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Delito de Opinião

A metamorfose do PS e o enviado de Costa à TVI

Pedro Correia, 11.11.21

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O fascínio da televisão, na vertente informativa, é permitir-nos assistir à História em directo. História com agá maiúsculo, sem intermediários nem explicadores. É o que vem sucedendo na vertiginosa sucessão de acontecimentos desenrolada desde a derrota em Lisboa de Fernando Medina, delfim de António Costa.

Cada processo eleitoral tem o seu contexto e os seus protagonistas. Haverá ocasião para digerir este, iniciado com as autárquicas e que só culminará quando forem apurados os votos das legislativas antecipadas. Estamos no momento de experimentar emoções fortes, não de filosofar.

Na semana passada, no debate parlamentar que ditou o chumbo do primeiro Orçamento do Estado da democracia portuguesa, assistimos em tempo real à viragem de Costa. No discurso de encerramento, o primeiro-ministro deixou-se de salamaleques à esquerda e iniciou a campanha eleitoral. Com palavras duras para os antigos companheiros de estrada, de quem ali se despedia. Enquanto pedia aos portugueses «maioria reforçada e estável» na próxima legislatura.

É um PS já deslocado do seu eixo mais recente. Um PS com maquilhagem centrista a carpir mágoas contra a esquerda radical, que deseja ver punida pelos eleitores.

Costa pode ter muitos defeitos, mas nunca brinca em serviço quando se trata de política pura e dura. Pouco depois do chumbo, já o seu enviado especial, Augusto Santos Silva, debitava em sinal aberto, no Jornal das 8 da TVI, os traços essenciais da cartilha recauchutada.

«Foram os partidos à esquerda do PS que deram esta vitória política à direita. Nós tínhamos um grande trunfo: a nossa estabilidade. Esse trunfo, perdêmo-lo hoje. Convém recuperá-lo o mais depressa possível.» Tudo dito em poucas frases pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Que usou sem pudor a expressão “maioria absoluta”. É por ela que o PS vai lutar. Podendo, no limite, vir a formar governo com o PAN – outra novidade ali introduzida.

Minutos depois, na TVI24, Ana Catarina Mendes completava a narrativa, já totalmente adaptada às circunstâncias. Adeus frente de esquerda, adeus comunistas e bloquistas no “arco da governação»: eis a metamorfose socialista em todo o esplendor. «O PS é um partido social-democrata, de centro-esquerda, não é um partido da esquerda radical», declarou a líder parlamentar do PS enquanto alegada comentadora política.

No dia seguinte, novo marco da campanha em curso: Costa, na cimeira peninsular de Trujillo, recebia elogios do homólogo espanhol. Pedro Sánchez apontando-o como farol da estabilidade não apenas a nível interno mas à escala europeia.

Numa semana tão fértil em acontecimentos, com a História a escrever-se em directo, houve ainda lugar ao irrelevante e ao anedótico: as televisões seguindo em frenesim tablóide o Presidente da República até um terminal multibanco junto ao Palácio de Belém. Só faltou filmarem o código da conta para todo o país saber. Razão tinha o outro: quando o sábio aponta a Lua, o tonto olha para o dedo.

 

Texto publicado no semanário Novo

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