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A primeira derrota de Costa

por Pedro Correia, em 30.03.15

AntonioCostaMadeira[1].jpg

 António Costa em campanha no Funchal (15 de Março)

 

António Costa decidiu derrubar António José Seguro, sem deixar o então secretário-geral do partido submeter-se ao teste das eleições legislativas após três anos em funções no Largo do Rato, com um argumento derivado do mais puro achismo lusitano: achava-se em melhores condições de protagonizar o ciclo político pós-Passos Coelho.

Isto sucedeu, note-se, no rescaldo imediato das eleições europeias de 2014, em Portugal ganhas pelo PS. Esse foi o terceiro triunfo de Seguro em três anos: antes, com ele à frente do partido, os socialistas tinham vencido as eleições regionais dos Açores e as autárquicas.

Costa achou "poucochinho" o triunfo nas europeias - que constituíram um descalabro generalizado para a família socialista no Velho Continente ao qual o PS português foi um dos raros partidos que escaparam - e, estribado na tropa de choque de José Sócrates, garantiu aos militantes que faria melhor do que os 38% das intenções de voto atribuídas a Seguro pelas sondagens à época.

 

Quase um ano depois, afinal, o PS permanece como estava: Costa não ganhou um milímetro nas pesquisas de opinião para o partido, que acaba de averbar uma estrondosa derrota nas eleições regionais da Madeira. Apesar de prometerem ser as mais propícias de sempre para a oposição socialista pois marcavam o fim do longo consulado jardinista.

Com um péssimo candidato a encabeçar a lista regional, uma desastrosa política de alianças que privilegiou o patusco Coelho - o Beppe Grillo funchalense - e o excêntrico Partido dos Animais, e sem a menor capacidade de aglutinar a esquerda local, mais dividida que nunca, o PS acaba de ser remetido para mais quatro anos de oposição no arquipélago, assistindo impotente à revalidação da maioria absoluta do PSD, desta vez comandado por Miguel Albuquerque. E sem ter sido sequer capaz de ultrapassar o CDS como segunda força política regional.

Pior ainda: os socialistas recuam em relação ao anterior escrutínio, ocorrido em 2011, não só em número de votos e percentagem, mas também em lugares no Parlamento regional. Há quatro anos elegeram seis deputados (em 47), agora têm os mesmos, mas como concorreram em coligação com três partidos, um desses assentos caberá ao patusco Coelho, que se apressou a descolar do PS, esgotado o prazo de validade deste partido enquanto barriga de aluguer.

 

António Costa participou na campanha eleitoral da Madeira, apoiou o candidato fracassado, envolveu-se. E perdeu.

Estivesse ainda Seguro ao leme do PS nacional, acossado por um batalhão de bitaiteiros televisivos dispostos a "fazer-lhe a folha", e não faltaria o coro das carpideiras a bramar contra a "frouxa" liderança no Largo do Rato.

Como Seguro já não está, resta o silêncio.

 

Leitura complementar:

Açores: dez apontamentos eleitorais (texto de 14 de Outubro de 2012)

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18 comentários

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De Luís Lavoura a 30.03.2015 às 12:48

António Costa decidiu derrubar António José Seguro, sem deixar o então secretário-geral do partido submeter-se ao teste das eleições legislativas após três anos em funções no Largo do Rato, com um argumento derivado do mais puro achismo lusitano

Quem achou e quem derrubou não foi António Costa, foram os militantes e simpatizantes do PS (entre os quais eu não me conto, esclareça-se).

O Pedro Correia por não concordar com eles mas, como o Pedro Correia não é militante nem simpatizante do PS, a sua opinião não foi chamada.
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De Luís Lavoura a 30.03.2015 às 13:27

Errata: onde está "por" leia-se "pode".

O que eu quero dizer é que António Costa se limitou a, dentro dos seus direitos, agitar as águas contra Seguro e candidatar-se contra ele. Porém, quem derrubou Seguro, em última análise, não foi Costa - foram os simpatizantes do PS. O Pedro Correia não deve criticar Costa, deve é criticar os simpatizantes do PS - que, pelos vistos, fizeram uma má opção.

(Da mesma forma que não se deve criticar o Syriza pelas propostas que faz, pois que tem o direito de as fazer. Em democracia toda a gente tem o direito de fazer propostas. Pode-se é criticar os eleitores gregos por votarem no Syriza.)

Em democracia, as opções dos eleitores devem ser respeitadas, mesmo quando se acha que elas são erradas.
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De Miguel R a 30.03.2015 às 13:30

Num país democrático não é preciso chamar opiniões.
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De Luis Eme a 31.03.2015 às 10:05

concordo.

as opiniões só deviam ter um dono, o próprio.

e num país livre e democrático, cada um de nós tem direito à sua, ou pelo menos devia ter. mesmo que isso faça comichão na cabeça de muita gente (e até faça outros espumarem pela boca e treparem paredes).
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De Anónimo a 30.03.2015 às 13:32

Quem derrubou António José Seguro, foi o ego elevadíssimo de António Costa e daqueles que estão a seu lado que não estavam nada interessados, na clareza e integridade de Seguro. Segundo Costa e dos que o rodeavam, Seguro era um líder fraco, incapaz de captar votos e por isso teria de ser erradicado do posto porque ele, Costa, é que era o grande homem do PS. Tem-se notado a qualidade política do senhor Costa que em nada tem superado o seu colega. Tudo se paga, mais tarde ou mais cedo.
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De am a 30.03.2015 às 13:46

SR militante Lavoura

"Foram os militantes" ...

Acossados por uma dose cavalar de demagogia ... Com militantes destes, a coligação PSD/CDS pode dormir descansada!

Madeira!
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De Perdas a 30.03.2015 às 15:27

Perderam a oportunidade de renovar o partido,Seguro não "os" teve e trituraram-no.Perdeu o partido,cheio de chassos,e sobretudo perdeu o país que ficou sem uma oposição preparada,responsável e capaz que evitasse deitar outra vez tudo a perder na voracidade dos antigos aparelhistas.
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De Pedro Correia a 30.03.2015 às 23:59

Enquanto o baronato do PS prosseguir as romarias quotidianas a Évora e não arriscar sequer proferir um sussurro contra a corrupção, tardará em ganhar o País. Quem não perceber isto não percebe nada de essencial.
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De lucklucky a 30.03.2015 às 16:18

"Estivesse ainda Seguro ao leme do PS nacional, acossado por um batalhão de bitaiteiros televisivos dispostos a "fazer-lhe a folha", e não faltaria o coro das carpideiras a bramar contra a "frouxa" liderança no Largo do Rato.
Como Seguro já não está, resta o silêncio."

Ora bem. Mais uma demonstração que o jornalismo = política.


"António Costa decidiu derrubar António José Seguro"

Tenho as minhas duvidas, Costa sempre me pareceu mais empurrado pelos elite jornalista e opinadores que pela sua própria vontade.
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De anonima a 30.03.2015 às 16:21

Coitadito do Costa, é mesmo fraquinho.
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De Vasco a 31.03.2015 às 01:45

Lisboa que o diga.
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De lucklucky a 30.03.2015 às 16:29

Por falar em jornalismo é também constatar que como foi o PS que perdeu, estes resultados já não têm "significado nacional".

Já se fosse a direita a perder já teriam "significado nacional"
No mundo jornalista é assim.
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De Pedro Correia a 30.03.2015 às 23:58

Ainda agora se viu em Espanha. As eleições autonómicas na Andaluzia tiveram, obviamente, "significado nacional". Na Madeira, pelo contrário, nem pensar nisso.
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De Marquês Barão a 30.03.2015 às 17:21

Ventos da Madeira para Costa do continente.
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De Miguel a 30.03.2015 às 23:18

O povo da direita adorava e adora o Seguro.
Afinal onde iriam encontrar outro abstencionista "violento"?
Um achado, aquele homem (!?).

Ali, firme nas suas convicções (??), a enfrentar ventos e marés a apresentar setenta e não sei quantas propostas e depois a vociferar entre dois copos de leite.
Que saudades!

Sem qualquer papel no tempo de sócrates excepto liderar uma comssãozita na assembleia. uma desfeita para homem de tão alta craveira?

Quem pode nao sentir a falta de um homem que arengava contra o sistema, os partidos e os politicos brandindo a sua imensa experiência profissional e competências só comparáveis ao actual primeiro ministro.

uma injustiça!

Acaabou por ser derrotado em toda a a linha no sitio que escolheu. Em eleições.

Não foi Costa que correu com ele, foram todos os que votaram nas primárias que Seguro inventou. Eu incluido.

Porque ganhou Costa? Porque é formidável? porque é um lider? um visionário? Um Politico com P grande?

Quanto aos outros que votaram nele, não sei.
Para mim resume-se ao mal menor. A escolha era entre ele e Seguro.
Numa escala de 0 a 10, Seguro é 1, Costa é 4.

E caro Pedro, não se apoquente com a benevolência da comunicação social.
Ainda falta tempo. As tropas ainda não foram chamadas.
Mas nao faltarão e farão o seu papel por troca por umas benesses, uma assessorias de imprensa, um lugar num institutozinho qualquer.

O Pedro deve saber do que falo.

miguel





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De Pedro Correia a 30.03.2015 às 23:56

Fantástico.
Consegue escrever vinte e duas linhas de comentário sem a mais leve alusão à colossal derrota do PS na Madeira: 11%, terceiro lugar (atrás do PSD... e do CDS!), apesar de aparecer coligado com o Coelho local e o Partido dos Animais, apesar de já não haver Jardim em cena, apesar de ter contado com a prestimosa presença do secretário-geral do partido a animar as hostes durante a campanha.
Isto ajuda a explicar as causas do insucesso dos socialistas não só em Portugal mas um pouco por toda a Europa (ainda agora se viu em França). Uma imensa soberba que quando é contrariada pelos factos se resolve... omitindo os factos e apontando a lua.
Péssimo indício para os próximos desafios eleitorais que vão seguir-se no País. Seguro venceu três. Costa, até ao momento, não venceu nenhum. As coisas são o que são.
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De M. S. a 31.03.2015 às 19:43

Caro Pedro:
Acho que o post «Os socialistas franceses perderam as eleições por causa da economia?», de que lhe deixo o link abaixo, é interessante e vai ao encontro da sua tese de incompetência política, arrufos de populismo, falta de autocrítica, incompetência técnica, etc., de muita gente do PS.
Vale a pena ler: https://oeconomistaport.wordpress.com
------------------------------------------------------------------------
P. S. Veja o populismo e a incompetência da recente proposta do PS para o IMI.
Em 2003, a reforma do património impôs a reavaliação dos prédios pelo CIMI.
E num prazo máximo de 10 anos, mas como sempre, à portuguesa, nada foi feito até a Troika obrigar.
Por receio da reação de tanta gente, foi posta a Cláusula de Salvaguarda que aumentava o IMI suavemente, ano após ano.
Entretanto, sempre que houvesse mudanças de titular, por compra, herança, etc. os prédios eram reavaliados mas não tinham a protecção da Cláusula de Salvaguarda.
Moral da história: 1/3 dos prédios, cerca de 2,5 milhões, têm estado a pagar pela medida grossa.
Os outros 2/3 de prédios, a pagar metade ou menos do que o 1/3.
Finalmente o Governo resolveu – e muito bem – acabar com a protecção da Cláusula de Salvaguarda este ano, logo muita gente vai apanhar pela medida grossa também, tal como o tal 1/3.
E o propôs o PS?
Se for Governo, reintroduzirá a dita Cláusula de Salvaguarda.
Isto é: manterá a injustiça (por quanto tempo mais?)
Isto é populismo puro e do mais rasca.
E incompetência política e técnica.
Fazia muito mais sentido pedir uma baixa para todos do intervalo das taxas, actualmente entre 0,3 e 0,5, para 0,2 e 0,4.
E sem perda de receita global devido ao brutal aumento com o fim da Cláusula de Salvaguarda para os 2/3 de prédios.
Pensam que é assim que se ganham eleições.
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De Luis Eme a 31.03.2015 às 10:11

olhando de fora, é de uma falta de inteligência gritante as alianças do PS na Madeira.

e demonstram também medo (pelos resultados, parece que tinham razão para isso...)

espero que o Costa e os seus "muchachos" tenham aprendido alguma coisa com esta derrota.

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