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A palavra eu vence a palavra nós

por Pedro Correia, em 19.03.16

selfie1[1].jpg

 

"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito.

Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou um banco em crise. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.

Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.


25 comentários

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De Luiz Santos-Roza a 19.03.2016 às 23:41

Ou estou errado, ou o Pedro defende o capitalismo e a globalização; tudo aquilo de que se queixa aqui são meras consequências deles. Não se pode promover estes conceitos com chavões como "liberdade" e "poder de escolha" e depois reclamar-se porque as pessoas, imbuídas de liberdade, escolheram acabar com as hierarquias de valores; isso cria barreiras ao consumo, à nivelização de todos numa supra-identidade; por isso têm de desaparecer. Se as pessoas não forem iguais, se não pensarem do mesmo modo, se não comerem o mesmo, lerem o mesmo, verem o mesmo, vestirem o mesmo, as multinacionais não conseguem vender tanto; em vez de um único mercado global, ficariam com micro-mercados marginais. Assim torna-se tudo igual, com perda de espessura, reflexão, crítica, capacidade para resistir à vacuidade. O que importa que empresas de RP as tenham influenciado aqui e ali? Que os políticos as tenham empurrado um pouco? No fim foram elas que o quiseram.

Qual seria a alternativa do Pedro agora? Voltarmos todos ao passado quando as viagens internacionais não se haviam ainda banalizado, quando a transmissão de informação era quase impossível fora de canais (semi)-oficiosos, quando havia ainda um vasto respeito pela intelligentsia que, muitas vezes, estava alienada das massas e cortejava o poder ou ideologias sinistras? Este é o mundo que temos, o qual o Pedro ajudou a criar; reclamar agora do "narcisismo" da era moderna demonstra um interessante volte-face: o que pensava que ia acontecer quando todos vivessem num mundo cujos principais valores são o sucesso, a popularidade, o consumo e a competição? O que esperava que o capitalismo fizesse pelo sentido de cidadania? Que tornasse o cidadão responsável e altruísta? Os marxistas já andavam a acusar o capitalismo de desumanização desde o século XIX; Jerry Mander já andava a alertar para o perigo da TV desde os anos 1970; o lamento do Pedro vem um bocado tarde. Ainda vai andar a citar Slavoj Zizek por aqui.
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De WW a 19.03.2016 às 23:56

Muito Bom, mas Muito Bom mesmo !

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