A preciosa mão que promulga os decretos



Já quase ninguém se lembra, mas o Governo chegou a anunciar um “Dia da Libertação Total” da pandemia. Ocorreu no momento que mais lhe convinha em termos de oportunidade política: divulgado escassas semanas antes das eleições autárquicas para se concretizar logo a seguir.
É a maneira típica de António Costa exercer o múnus governativo: isto proporciona bons títulos matutinos, dá-lhe crédito imediato, rende votos ao PS no escrutínio mais próximo. Sempre a pensar na eleição que vem, com o instinto do político profissional que sempre foi. Das gerações seguintes outros tratarão. Aliás de pouco vale invocar futuras gerações num país que regista o pior saldo natural negativo desde 1918 – o terrível ano da batalha de La Lys e do início da gripe pneumónica.
O problema, entre nós, não é morrer-se muito: é nascer-se quase nada. De covid – ou com covid – vai-se morrendo, como de tantas outras causas, sempre silenciadas: só o coronavírus existe para efeitos noticiosos. Numa desproporção chocante face aos restantes tópicos da actualidade.
Vamos a números, da semana passada.
Na terça-feira, a SIC dedicou os 21 minutos iniciais do seu Jornal da Noite ao monotema covid. Na quarta, 22 minutos. Na quinta, um quarto de hora. Em qualquer dos casos, voltou ao assunto nestes blocos noticiosos, os principais de cada dia.
O Jornal da CNN Portugal de terça-feira começou («arrancou», como eles preferem dizer) com 31 minutos em torno da pandemia. No dia seguinte, 34 minutos. Na quinta, 28 minutos.
Quase sempre em tom alarmista. Na quarta, foi esta a frase de lançamento do telediário da CNNP: «Vacinação e testagem – os números da pandemia vão subir nos próximos dias.» E a da quinta-feira: «O número de infectados por covid pode chegar aos 18 mil novos casos por dia.»
É pena que os jornalistas abdiquem de fazer perguntas incómodas, talvez com receio que alguém lhes chame negacionistas – palavra da moda em 2021.
Se ainda ousassem questionar o poder político, recordariam as promessas feitas e jamais concretizadas sobre a «imunidade de grupo» que levaram o Governo a fechar centros de vacinação, enquanto dispensava o vice-almirante Gouveia e Melo da coordenação do combate à pandemia. O mesmo Governo que hoje nos exige testes obrigatórios para entrar em cinemas e restaurantes. Como se a vacina em dupla e tripla dose já não servisse para nada.
Da "libertação total" prometida para o final do Verão, sobra uma triste caricatura: a do primeiro-ministro a cumprimentar à moda antiga o Presidente da República no Palácio de Belém e logo a sacar do bolso um frasquinho para desinfectar a preciosa mão direita do Chefe do Estado. Preciosa por ser a que promulga as leis.
Não há qualquer “pedagogia sanitária” nesta pantomima, ocorrida a 23 de Dezembro: é simplesmente ridícula. E agrava os índices de fadiga pandémica, já tão elevados.
O medo e o pânico, induzidos pelo fluxo de notícias alarmistas consumidas em sessões contínuas, enfraquecem o nosso sistema imunitário. Costa e Marcelo, cada qual a seu modo, contribuem para isto também.
Texto publicado no semanário Novo

