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À primeira vista e para sempre

por José António Abreu, em 05.02.15
(Um comentário deixado há dias num post da Francisca Prieto leva-me a republicar este texto, de Novembro de 2010. Rush lançou entretanto Subtle Bodies, editado em Portugal pela Quetzal naquela coisa a que a maioria das editoras nacionais chama português. Obviamente, comprei-o em inglês.)
 _________________________
 

Norman Rush, em entrevista à The Paris Review:

 

INTERVIEWER

So which novelists were you reading on your own?

 

RUSH

Conrad and Dostoevski above all. Conrad continued to be a huge revelation to me about serious political thinking taking place in a novel. Under Western Eyes and, especially, The Secret Agent. Dostoevski meant Notes From Underground and The Idiot, especially, though it’s very hard to privilege one of his books over another. All were important to me.

But the most significant literary moment at Swarthmore came when I met Elsa. Elsa was everything. I was only there a few months before we met but—she would do a much better job with these stories. Shall we invite her to join us?

 

INTERVIEWER

Why not?

 

ELSA

Well. Do you know Swarthmore? It was in their main building, in a quite formal parlor with velvet sofas and big oil paintings. I was sitting on one of these sofas with—my God, it was heaven!—young men all around, talking to me. At least five. Maybe eight. Some were sitting on the floor.

 

INTERVIEWER

All competing for your attention?

 

ELSA

I was naïve. I was eighteen. I’d only had one boyfriend and never got over being shy with him, so I didn’t think of myself as holding court. I just thought, Gosh, this is fun! No good dates in high school and now all of these conversations, with clever men asking my opinion about philosophy to show how sophisticated they were. At some point a mysterious stranger appeared in the doorway, wearing a black coat. He stood and listened for a minute, and when someone asked me a question—I wish I could remember what; I’ve thought of it many times—this man in the doorway said, “You don’t have to answer that.”

 

RUSH

I thought the question was intrusive.

 

ELSA

I actually wasn’t upset by the question, though I did understand what this man in the doorway meant. Then one of my couch suitors said something provocative, and the man gave a reply that infuriated them all. He said—instead of arguing, he said—

 

RUSH

I gave them a reading recommendation.

 

ELSA

And they hated it. He said, Why don’t you read such and such? Which is very annoying, of course. It’s a way of saying, “You’re not equipped to have this conversation with me.” I wish I could remember the book he recommended, though in a way it doesn’t matter, because Norman has done that so many times in his life.

 

RUSH

She means that I’ve often been aggressively, unpleasantly authoritative.

 

ELSA

Correct. Though at the time, I was smitten. I went back to my dormitory and told everyone that I’d met the man I want to be with forever. I was completely taken by his gestalt. And even later, after we’d married and departed Swarthmore, I remained this way, though when I disagreed with him, I certainly said so.

 

Rush fez setenta e sete anos a 24 do mês passado. Publicou o primeiro livro, Whites, em 1986, já depois dos cinquenta, e desde então apenas mais dois (tem o quarto quase pronto). Em parte, tal deve-se ao facto de em 1978 ter queimado tudo o que escrevera até então. Reside numa zona rural do Estado de Nova Iorque, na casa que partilha com Elsa há quarenta e nove anos. Escreve no sótão, em três máquinas de 1955 (duas Royals, uma Underwood) colocadas lado a lado (usa uma das Royals para a primeira versão do texto, a segunda para revisões, a Underwood para apontamentos). Organiza gigantescos dossiers com as características das personagens e depois permite que estas definam o rumo dos acontecimentos. Elsa torna-se leitora e revisora assim que a primeira versão da primeira vintena de páginas está escrita. Marca a vermelho as passagens que lhe suscitam dúvidas e discute-as com Norman; umas são alteradas, outras não. Diz que ele já foi mais intransigente. Norman admite embaraço por uma frase de Mating (National Book Award em 1991), que decidiu manter no texto apesar de contestada por ela (parecia-lhe inadequada a uma personagem feminina), ter sido escolhida por um crítico, em cinco centenas de páginas, como exemplo de falta de verosimilhança. Diz que Elsa é excelente a habitar as personagens. Parecem estar em paz, com a vida e um com o outro, mas nem sempre terá sido assim. Enquanto jovem, Norman era politicamente radical. Foi condenado a dois anos de prisão por recusar combater na guerra da Coreia, tendo escrito uma carta a Eisenhower explicando que era pacifista e se opunha a qualquer tipo de violência (não usou o estatuto de objector de consciência porque este implicava acreditar numa religião e ele também recusava fazer isso). Após abandonar Swarthmore com Elsa, quis que vivessem em comunas. Elsa estava grávida e detestou a experiência mas, negando-se a renunciar à visão que tivera naquele primeiro encontro (que ele era o homem com quem iria passar o resto da vida*), não desistiu. Com o tempo, foi-o transformando numa pessoa menos radical. E ele sabe-o: But I'll tell you, her patience with my arcane fiction was part of a greater patience, over a sort of battle we waged for years. Some couples don't ask much of one another after they've worked out the fundamentals of jobs and children. Some live separate intellectual and cultural lives, and survive, but the most intense, most fulfilling marriages need, I think, to struggle toward some kind of ideological convergence. I was a sectarian leftist when we met. Radicalism was essential to my self-definition. So there had to be a long period of argument and discussion before I developed, let's say, a less immanentist view of social change. Also—and this is relevant to Mortals—I was sort of a stage atheist when we first got together. I just couldn't believe religion was still happening. She had a much more humane view of the whole business. De entre os vários empregos que tiveram, Norman trabalhou como livreiro e professor e Elsa como tecedeira, designer e professora de design. No final dos anos setenta e início dos oitenta, trabalharam para o Peace Corps no Botswana, país onde decorre a acção dos três livros de Norman (o próximo passar-se-á nos Estados Unidos). Na dedicatória de Mortals, o último publicado (em 2003), que vou finalmente tirar do lugar da estante onde espera ser lido desde que as referências sempre tão admiravelmente isentas de incerteza deste filho da mãe e um preço absurdamente baixo para um calhamaço hardcover de 700 páginas me fizeram encomendá-lo à Amazon, Rush escreveu: For my Muse and Critic, with gratitude for the last ten years of extraordinary forebearance, creative impatience, unfailing love. Elsa, you are unique. Pode muito bem ser excesso de optimismo (algo de que sou culpado ainda muito mais vezes do que provavelmente se justificaria) ou distorção de leitura induzida pelo efeito conjunto do sono (passa da meia-noite) e da necessidade de ir ao oftalmologista mas vou guardar o número da revista como prova de que tanto o amor à primeira vista como o amor eterno (bom, pelo menos até à morte) são realidades humanas. E de que ambas se podem dar bem com espíritos fortes e na presença de livros. Muitos livros.
 
* São sempre as mulheres a sabê-lo primeiro e a agir de modo a que possa ser verdade. Contudo, o patamar de dificuldades que estão dispostas a suportar para manter a visão afigura-se-me cada vez mais baixo. (Com honrosas excepções, os homens nunca foram bons no campo do auto-sacrifício em nome do interesse da companheira.)

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