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A quarta revolução (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.04.14

Já não me recordo se a última vez que estive em Guangzhou, entre nós, portugueses e ocidentais, mais conhecida por Cantão, foi há mais de 20 ou se há 25 anos. Sei, no entanto, que foi há bem mais de duas décadas. E de todas as vezes anteriores em que lá estive, ou que por lá passei a caminho de outros destinos, fiz o percurso entre Macau e essa cidade de barco, subindo o delta do rio, de carro, por estradas e caminhos miseráveis, e algumas vezes pelo ar, a partir de Zhuai, em helicópteros velhos da Sikorsky, que pingavam líquidos vários a partir de diversos pontos na cabine quando este meio de transporte se tornou numa alternativa para nos fazer poupar tempo.

Volvidos todos estes anos regressei para ver se me apercebia da evolução verificada e das mudanças entretanto concretizadas. A conclusão a que chego é que a quarta revolução está em marcha. Pouco mais de um século passou desde que Sun Yat-Sen, a partir do berço de Wuchang, desencadeou a primeira revolução (Outubro de 1911), pondo termo ao domínio Qing e proclamando a República da China. Agora, cem anos depois da revolução nacionalista, passada a revolução de 1949 (Mao) e a era de Deng, dando corpo ao "Chinese dream", reafirmado por Xi Jinping no momento em que este assumiu a liderança do PCC, aí está a terceira cidade chinesa a comprovar a velocidade da mudança e a rapidez com que se sai da pobreza para a liderança da nova era tecnológica.

(Zhujiang New Town, vista norte do Grand Hyatt)

As oito horas de barco, as quase seis horas de carro que levava de Macau a Cantão na década de 80 do século passado, foram agora substituídas pelos pouco mais de 50 minutos que ligam a cidade fronteiriça de Zhuai-Gongbei à Guangzhou South Station, percurso que actualmente se realiza num comboio climatizado de alta velocidade, com duas classes e circulando à tabela. O barco semanal foi substituído por comboios-bala que saem de 30 em 30 minutos. Ainda me lembro de em 1 de Maio de 1986 ter visto milhares de homens trabalhando, sem a ajuda de máquinas, na construção da auto-estrada Zhuai/Cantão. Nunca mais me esqueci da data exactamente por ser o Dia do Trabalhador e dos estaleiros ao longo da velha estrada estarem todos decorados com bandeiras coloridas do tipo das que ainda hoje se vêem na Festa do Avante. Duas décadas depois a China tem a maior e mais densa rede de comboios de alta velocidade do mundo. Cantão, onde a circulação era difícil e lenta, cheia de pó e sempre em obras, tem hoje uma rede de metropolitano com 9 linhas que cobrem mais de 260km de extensão. Aquele que era o meu hotel preferido, em Shamian, o White Swan, está fechado para obras de remodelação. A nova cidade deslocou-se para Tianhe e as decrépitas lojas da Beijing Lu deram lugar a moderníssimos centros comerciais onde a Prada discute espaços com a Rolex ou a Porsche. Os velhos hóteis foram substituídos por dezenas de novos hotéis, do Ritz-Carlton ao Grand Hyatt, do Sofitel ao Hilton. A cerveja Tsintao morna que nos era oferecida pode agora ser servida gelada ou facilmente trocada por uma Heineken, uma Stella Artois ou uma Kronenbourg. A cidade viu crescerem os parques e as monumentais torres de escritórios da última geração. As bicicletas foram substituídas; primeiro por motociclos, depois por utilitários japoneses e carros da gama alta alemã. A quantidade de gente que hoje fala inglês não tem comparação possível com o que acontecia há vinte anos, quando era raríssimo, mesmo dentro dos poucos bons hotéis que havia, encontrar alguém que falasse um inglês aceitável. A cidade foi sede dos Asian Games em 2010 e o esforço que então foi necessário fazer reflecte-se na nova arquitectura da cidade, nos edifícios inteligentes, nos novos e amplos espaços verdes, na criação de uma nova mentalidade com preocupações ecológicas e ambientais. Cantão é hoje a imagem de uma China muitíssimo mais moderna, jovem e insatisfeita, que continua a procurar avidamente o progresso.

(Huacheng Road a partir do flyover que liga o Guangzhou International Finance Center ao GTLand Plaza)


3 comentários

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De lucklucky a 21.04.2014 às 15:30

Obrigado pelo relato da experiência.

Pelo menos uma revolução sem dezenas de milhares de mortos ou milhões que trouxe coisas boas aos Chineses.
Como foi uma revolução "apenas" baseada em contas de merceeiro e na possibilidade deste vender e comprar e não nas ideias de civilizações avançadas como a pureza da sociedade sem classes ou de uma raça.


O problema destes crescimentos rápidos é optimismo e consequente arrogância que leva às Primeiras Guerras Mundiais- também nascida de um inconsciente optimismo civilizacional.

Tem falado com os Chineses explicam o seu sucesso? Sentem culpa de ser rico e ter sucesso como vastas partes da sociedade ocidental?


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De Pedro Correia a 22.04.2014 às 13:27

Gostei de ler esta reportagem, Sérgio. Merece este qualificativo: reportagem. De facto, Cantão está irreconhecível: nada a ver com a cidade quase bucólica que conheci em Dezembro de 1986 numas férias natalícias no hotel White Swan, agora em obras. Parece Hong Kong.
Uma das viagens mais inesquecíveis que fiz foi a descer o rio das Pérolas, numa velha embarcação, precisamente a partir do porto fluvial de Cantão, rumo a Macau, ao cair da tarde.
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De Sérgio de Almeida Correia a 22.04.2014 às 15:43

Obrigado, Pedro. Tens de lá voltar.
Nos próximos dias continuarei a dar-vos conta deste meu regresso ao Império do Meio.

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