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A potência europeia

por Luís Naves, em 13.07.18

No meu livro Portugal Visto pela CIA (Bertrand, 2017) citei documentos secretos norte-americanos dos anos 50 e 60 sobre a NATO e a segurança europeia. Não quero maçar os leitores com detalhes, mas estes documentos sugerem que os americanos acreditavam na época que a URSS teria vantagem militar esmagadora, caso invadisse a Europa Ocidental. A estratégia da aliança era ganhar tempo, para colocar tropas americanas no teatro europeu. O ponto considerado mais fraco da NATO era a Itália (e logo a seguir a França), devido à dimensão dos partidos comunistas nestes dois países. Julgo que conhecer estes primórdios da NATO nos ajuda a perceber melhor o que se passou na recente cimeira da Aliança Atlântica, sobretudo as discussões em torno do reforço da contribuição europeia ou das relações com a Rússia. Olhando para trás, é evidente que os membros da NATO têm hoje uma consciência bastante favorável da sua segurança (a ponto de investirem pouco na defesa). No seu estilo sem diplomacia, Donald Trump foi claro: os EUA não estão preocupados com a Europa, não consideram a Rússia um inimigo e, tendo isso em conta, os países europeus devem fazer mais pelos seus interesses estratégicos. Nada disto é novo, os EUA afastam-se progressivamente da Europa há duas décadas e, sem contradição, querem que as potências europeias sejam mais activas no respectivo quintal (leste, Médio Oriente, África). Nos próximos trinta anos, os Estados Unidos estarão concentrados na difícil rivalidade com a China, contando com alianças que incluem Japão, Coreia ou Reino Unido. Este conflito será diferente da Guerra Fria, pois os dois colossos têm desta vez peso económico semelhante. Na secundária questão europeia, a Alemanha terá de se chegar à frente, sobretudo na relação dos ocidentais com a Rússia; será apoiada por franceses, polacos, turcos e por italianos, que em conjunto têm capacidade militar e económica mais que suficiente para equilibrar o jogo com Moscovo. Esta mudança também ajuda a perceber o Brexit, que poderá ser mesmo uma separação, e permite enquadrar o encontro entre Trump e Putin, onde o presidente russo tentará manter a relação entre as duas potências no ponto em que ela se encontra, nomeadamente facturando as vitórias recentes (um pé no Médio Oriente, outro na Ucrânia) dando em troca garantias de que aceita o equilíbrio negociado com os europeus (não será com Bruxelas, claro, mas com Paris e Berlim). São os custos da força. De resto, sobre relações de poder na aliança atlântica, parece-me que há muitas ilusões na Europa: um dos convidados do jantar paga 70% da conta; os outros todos juntos, que em conjunto são tão ricos como o primeiro, só pagam 30%; ora, quem acham que vai escolher o vinho?

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16 comentários

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De Luís Lavoura a 13.07.2018 às 14:47

Donald Trump foi claro: os EUA não estão preocupados com a Europa, não consideram a Rússia um inimigo e, tendo isso em conta, os países europeus devem fazer mais pelos seus interesses estratégicos

Não sei se foi isso que Donald Trump disse de forma clara, mas se tiver sido, então ele tem razão.

Os interesses estratégicos da Europa são diferentes dos dos EUA porque a geografia da Europa é diferente da dos EUA. Os EUA são um continente à parte e têm que se preocupar com a China. Os EUA são independentes em todos os recursos; a Europa, pelo contrário, é dependente dos recursos energéticos da Rússia e/ou do Médio Oriente. Se alguém faz merda nos países árabes, os EUA não têm problemas com isso, mas a Europa sofre uma vaga de migrantes.

Portanto, Trump tem razão: os interesses estratégicos da Europa e dos EUA são diferentes. E a Europa tem que olhar para os seus problemas estraégicos.
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De Anónimo a 13.07.2018 às 20:19

E já chega de a Europa ser subserviente ao imperialismo americano ao ponto de participar nas aventuras dos americanos no Médio Oriente.
Nada contra os imigrantes, eles são muito bem vindos, mas preferia que eles viessem de forma relativamente voluntária e não a fugirem de guerras.
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De Sarin a 13.07.2018 às 14:53

Tendo em atenção que o vinho, a carne e até os guardanapos são vendidos pelo que paga 70% da conta, assim numa primeira abordagem parece-me que talvez tenhamos que refazer a conta que apura as percentagens...
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De Anónimo a 13.07.2018 às 16:03

Pois, mas isso os imperialistas a mando dos americanos não gostam de mencionar. E emigrar para Washington DC que é bom está quieto...
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De O Gajo a 13.07.2018 às 14:57

"No seu estilo sem diplomacia, Donald Trump foi claro"

Belo elogio encapotado.

Quanto ao que os EUA consideram ou não como inimigos, ou aliados, é um bocado irrelevante, uma vez que Trump é um acidente histórico na história do seu país. E como podem os EUA não considerarem a Rússia uma ameaça? Um país governado por um ditador com pretensões imperialistas! Quanto à boa relação Trump -Putin não é isso que vejo, mas sim uma postura no mínimo bizarra. Ora Trump elogia o seu congénere , ora o critica abertamente, como no caso de gasoduto alemão.

Trump não é para levar a sério. Mas já vi que no meu país há quem aprecie o estilo trauliteiro, "não diplomático ", do eu quero e estou-me nas tintas para acordos multilaterais...à "Boss"
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De Anónimo a 13.07.2018 às 16:05

A Rússia de Vladimir Putin não é flor que se cheire mas os EUA são uma ameaça bem maior à paz mundial. Muitos países do terceiro mundo podem confirmar isso.
Se os dirigentes europeus se recusam, e bem, a ser subservientes à Rússia, porque estão sempre de rabinho voltado para os americanos, mesmo quando estes têm alguém como Trump no poder?
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De lucklucky a 13.07.2018 às 22:41

A "Europa" é para levar a sério? é que segundo a tua bitola se não está sempre de acordo com os EUA parece que não...

...Trump critica Putin quando acha que este não serve os interesses dos EUA e apoia ou simplesmente se está nas tintas em outras situações..

É fantástico que penses que o Trump e Putin tenham de estar sempre de acordo mas a "Europa" já não...

"...do eu quero e estou-me nas tintas para acordos multilaterais...à "Boss".."

"Acordos" não aprovados pelo Congresso?
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De O Gajo a 14.07.2018 às 11:54

https://www.google.pt/amp/s/www.washingtonpost.com/amphtml/news/wonk/wp/2017/03/01/trump-may-ignore-wto-in-major-shift-of-u-s-trade-policy/

https://www.google.pt/amp/s/amp.theguardian.com/world/2017/mar/08/russia-cruise-missile-violates-treaty-us-general
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De Anónimo a 14.07.2018 às 13:58

Trump é a prostituta de Vladimir Putin. Toda a gente sabe isso.
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De Vento a 13.07.2018 às 21:56

Trump nesta matéria não tem razão. Ele pensa que a Europa é a Arábia Saudita e que tem a obrigação de financiar o tesouro americano. Ele anda em busca de negócio com toda esta retórica. Nesta matéria, é esta a estratégia de Trump e mais nenhuma.
Tentou fazer o mesmo com a Coreia do Sul e com o Japão.
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De lucklucky a 13.07.2018 às 22:34

"...que em conjunto têm capacidade militar e económica mais que suficiente para equilibrar o jogo com Moscovo."

A capacidade começa na vontade.
Ora as pessoas convergem para a qualidade de jornalismo de uma sociedade por isso não se espere grande coisa dos europeus.
A URSS colapsou apesar do jornalismo nos dizer o contrário.

A Europa é como a França antes da Segunda Grande Guerra.
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De Anónimo a 14.07.2018 às 13:59

A sua obsessão com o jornalismo sugere que você levou uma tampa de uma jornalista.
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De lucklucky a 15.07.2018 às 16:34

O jornalismo é só o maior problema do Ocidente.
Sem isso resolvido caminhamos todos no Ocidente para a Venezuela na melhor das hipóteses.

E quando se tem de perder um hábito/prazer que vem desde criança pela estupidez e os temas escolhidos e os temas censurados segundo a cultura Marxista pode ter a certeza que isso muda.

Desde há décadas que o jornalismo tenta destruir o Ocidente.
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De Anónimo a 14.07.2018 às 01:29

A Force de Frappe a fazer frente ao arsenal soviético?
Ninguém acompanhou de Gaule,o mal foi esse.
Isso foi há meio século,ou mais.
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De Anónimo a 14.07.2018 às 14:00

Soviético? Você entrou em coma em 1990 e acordou agora?
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De O Gajo a 15.07.2018 às 18:19

https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/trump-diz-que-uniao-europeia-china-e-russia-sao-inimigos-dos-estados-unidos

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