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A próxima

por José António Abreu, em 18.08.14

Discute-se muito o tema «regulação» mas raramente até ao seu âmago. Na maioria das vezes, fica-se pela questão da regulação bancária ou do mercado de capitais. Garantir rácios adequados nos bancos e vigilância mais apertada dos fluxos de capitais seria importante se outro elemento não estivesse desregulado: a moeda. Em tempos, as notas que trazíamos no bolso estavam ligadas ao padrão ouro; hoje, só têm valor porque continuamos a acreditar que têm. Há muito mais dinheiro em circulação no mundo do que o valor dos bens que podem ser comprados - pelo menos ao seu valor actual. (Talvez se pudesse diminuir o diferencial acrescentando à lista de bens passíveis de compra itens como a honra, a fidelidade e a amizade mas até esses - num processo a que poderíamos chamar, para usar a terminologia económica tão em voga, «deflação dos valores morais» - parecem valer cada vez menos.) Ainda assim, os bancos centrais continuam a imprimir dinheiro e a fornecer garantias, estimulando não aquilo que gostariam de estimular (a produção de bens de consumo e os serviços que lhe estão associados, criando condições para a diminuição do desemprego e para o aumento de salários) mas aquilo que pode ser estimulado: o mercado de capitais e a «especulação» (bens já não fazem dinheiro; apenas dinheiro o consegue). A verdadeira e crucial regulação seria, pois, a da moeda. Um novo Bretton Woods, que a indexasse a alguma coisa tangível (num documentário passado recentemente na SIC Notícias sugeria-se o kilowatt-hora de energia renovável ou um cabaz de produtos adequado à economia de cada país). Mas pouca gente, da direita à esquerda, quer verdadeiramente pôr fim ao nível de especulação actual: por muitas assimetrias que vá produzindo, mantém a ilusão de riqueza. Qualquer correcção, incluindo esta, seria para baixo, pelo que se adia e se finge que tudo correrá bem. Assustador é pensar (mas pensar é quase sempre assustador) que podemos estar no limiar de uma nova crise financeira sem verdadeiramente termos saído da anterior (i.e., sem margem para novos cortes de rendimento) e com os bancos centrais atulhados de garantias sem valor e praticamente desprovidos de munições (circunstância que pelo menos os deverá impedir de, mais uma vez, adiar - e agravar - o problema). A próxima correcção vai ser a sério.

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8 comentários

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De Costa a 18.08.2014 às 12:33

Eu receio que a margem para novos cortes de rendimento continue a existir e longe do esgotamento. Será assim enquanto alguns estiverem ainda acima da mera subsistência - e alguns ainda vão estando - e enquanto em verdadeira deflação estiver o respeito pelo cidadão (que manifestamente só interessa como contribuinte). E nessa matéria, quando julgamos ter já batido no fundo, a consagrada máxima "ai aguenta, aguenta" regressa poderosa.

E uma palavra de cautela, se posso ter essa presunção (e não faço humor): cuidado com a adopção do kilowatt-hora de energia renovável como padrão, pois esse há-de ser um muito acarinhado sonho dos senhores do costume, entre nós. É que então é que não haveria ribeiro sem barragem ou mera colina sem aero-geradores . Seria o paraíso da construção civil e obras públicas e glória das empresas de produção e distribuição de electricidade, nadando em rendas disto, daquilo e daqueloutro (porque produziam ou deixavam de produzir, distribuíam ou deixavam de distribuir, chovia ou deixava de chover e o mais que fosse). As nossas "facturas da luz" teriam ainda mais umas misteriosas alíneas, o consumo real pesaria ainda menos no total a pagar, que evidentemente aumentaria, o governo diria farisaicamente nada poder fazer porque os contratos são para cumprir e um novo patamar no progresso à portuguesa seria atingido.

Eu dispenso-o.
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De Antonio Maria a 18.08.2014 às 14:16

Identifico-me perfeitamente com o artigo. É preciso de fato um novo Bretton Woods e também uma nova maneira de viver em sociedade. Temos que nos habituar a viver com aquilo que temos e que conseguimos produzir.
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De Vento a 18.08.2014 às 14:34

Sabe, meu caro António Abreu, ainda que existisse uma indexação da moeda ao padrão ouro, é necessário não esquecer que em matéria económica e financeira há a necessidade de uma ascese.

Quero com isto dizer que na referida massa é necessário juntar-lhe algum fermento para se superar o dogma e dar lugar ao pensamento.
Acresce referir que ao longo de todo o século XX, com continuação para o presente, as medidas tradicionais não fugiram do aumento de impostos, redução de despesas, descontos de moeda e redução de impostos para que tudo ficasse na mesma. Em suma, o método clássico.

O que ainda não foi experimentado foi o facto de em períodos de crise os governos, juntos dos parceiros sociais, estimularem a ideia da manutenção de postos de trabalho nos mais variados sectores e deflaccionar o valor noutros como é o caso do sector habitacional.
É que desta forma contrariar-se-ia a desinflação e a defalacão que os métodos clássicos, o despedimento para reduzir custos e aumentar lucros e posteriormente a redução de preços para estar no mercado, tanto têm incentivado sem que haja um período sério de reflexão para deitar para o lixo o que já provou não resultar.
Caro está que a estas medidas poder-se-ia acrescentar, por exemplo, a redução num determinado sector empresarial de horas não pagas, mantendo-se desta forma o trabalho, o mercado e, consequentemente, o consumo e a geração de bens transaccionáveis.
Por exemplo, poderia ser permitido a redução de uma hora no valor do salário mensal por cada trabalhador. Se fizer as contas uma empresa que pudesse, em particular aquelas com um considerável número de trabalhadores, deduzir este valor a cada trabalhador rentabilizaria anualmente a sua actividade.
Claro está que o decréscimo de preços poderia ser levado ao transportes públicos, todavia este decréscimo aparente de receitas não só garantiria receitas ao estado como a todos os sectores da economia e os trabalhadores seriam compensados pela redução de despesas noutra áreas já referidas.

O que compete mudar é de cérebro. E com toda a humildade devo dizer-lhe que isto deve ser matéria de reflexão académica. Mas estes não existem.
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De Vento a 18.08.2014 às 23:30

Peço desculpa por alguns erros ortográficos. Não os corrijo porque o sentido da(s) frase(s) determinará a palavra e o tempo que se pretendia usar.
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De Luís Lavoura a 18.08.2014 às 16:46

Excelente post.
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De William Wallace a 18.08.2014 às 19:19

Concordo com tudo o que escreveu e tenho a firme certeza que a desregulamentação iniciada com a suspensão do padrão ouro vs possibilidade de emitir moeda é a grande causadora da actual evolução dos mercados em que a deflação será a estocada final na economia mundial baseada em especulação e bens não tangíveis sendo o "trabalho" um dos bens tangíveis mais afectados.

A espiral de crise actual continuará a atirar milhões de pessoas que tinham alguma coisa para um imenso limbo onde não terão nada (apesar de terem - não terá é valor).

Também vi esse programa na SIC N e destacaria outros pormenores se o soubesse de cor, só para informar que o exemplo dado no programa em questão do killowat-hora de energia renovável era dado como MERO EXEMPLO e não apoiado com veemência.

Continua-se a fuga para a frente de que cito como exemplo a breve efectivação do acordo de parceria comercial que a UE está a negociar com os USA em que serão abolidas as ultimas grandes barreiras alfandegárias que existem entre estes dois colossos económicos e em que uma vez mais as PME europeias serão as grandes prejudicadas assim como também os Países com economia mais débil. Esta "parceria" na sua forma principal já é praticada na Irlanda e no Reino Unido sem que daí decorra especial vantagem para o tecido produtivo e apenas ganham os grandes impérios financeiros que baseiam a sua riqueza no planeamento fiscal e na especulação.
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De João Lisboa a 18.08.2014 às 22:17

Isto é muito de ver: http://lishbuna.blogspot.pt/2014/08/blog-post_35.html

(pasou na TVI mas só consegui a versão original)
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De Wlliam Wallace a 19.08.2014 às 15:55

Sim (re) passou ontem na TVI mas foi editado para poder ser dividido em 2 programas.

Dizem que o maior cego é aquele que não ver e em Portugal e na Europa há cada vez mais.

Pessoalmente os temas mais pertinentes actualmente têm sido abordados nessas "horas mortas" tanto pela TVI 24 que se destaca assim como pela SIC N que ás vezes também passa umas reportagens estrangeiras decentes.

Mas o problema é a segurança social e os madraços dos reformados dizem....

Pobre de uma sociedade que não RESPEITA os mais fracos e indefesos.... e que já se acostumou pela lavagem cerebral que todos os dias lhe fazem a ser conivente com estas politicas.

Pera aí - NÃO HÁ DINHEIRO - ..............................

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