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A questão do amor ou o amor em questão

por José Navarro de Andrade, em 15.02.15

Fica então resolvida de vez uma questão que tem afligido a humanidade, o sector euro-caucasiano dela e seus influenciados, pelo menos.

No dia 9 de Janeiro deste ano a escritora e investigadora Mandy Len Catron publicou no NY times o ensaio “To Fall in Love, With Anyone, Do This”, que num piscar de olhos disparou para os oito milhões de visitas, assim provando que correspondia a uma necessidade premente das populações leitoras daquele diário. Não se tratava de uma frivolidade, pois a peça estribava-se num estudo cientificamente académico (ou vice-versa) - cuja inapelável seriedade inscreve-se logo no título: “The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings” - publicado pelo Professor Arthur Aron e sua equipa (de passagem demonstrando que hoje em dia só se pode alegar uma ideia com a caução de um estudo e que há estudos para caucionar tudo). De seguida, num gesto de generosidade e fidúcia, o jornal oferece à puridade uma app que permite a qualquer par de indivíduos apaixonar-se ao fim de 36 perguntas e quatro minutos de jogo do sisudo.

Embora o instinto de defesa nos leve a iludir o facto, todos sabemos que as noções de “amor” e “felicidade”, tal como apaixonadamente as diligenciamos e vivenciamos no nosso dia-a-dia, foram inventadas no séc. XVIII, por poetas que as implantaram na Idade Média (época que eles fantasiaram com inigualável arte), prosseguindo hoje o debate para determinar em que proporção as devemos a Rousseau, a Goethe ou a Byron. Há mais de 200 anos, portanto, ou só há 200 anos…, que andamos com os humores cerebrais atribulados por esta idealização romântica, a qual não deve ser confundida com o amor bíblico de Deus pel@s human@s, embora canonicamente um bocadinho mais por eles do que por elas, ou o amor instintivo e biológico de mãe pelas crias.

Uma das crises mais perturbantes da vida moderna é assistir ao espectáculo de pessoas apoquentadíssimas com os seus sentimentos, prolongando melancolicamente pela vida adulta os avatares da adolescência, fase em que as hormonas e as utopias desarranjam o entendimento. Esta situação é tão comum e preocupante que pelo menos três indústrias (a literária, a musical e a cinematográfica, em suma: toda a cultura) se têm dedicado com persistência e argúcia dissecá-la. Em Portugal apenas a Sra. D. Margarida Rebelo Pinto porfia nesta matéria, com tão pouco sucesso e muito menos resultados financeiros do que os seus congéneres mundiais.

Pois é tudo isto – quase 3 séculos de apaixonado labor, caramba! – que o NY Times e Mandy Len Carter desmobilizam numa penada.

Assim sendo, façamos todos o teste e arrumemos o assunto. Uma coisa é certa: sairá mais barato do que o bilhete para o filme “Anatomia de Grey” que já de si é mais económico que um conjunto de lingerie da Victoria’s Secret.

 

PS – Espero que no dia dos namorados o leitor tenha comprado no comércio local produtos vegetarianos e orgânicos – vê como é simples adquirir um estado de beatitude moral?


1 comentário

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De da Maia a 15.02.2015 às 18:47

Muito interessante.

"(...) todos sabemos que as noções de amor e felicidade (...) foram inventadas no séc. XVIII"

Sim, meu caro, como havíamos de não saber isso? E se não sabíamos, depois de afirmação tão peremptória, só podemos ficar enrubescidos de não partilhar tal saber.

Andaram os gregos a iludir a juventude com todas as prosas de amor, com guerras movidas por Helena, capazes de alterar o curso da humanidade, quando afinal apenas conseguiam transmitir o desejo carnal.
O que queria Orfeu de Eurídice, ao ponto de descer ao inferno?
- Transar, está claro!
Deve ter sido isso que os nossos antepassados perceberam quando Afrodite Urania foi substituída pela Afrodite menos puritana... mas claro, só até ao Séc. XVIII.

De qualquer forma, até concordo que houve uma excessiva idealização romântica, tão exagerada quanto o contraponto de ignorar o romantismo.
É porém natural que haja vantagens sintéticas, académicas, políticas, de aniquilar um sentimento que não cabe num certo enquadramento troglodita da racionalidade.
Certamente que tal desiderato faria parte do ideal soviético, onde um amor que não fosse amor pelo regime, seria um perigo.

Bom, mas a racionalidade não se resume aos novos trogloditas científicos, e por isso tanto temos que aturar esses grunhidos, quanto os suspiros psicossomáticos que afectam os corações mais frágeis.

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