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Delito de Opinião

A outra face de Serralves

Ana CB, 27.09.22

Oito e meia da tarde e já está escuro, embora o céu ainda tenha aquele tom anilado típico das noites quentes de Verão. Estamos a entrar no Outono mas não se nota nada, há três dias que estou no Porto e ainda não vesti um agasalho.

 

Apesar do horário pouco usual para uma visita, o portão norte de Serralves está aberto e vão entrando pessoas, aos pares ou em pequenos grupos. O ambiente é tranquilo, um segurança indica que a entrada é mais abaixo, outro pega nos bilhetes e faz-lhes um corte. Serralves está em luz e é altura de conhecer uma face diferente deste mundo, aquela que nunca vi – a sua face nocturna.

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Quando comprámos os bilhetes deram-nos um livrete que explica a exposição, o seu percurso e as várias instalações, mas ignorei-o propositadamente. Prefiro ir à aventura, desconhecendo o que me espera, para não ter ideias preconcebidas e simplesmente sentir o que vou ver e viver. Gosto das experiências cruas, de não saber o que me aguarda, ou saber só o essencial. Mesmo quando preparo as minhas viagens, nunca vou esmiuçar tudo ao pormenor. Sei que há um qualquer sítio que pode ser interessante, marco-o nos meus planos, mas resguardo-me para o factor surpresa.

 

O início do percurso é psicadélico, uma alternância rápida de cores vivas que se reflectem em paredes claras e tubos dispostos em linhas enviesadas que se cruzam. Depois seguimos por um corredor definido por muros baixos de betão, e instala-se a calma. Atrás dos muros há árvores esquálidas iluminadas por focos de cor, e atrás delas a escuridão total. Sinto-me como numa porta de entrada para outra dimensão. Mais à frente, nova mudança de ambiente, esta o negativo da anterior: as árvores são agora silhuetas negras sobre o fundo feérico de cores quentes que tinge a parede do museu, e a janela da biblioteca brilha como um farol.

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O ritmo do passeio é lento, a noite pede sossego e até as vozes baixam de tom. O ar está morno e parado e uma neblina leve desfoca ligeiramente tudo o que me rodeia. Sigo o percurso marcado, algo monótono nesta primeira parte, uma sucessão de árvores e arbustos alumiados a espaços, alternando com zonas de negrume. Há uma banda sonora de fundo, sons musicais que me parecem provir de taças tibetanas, e de vez em quando aparece uma instalação luminosa: o roseiral, declinado em roxo, vermelho e azul intermitentes; o corte de ténis, onde se alinham campânulas de vidro com feixes de luz interactivos, que se movem verticalmente quando os cruzamos – como soldados perfilando-se em sentido à passagem do seu comandante; aros fluorescentes desenhando o contorno dos troncos de gigantescos eucaliptos; linhas de luzes que unem várias árvores acima da minha cabeça, a fazerem lembrar teias de aranha (li depois que a ideia é evocarem as micorrizas, as “ligações entre redes de fungos e as raízes das árvores e plantas”, mas a minha impressão não desapareceu).

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A tranquilidade é quebrada ocasionalmente pela passagem barulhenta de um avião na sua descida para o aeroporto. O ruído e as luzes poderiam fazer parte da exibição, como elemento disruptor, mas são apenas uma coincidência que me transporta bruscamente para a realidade. Felizmente, apenas por alguns momentos. Fora isso, é a imersão total na atmosfera que me rodeia. Caminhar e sentir, caminhar devagar, parar de vez em quando para observar as instalações, tirar fotografias aos cenários criados pelo contraste entre a luz e a sua ausência, às pessoas prensadas em silhuetas bidimensionais. O parque de Serralves está transformado num mundo onírico e, tal como nos sonhos, não sei o que é que vai acontecer a seguir.

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Por entre o arvoredo surgem barras de luz que mimetizam um movimento circular, ora azuis, ora vermelhas, ora alaranjadas, às vezes transformam-se em pontos que me parecem estrelas. Só quando se iluminam todas ao mesmo tempo, brancas e muito brilhantes, é que me apercebo de que estou ao pé do lago. A composição luminosa foi colocada em torno da ilha, as árvores estão engolidas pelo escuro, e a água é uma superfície de breu que apenas reflecte as luzes da instalação, impotentes para iluminar o que as cerca. Mais ao lado, atrás das gigantes pernas de madeira do passadiço elevado, flutuam globos esféricos que mudam de cor, do branco-amarelado ao rubro, jogando às escondidas entre eles e connosco. A seguir subo até à Casa do Cinema por um caminho ladeado de bambus, cujo verde foi substituído por cores cálidas. Na fachada lateral do edifício é projectado um filme que mostra, a velocidade supersónica, silhuetas de elementos vegetais sobre rectângulos de tonalidades fortes roubadas ao arco-íris. O som que acompanha a projecção é uma espécie de martelar rítmico repetitivo e juntos, imagem e música, têm um efeito hipnotizante. Tivessem colocado um sofá naquele sítio e eu poderia ficar ali durante tempos infindos, sem dar por nada do que se passasse à minha volta.

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O percurso leva-me pelo arvoredo ao lado do parterre central. No meio dos troncos há paralelepípedos brancos, cuja iluminação realça as silhuetas dos ramos finos colocados no seu interior. E é ao descer pela alameda que conduz à fonte que tenho o primeiro vislumbre da Casa. Não a conhecesse eu já de outras visitas e teria muita dificuldade em a associar à imagem que vemos nas fotografias. A sua icónica cor rosa-salmão foi mascarada com azul-forte, as janelas e aberturas vibram em tons laranja, amarelo ou rosa – a Casa irradia felicidade, parece estar em festa, a aguardar convidados para uma soirée esfuziante de animação. O parterre é a passadeira vermelha por onde subo até ela, e a enorme escultura de metal negro de Rui Chafes (Comer o coração) que instalaram à sua frente pode bem simbolizar os seguranças que controlam a entrada no evento.

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Mas é só a minha imaginação a trabalhar. Na verdade, a esta hora a casa não está aberta ao público. Há, de facto, um segurança de carne e osso, mas a sua função é precisamente evitar qualquer equívoco, não vá alguém mais entusiasmado achar que pode entrar por ali adentro. O percurso é também muito explícito, com as setas a conduzirem os visitantes pelos caminhos que contornam o edifício. Passo por uma fonte banhada em luz verde-água, depois pelos arbustos podados que escondem no interior uma árvore e um banco de jardim, ambos envoltos na neblina audivelmente vaporizada por uma máquina e iluminada por um projector. Mais à frente, outra árvore está rodeada por uma cerca alta feita de espelhos, percorrida por luzes, que poderia facilmente passar por uma nave espacial. Lá dentro os espelhos replicam o tronco robusto até ao infinito, e as luzes multiplicam-se na sua lenta deslocação, cruzando-se ou chocando umas com as outras.

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Após a passagem por trás da Casa, o ambiente volta a transformar-se. Primeiro aparecem túlipas gigantes, rubras, espalhadas ao longo do caminho. Depois surge uma árvore-fantasma, de que só vemos o tronco parcialmente delineado por fios de luz azul. Até que desemboco no parterre lateral e sinto que entrei novamente num filme – talvez de ficção científica, ou talvez de terror. Da Casa iluminada, ao fundo, parecem emanar feixes de luz vermelha, rentes ao chão, como se ela estivesse prestes a erguer-se nos céus, viajando para outro planeta, ou então fosse habitada por um espírito demoníaco, lançando raios de fogo sobre os incautos que dela se aproximam.

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A realidade é bem mais prosaica. São apenas raios laser colocados junto ao solo, completamente inofensivos, que atravesso tal como os outros visitantes, convertida em simples silhueta negra ambulante, quiçá com movimentos de zombie. Já passaram duas horas desde que entrei em Serralves, o dia foi longo e o corpo ressente-se, os músculos e a coluna gritam por uma pausa para descanso. O percurso de três quilómetros está quase no fim. A alameda dos liquidâmbares, por onde é habitualmente feita a entrada no parque, leva-me agora até à saída. Também ela é atravessada por grupos de raios laser colocados nas árvores, ligando-as umas às outras. Os aspersores de neblina pulsam ruidosamente; fecho os olhos, e parece-me que são as próprias árvores a respirar. Abro-os e vejo a alameda embrulhada em azul; as luzes estão dirigidas para cima, para as copas ainda exuberantes com a folhagem que dentro de poucos meses terá desaparecido, e quase não vejo onde ponho os pés.

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Depois da The curious vortex de Olafur Eliasson (um dos autores do fantástico Harpa de Reiquiavique), que mal se adivinha, o piso é inundado pela cor vermelha, que cria sombras acastanhadas nos liquidâmbares; tal como vermelha é a cor da gigantesca Colher de Jardineiro (de Claes Oldenburg, falecido em Julho deste ano, e Coosje van Bruggen), uma das esculturas mais chamativas do Parque. A caminho do portão de saída, um último vislumbre da fachada do Museu, iluminado à maneira de um pôr-do-sol, e onde se recorta a escultura de Rui Chafes que dá nome à mostra dos seus trabalhos actualmente em exposição: Chegar sem partir.

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Serralves é um mundo onde coabitam algumas das minhas “coisas” preferidas: a natureza, a arte e a educação. Tive a sorte de visitar este mundo pela primeira vez quando o espaço tinha aberto ao público há poucos meses e a Casa ainda funcionava como museu. Ao longo dos anos o projecto cresceu e consolidou-se, e embora eu não seja visitante assídua, de cada vez que volto nunca fico desiludida. É sempre uma satisfação regressar a um local onde a cultura é tão bem tratada e descobrir, em cada vez, mais uma faceta deste mundo que consegue, por vezes, fazer-me viajar para outros mundos.

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