A nova desordem mundial
Com Putin e Trump, regressa a política de canhoneira

Vladimir Putin abriu a caixa de Pandora há quatro anos, com a invasão em massa da Ucrânia. Tudo quanto se seguiu é consequência dessa agressão - o maior conflito bélico em território europeu desde a II Guerra Mundial.
A ordem internacional vigente desde 1945 foi pulverizada. António Guterres arrasta-se penosamente no comando simbólico da ONU, que na prática deixou de existir: a sua patética mensagem de «calorosas felicitações» aos aiatolas pelo 47.º aniversário da "revolução islâmica" - no preciso momento em que ali se instalava nova onda de terror - foi um sinal evidente de que a decadência da organização é já irreversível.
Nessa mensagem, difundida há 16 dias, Guterres insultou a memória de dezenas de milhares de cidadãos torturados e mortos pelos torquemadas de Teerão. Dificilmente algum opositor à ditadura teocrática poderá perdoar-lhe o gesto leviano.
O déspota do Kremlin sofre hoje os danos colaterais da "operação militar especial" que desencadeou naquela trágica madrugada de 24 de Fevereiro de 2022, crente de que ressuscitaria a glória imperial dos czares defuntos. Os seus maiores aliados têm caído um a um, como pedras de dominó: primeiro a Síria, depois a Venezuela, agora vai tombando o Irão, maior fornecedor de drones mortíferos a Moscovo para chacinas na Ucrânia.
Que esta onda de sucessivos desaires geopolíticos da Federação Russa aconteça quando está ao leme dos EUA o homem que lhe dispensou acolhimento régio na vergonhosa cimeira de Anchorage é uma daquelas ironias em que a História é fértil.

Donald Trump, que ansiava pelo Nobel da Paz, mete os Estados Unidos em nova aventura bélica. Com ele ao leme em Mar-a-Lago, desde Janeiro de 2025, o mundo foi-se tornando sempre mais perigoso, mês após mês. As promessas que fez aos eleitores de que Washington deixaria de ser "polícia do mundo" eram apenas tretas para caçar votos, como se tem visto. Outra ironia: é curioso ver um presidente "republicano" patrocinar o eventual regresso da monarquia ao Irão
A nova desordem internacional nasce assim, envolta em sucessivos actos de canhoneira. Só falta agora o regime comunista de Pequim - com vontade de também premir o gatilho - tentar engolir Taiwan.
Na prática, a III Guerra Mundial já está em marcha.

