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À mercê da ira de um deus menor

por Pedro Correia, em 14.04.16

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Durante anos, o cargo de director de jornal funcionava como patamar supremo da profissão, a que apenas uns poucos acediam. Mas funcionava também como um patamar de estabilidade: um director tornava-se o rosto da publicação que liderava, dava-lhe o cunho da sua personalidade, imprimia-lhe o seu estilo. Desde logo porque tinha tempo e espaço para isso.

Sei bem do que falo. Trabalhei com excelentes directores, de quem guardo gratas memórias – grandes profissionais, como o Vicente Jorge Silva, o Joaquim Vieira ou o Mário Bettencourt Resendes, só para mencionar três exemplos.

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, "os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente".

 

Escrevo estas linhas a propósito da saída de Helena Garrido da direcção do Jornal de Negócios. Como é costume nos meios informativos actuais, em que se esconde muito mais do que se revela, quase nada se divulgou sobre as causas desta inesperada substituição, para mim injustificável. Há um comunicado lacónico em que se dá nota da mudança, anuncia-se o nome do sucessor e a orquestra continua a tocar. Como se a curiosidade jornalística embatesse nesse poderoso tabu que é o escrutínio do próprio jornalismo.

Conheço a Helena Garrido, trabalhei com ela no Diário de Notícias e enquanto leitor atento faço uma avaliação muito positiva do seu mandato como directora do Negócios. Despediu-se com um “Até sempre”, num texto sucinto e digno. É uma partida que lamento.

 

Ela dirigia o Negócios desde Novembro de 2013: manteve-se durante dois anos e quatro meses. Pode não parecer, mas aguentou acima da média actual nos cargos directivos dos media portugueses. Dos 22 directores dos órgãos de informação de carácter nacional (televisão, rádio, jornais e agência noticiosa), só cinco ocupam essas funções há mais de três anos. E metade iniciou-as desde Março de 2015, o que diz muito sobre a instabilidade do cargo. Apenas um ultrapassou a década como director: Vítor Serpa, que lidera A Bola desde 1992. Algo impensável em qualquer outro jornal.

Embora a grande distância deste caso único, é já considerável a longevidade no exercício do cargo de Octávio Ribeiro (que dirige o Correio da Manhã desde Março de 2007), Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009) e Bárbara Reis (que iniciou as actuais funções no Público em Novembro de 2009). Depois vieram José Manuel Ribeiro (director do diário O Jogo desde Maio de 2011) e Rui Hortelão (à frente da revista Sábado desde Novembro de 2013).

 

Os restantes 16 títulos jornalísticos (72,7% do total) têm directores há menos de dois anos.

Vou mencioná-los por ordem cronológica de entrada em cena: André Macedo (Diário de Notícias, Setembro de 2014); António Magalhães (Record, Setembro de 2014); Afonso Camões (Jornal de Notícias, Outubro de 2014); Sérgio Figueiredo (TVI, Janeiro de 2015); Paulo Dentinho (RTP, Março de 2015); João Paulo Baltazar (Antena 1, Março de 2015); João Garcia (Visão, Junho de 2015); Pedro Camacho (Lusa, Outubro de 2015); Mário Ramires (Sol e i, Dezembro de 2015); Miguel Pinheiro (Observador, Fevereiro de 2016); David Dinis (TSF, Março de 2016); Pedro Santos Guerreiro (Expresso, Março de 2016); Ricardo Costa (SIC, Março de 2016); e Raul Vaz prepara-se para ficar à frente do Negócios. Transitando do Diário Económico, que dirigia desde Abril de 2015. Entretanto o Económico, agora só na versão digital, passou a ter direcção conjunta de Filipe Alves e Mónica Silvares. Por tempo incerto.

Vários deles, imitando Sísifo, empurram a pedra montanha acima - esforço inglório de heróis precários à mercê da ira de um deus menor.

 

Leitura complementar: Homens e mulheres para queimar


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