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Delito de Opinião

A novilíngua segundo Orwell

Paulo Sousa, 03.07.21

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Postal destinado aos que querem banir palavras e, especialmente, aos que estão, e irão, ser proibidos de as utilizar.

Na sequência do postal do Pedro Correia de ontem, e do meu que o seguiu, e para não perder o balanço passo a transcrever mais algumas passagens do já referido “1984” de George Orwell.

Excerto de uma conversa de almoço entre Winston e o seu camarada Syme, que trabalha na Décima Primeira Edição do dicionário da Novilíngua.

 

“– Estamos a dar ao idioma a sua forma final, a forma que há-de ter quando ninguém falar nenhuma outra língua. Quando chegarmos ao fim, pessoas como tu terão que aprendê-la de novo. Julgas com certeza que a nossa principal tarefa é inventar palavras novas. Mas não é nada disso! Estamos é a destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia.

(…)

– Coisa magnífica, a destruição de palavras.

(…)

– Tu não aprecias verdadeiramente a novilíngua, Winston – disse quase com tristeza. – Mesmo quando nelas escreves continuas a pensar em velhilíngua. (…) Não compreendes a beleza da destruição das palavras. Sabias que a novilíngua é a única língua do mundo cujo vocabulário diminui ano após ano?

(…)

– Não vês que a finalidade da novilíngua é precisamente restringir o campo do pensamento? Acabaremos por fazer que o crimepensar[i] seja literalmente impossível, pois não haverá palavras para o exprimir.

(…)

– Em 2050 (provavelmente até antes) todo o conhecimento da velhilíngua terá desaparecido. Chauser, Shakespeare, Milton, Byron só existirão em versões da novilíngua, não simplesmente transformados numa coisa diversa, mas no contrário daquilo que eram. Até a literatura do Partido mudará. Mesmo as palavras-de-ordem mudarão. Poderá substituir um slogan “liberdade é escravidão” quando o próprio conceito de liberdade tiver sido abolido? Toda a atmosfera mental será diferente. No fundo, não haverá pensamento, tal como hoje o entendemos. A ortodoxia significa a ausência de pensamento: a ausência de necessidade de pensar. A ortodoxia é inconsciência.”

 

[i] Pensamentos punidos pela Polícia do Pensamento

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