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A morte é para se ver

por Teresa Ribeiro, em 08.12.14

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Em todos os funerais e velórios em que estive presente, nunca vi uma criança, facto que registei sem surpresa. Eu própria fui poupada a esses rituais durante toda a minha infância e até às notícias sobre o falecimento de pessoas a que me uniam laços de sangue. O assunto da morte era tabu, muito mais que o sexo, pois se o sexo embaraçava, a morte pertencia a outro patamar, inominável.

Não sei o que aconteceu com as pessoas a quem foi escondida a morte durante a infância. Este proteccionismo em mim resultou numa relação complicada com a senhora da foice. Primeiro virei-lhe as costas, recusando-me durante a adolescência a pôr os pés num cemitério ou numa casa mortuária. Depois, já adulta, quando a passagem do tempo começou a deixar marcas indisfarçáveis nas pessoas que mais amava, decidi que era tempo de me preparar para uma doença que sabia ser incurável e que um dia, se não morresse primeiro, me iria matar de desgosto, uma e outra vez, com a cadência dos grandes ritos.

À medida que fui perdendo as pessoas de que sou feita, percebi que esta relação complicada que na nossa cultura temos com os velhos é consequência directa da deficiente assimilação do fenómeno da morte nas nossas vidas. Apartar as crianças dos rituais fúnebres é ensiná-las a erguer uma barreira entre o mundo delas e o mundo em que se morre. O desespero que a velhice nos inspira - a nossa e a dos que amamos -  tem a ver com a desconstrução desse modelo de conforto em que nos instalaram em pequenos e de onde, por mais maduros que nos achemos, não queremos sair.

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30 comentários

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De Mário Pereira a 08.12.2014 às 15:56

Inteiramente de acordo. Para evitar isso é que as minhas filhas foram habituadas a ir a funerais desde sempre. Claro que muitas pessoas nos criticavam por isso, incluindo aquelas que para lá iam contar anedotas...
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:09

Fez bem, Mário. Passamos a vida a dizer que "a morte faz parte da vida", mas na hora da verdade escondemo-la e escondemo-nos dela.
As anedotas começaram por me chocar, depois acabei por percebe-las. São, na maioria dos casos, um escape. O humor e a tragédia, como se sabe, acompanham-se desde sempre.
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De Jose F. a 08.12.2014 às 16:28

Prezada Teresa Ribeiro,
Gostei do seu post e acho que tem toda a razao. A morte - ou pelo menos a forma como nos a vimos - e essencialmente um problema cultural/social de sociedades como a portuguesa. Efectivamente os nossos cemiterios sao contruidos quase sempre afastados das zonas urbanas, fechados a 7 chaves e com historias de terror pelo meio. Muito raramento velamos os nossos em casa, preferindo as sempre frias casas mortuarias. E para cumulo ja nem conseguimos suportar o silencio de um minuto quando queremos homenagear um defunto.
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De Luís Lavoura a 09.12.2014 às 11:05

Muito raramento velamos os nossos em casa

Na aldeia de onde o meu pai era originário essa era a tradição: velar o morto em sua casa. E eu ainda me recordo de, não há muito tempo, ter lá ido a um velório assim, no qual o cadáver de um primo do meu pai estava a ser velado na sala de estar da sua casa. Não foi há muitos anos.
Há que ver que, nas aldeias de antanho, pura e simplesmente não havia capelas mortuárias.
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:24

Nos países católicos infelizmente é assim. Cultiva-se esse temor, para induzir nos fiéis um comportamento exemplar durante a sua vida na Terra. Para os bem comportados a passagem será doce, para os que vivem em pecado na melhor das hipóteses seguem direitinhos para o purgatório...
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:37

A resposta saiu fora do sítio, sei lá porquê. Era para o Jose F.
A si Lavoura coube-lhe uma experiência que está fora de causa em ambiente citadino. Creio que so mesmo nalgumas aldeias perdidas é que se velam parentes em casa.
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De Manuel a 08.12.2014 às 17:31

Creio que a nossa consciencia é ainda muito pequena para lidar com a morte - negamo-la a todo o instante, durante toda a vida. Por issso lutamos para não a encarrar, lutamos para viver e para tal, se for necessário, até matamos (salvo seja). Como seres vivos, sentimo-nos especiais, tão especiais que nos queremos imortais.
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:26

Daí o envelhecimento ser um embaraço e os velhos seram tratados cada vez mais como párias da sociedade.
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De Vento a 08.12.2014 às 18:03

Muito bem, Teresa.

Olhe, tome lá:

https://www.youtube.com/watch?v=w8EXDtoGfrs

Esta rapariga do riverdance vi-a ao vivo. É uma corça. Dá cá uns pulinhos!
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De lucklucky a 08.12.2014 às 18:29

É preciso construir algo senão só vamos perdendo.

https://www.youtube.com/watch?v=1BRqA3DSmpc
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:39

Não ouvia esta canção há muitos anos. Sempre bonita e com texto apropriado à nossa reflexão. Obrigada, Lucky
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De Fatima MP a 08.12.2014 às 19:40

Post muito oportuno e com o qual estou totalmente de acordo. Apesar de também eu proceder do mesmo jeito e poupar as minhas crianças, e as já não tão crianças assim, protegendo-as do contacto directo com esse momento de corte brutal com a vida o qual é, sim, algo muito triste e irremediável. E, apesar de toda a argumentação de que deveríamos ser preparados para a morte, a verdade é que, eu acho, nunca estaremos preparados, não enquanto mantivermos a capacidade de nos empolgarmos com a vida. É, então, uma defesa, mas também sabemos que nunca estaremos defendidos. Na verdade, não tenho certezas ... mas é um bom tema de reflexão.
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:43

Fátima, também protegi os meus filhos quando eram mais pequenos. É difícil resistir à tentação. Mas quando comecei a sofrer as perdas mais pesadas percebi que a dor é mais brutal quando não somos preparados para as inevitáveis perdas.
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De Maria Dulce Fernandes a 08.12.2014 às 20:44

o pior pesadelo de um pai é sem dúvida perder um filho. Creio que o tábu, a não envolvência das crianças no ritual da passagem, a impreparação para explicar o fim sem empolgar medos e inseguranças, se deve ao facto do receio que todos os pais têm em associar os filhos com a inevitabilidade do caminho que todos percorremos .
Reconheço a dificuldade que tive em fazer entender ás minhas filhas, quando do passamento inesperado e fulminante de meu pai, que a morte, aquele conceito assustador mas vago, é a única certeza que temos Desde que nascemos e que o avô nâo iria voltar para o nosso convívio. Foi uma desesperante tortura ter que encontrar respostas que desconheço, mas que naquele momento ajudaram a que nos encontrássemos todos no mesmo abraço de lágrimas.
Passados 20 anos, noto que cada vez mais se banaliza a morte, que continua aquele conceito assustador, mas cada vez mais vago e sobreposto pela ideia da indestrutibilidade que nos é oferecida pela (ir)realidade das consolas.
Mas há iniciativas louváveis , como esta,
http://www.cm-lisboa.pt/visitar/lazer-entretenimento/visitas-guiadas/visitas-ao-cemiterio-dos-prazeres

Chocante, a princípio, foi reconhecida como pedagogicamente bem estruturada e interessante. Cada pedra tumular, cada jazigo conta uma história de vida e de morte, o Aleph e o Tav, o princípio e o fim.

Excelente leitura, Teresa.
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:45

Obrigada pela partilha, Maria Dulce.
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De Rui Rocha a 08.12.2014 às 21:05

Também já estive nessa encruzilhada, Teresa. Decidi que os meus filhos não fossem. Creio que teria sido melhor que tivessem ido.
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:47

Pois, fiz o mesmo. Mas depois não faltam oportunidades para emendarmos a mão. Fatal como o destino.
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De Carla Ferreira a 08.12.2014 às 21:56

O assunto é delicado porque acarta sofrimento. A mudança de mentalidades é difícil, parte dos adultos e eles não estão preparados... Confrontar uma criança com a morte implica vê-la ter consciência da perda e estar ao lado dela, mesmo quando não nos sentimos capazes de estar. Protegemos a criança, e protegemos o nosso eu, ao mesmo tempo... Sou a favor de que sejam envolvidas no processo, mas com cautela, muita cautela, jamais num funeral com desespero associado. Num momento mais intimo, mais pessoal, devidamente protegido, dentro do possível...
Este é um assunto que merece ser pensado, de facto...
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:51

Claro, Carla. Devemos introduzir o fenómeno da morte às crianças com pinças, mas nunca elidi-lo, como é nossa tentação.
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De Helena Sacadura Cabral a 08.12.2014 às 23:53

Teresa que belo texto tu escreveste. Perder aqueles de que somos feitos dói, mas é a lei natural das coisas. Já perder quem fizemos é contranatura.
Ensinar a conviver com a morte deveria ser tão importante como ensinar qualquer outra matéria que respeite à vida.
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De Teresa Ribeiro a 09.12.2014 às 13:49

É isso mesmo, Helena. Esta cultura pateta que nos infantiliza e fragiliza não nos ajuda em nada do que é essencial.

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