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Delito de Opinião

A natureza fora das marquises

Paulo Sousa, 11.06.21

Um pouco por todo o mundo rural e longe da bolha urbana, os ataques de cães errantes em matilha são cada vez mais frequentes.

O aumento dos incidentes foi há dias notícia no quinzenário do meu município, O Portomosense. A foto que ilustra a notícia pode incomodar pessoas mais sensíveis.

A notícia retrata um desses episódios, dentro de uma sequência de vários. Para quem queira evitar a foto acima referida, passo a transcrever.

“O rebanho de Cesaltina Jorge foi atacado na noite de 7 para 8 de maio. Muito perto de sua casa, em Penedos Belos, seis ovelhas foram mordidas e sofreram ferimentos graves, sendo que três delas poderão ter mesmo a sua vida ameaçada, segundo nos explicou a proprietária: «Tenho três que, coitadinhas, não sei o que vai ser delas, andam a levar injeções… Andam aos pulos, não conseguem andar sobre as mãos da frente. Na parte de baixo da mão, estavam a deitar pus. Curo-as todos os dias antes de ir trabalhar», conta.

Cesaltina Jorge lembra que, naquela manhã de sábado, se levantou por volta das 7h30 e viu sangue na estrada. No entanto, não deu logo importância, «pensava que tinham atropelado algum cão». No entanto, quando depois voltou a prestar atenção, reparou que «o sangue era muito» e deu conta que «o portão das ovelhas» estava no chão. Quando chegou perto dos seus animais, percebeu que lhe faltava meia dúzia, que foi encontrar, espantados, em vários locais diferentes. A sua primeira reação foi ir ver os cães da vizinhança para procurar algum que tivesse sangue, mas em nenhum encontrou. Por isso, afirma que não faz ideia que cães atacaram o seu rebanho. «A minha vizinha diz que ouviu cães pequenos a ladrar durante a noite, eram cinco e tal da manhã. Como eu tinha tomado um comprimido para dormir, não ouvi nada», relata. Na mesma noite, segundo conta a O Portomosense, numa casa perto da sua, outro rebanho foi também atacado, registando-se igualmente seis ovelhas mordidas.

«Sou castigada quase todos os anos», refere Cesaltina Jorge, indicando que estes ataques são frequentes: «Já é a terceira ou quarta vez, no ano passado não aconteceu…», indica. O prejuízo, esse, é grande e acompanhado de tristeza: «Uma pessoa faz pelas coisas… Estava para matar três no final do mês e já não posso. Agora não podem ser mortas por andarem a levar injeções. E aquelas três estão muito mal, abro-lhes o portão e vêm de rastos, comem deitadas, é triste…», conclui.”

Ontem de manhã soube de outro ataque que ocorreu aqui perto de mim. As imagens são também violentas. As ovelhas de um vizinho, já com queixas anteriores, foram atacadas. Nesta última frase poderia acrescentar um advérbio, e ficaria assim: “As ovelhas de um vizinho (…), foram selvaticamente atacadas”. Dessa forma estaria a incorrer no pensamento dos animalistas, para os quais, tal como nos desenhos animados, existem os bons e os maus. E nós, que somos naturalmente bons, defendemos os nossos e abominamos os maus. Essa é a lógica maniqueísta de quem vive dentro da bolha urbana e que da natureza conhece apenas o que viu através dos écrans e ouviu em dolby surround.

Com os canis municipais cheios, os cães errantes são cada vez mais. Agrupam-se por instinto gregário e à solta na natureza tentam sobreviver. Por isso, para saciar a fome, reúnem-se em matilha e assim conseguem melhores resultados. Multiplicam-se ao ritmo da natureza e não há forma legal de os travar. Não atacam selvaticamente os rebanhos, pois simplesmente tentam sobreviver. É a lei do mais forte, e essa o PAN nunca poderá abolir.

Há dias num passeio pelas Aldeias de Xisto da Serra da Lousã passei pela Aigra Velha. Segundo os relatos dos seus últimos habitantes, a aldeia tinha um sistema de defesa contra lobos. À noite, a única rua da aldeia era entaipada e existiam ligações internas entre as casas de forma a se poder circular em segurança. Este mundo, em que o humano tenta sobreviver na natureza, onde luta de igual para igual com os animais, já não existe. Apesar disso, na moção Y apresentada no recente congresso do PAN, proclamam que "Interagir com outros animais permite-nos reconectarmo-nos com a natureza e pacificarmo-nos com a nossa condição animal". Certamente que estes autoproclamados defensores dos animais imaginam esta pacificação à escala das suas marquises e varandas. É nessa linha que decidiram tornar veganos os animais de companhia. É claramente mais um avanço numa linha utópica totalitarista. Assistimos assim à criação do “animal novo”, coisa feitas pelos iluminados, e tal como os soviéticos, não precisam de saber das necessidades ou preferências dos visados. A moral de marquise dos animalistas irá moldar as leis da própria natureza.

E é assim que estamos.

No dia em que alguém seja violentamente atacado, ou morra, na sequência de um ataque de cães errantes, estaremos mais perto da pacificação que defendem.

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