissão.

Enquanto o Japão e a Noruega se aproximaram pois estavam distantes levam com elogios, se a Inglaterra se afasta leva logo com críticas mesmo que ainda fique mais próxima que o Japão e a Noruega.
A Inglaterra estraga o sonho do Governo Mundial igualitário.

Estamos aqui especialmente o fim do vídeo :
https://www.youtube.com/watch?v=TwFDvMiBKeM


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De lucklucky a 13.09.2018 às 01:23

Notícias que vão ser censuradas:

https://www.breitbart.com/tech/2018/09/12/leaked-video-google-leaderships-dismayed-reaction-to-trump-election/
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De Anónimo a 13.09.2018 às 17:31

Exacto. As palmas e os (ingénuos) gritos de alegria que se ouviram aquando a aprovação da moção contra a Hungria, no pseudo Parlamento Europeu da pseudo União Europeia, são sintomáticos.
Pobre Europa.
Já há muito choro, por aí, nesta Europa. Ainda vai haver muito mais choro, e durante muitos anos, por aí, por esta Europa fora.

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