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A morte é para se ver

por Teresa Ribeiro, em 08.12.14

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Em todos os funerais e velórios em que estive presente, nunca vi uma criança, facto que registei sem surpresa. Eu própria fui poupada a esses rituais durante toda a minha infância e até às notícias sobre o falecimento de pessoas a que me uniam laços de sangue. O assunto da morte era tabu, muito mais que o sexo, pois se o sexo embaraçava, a morte pertencia a outro patamar, inominável.

Não sei o que aconteceu com as pessoas a quem foi escondida a morte durante a infância. Este proteccionismo em mim resultou numa relação complicada com a senhora da foice. Primeiro virei-lhe as costas, recusando-me durante a adolescência a pôr os pés num cemitério ou numa casa mortuária. Depois, já adulta, quando a passagem do tempo começou a deixar marcas indisfarçáveis nas pessoas que mais amava, decidi que era tempo de me preparar para uma doença que sabia ser incurável e que um dia, se não morresse primeiro, me iria matar de desgosto, uma e outra vez, com a cadência dos grandes ritos.

À medida que fui perdendo as pessoas de que sou feita, percebi que esta relação complicada que na nossa cultura temos com os velhos é consequência directa da deficiente assimilação do fenómeno da morte nas nossas vidas. Apartar as crianças dos rituais fúnebres é ensiná-las a erguer uma barreira entre o mundo delas e o mundo em que se morre. O desespero que a velhice nos inspira - a nossa e a dos que amamos -  tem a ver com a desconstrução desse modelo de conforto em que nos instalaram em pequenos e de onde, por mais maduros que nos achemos, não queremos sair.


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