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A memória é uma vasta ferida

por Pedro Correia, em 24.07.16

 

"Escucho con mis ojos a los muertos

Y vivo en conversación con los difuntos."

Quevedo

 

O Chico cantautor, sem dimensão de prosador, sem estatura para abraçar a chamada ‘grande literatura’, é um lugar-comum que se vai desfazendo de livro para livro. Que começou a desfazer-se logo na obra literária em que se estreou como romancista – Estorvo (1990). Francisco Buarque de Holanda, o Chico que nos seduziu com tantas canções inesquecíveis desde os anos 60, é hoje um escritor de primeiro plano no Brasil. E é mais que isso: tornou-se um dos autores imprescindíveis da literatura contemporânea de expressão portuguesa. As suas qualidades literárias, patentes em títulos como Benjamim (1995) e Budapeste (2003), são ainda mais evidentes no seu quarto romance: Leite Derramado. Uma obra em que Chico Buarque utiliza toda a requintada técnica de escrita que desenvolveu em décadas de autor de canções, aperfeiçoando-a ao máximo. Cada parágrafo, cada frase, cada jogo de palavras têm uma musicalidade perfeita. O autor de Ópera do Malandro domina o idioma como poucos: com ele, a língua portuguesa atinge uma plasticidade única.

 

Leite Derramado fala-nos do drama de uma sociedade de gente surda, em que ninguém tem tempo ou paciência para escutar a voz de um velho cheio de histórias para contar. Esse velho, já centenário, chama-se Eulálio Montenegro d’ Assumpção e cultiva memórias de um Rio de Janeiro que há muito deixou de existir. Descendente de portugueses, é um vulto da aristocracia carioca de outros tempos cuja biografia só confirma uma frase que costumava ouvir em criança na defunta mansão familiar de Copacabana: “Pai rico, filho nobre, neto pobre.”
É um livro de sombras – contrastando com o proverbial sol do Rio – que nos aponta uma verdade essencial: “A memória é uma vasta ferida.” Um livro sulcado por uma magoada nostalgia ao sabor dos contínuos saltos cronológicos da personagem principal – afinal, num certo sentido, personagem única mergulhada em prolongado monólogo que tem o leitor da obra como interlocutor exclusivo. “Se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida.”
 
É um livro que nos transporta ao Rio de Machado de Assis, com quem Chico Buarque estabelece um curioso diálogo literário, como sublinhou o crítico brasileiro Heitor Ferraz: tal como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, também aqui "aparentemente não acontece nada" nem "nenhuma narrativa se estabelece como determinante". Chico Buarque encadeia as frases como se fossem um fluxo contínuo de pensamentos desordenados. Mas resistindo sempre às armadilhas da literatice e dos efeitos retóricos: raros romancistas têm um ouvido para a escrita como o autor de Leite Derramado. A voz do velho Eulálio, com uma patine secular, é totalmente credível na sua elegância ultrapassada, com um requinte antigo e fora de moda: já ninguém fala hoje assim num Brasil obcecado pela ‘modernidade’.
“Muitos se detêm para escutar minhas palavras, mesmo que não alcancem seu sentido, mesmo quando o enfisema me sufoca e mais arquejo que falo”, confessa o velho Eulálio, retido numa cama de hospital – o seu último paradeiro. Com ele, morrerá o último vestígio de uma época em que um conjunto de homens de cartola não podia ser confundido com um congresso de mágicos. Mas, paradoxalmente, Eulálio está afinal condenado a sobreviver. Como uma das melhores personagens da moderna literatura da língua portuguesa.
 
............................................................... 
Leite Derramado, de Chico Buarque (Dom Quixote, 2009). 223 páginas.
Classificação: *****

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6 comentários

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De Anónimo a 24.07.2016 às 21:00

O Chico Buarque é uma daquelas raras pessoas que tudo o que fazem fazem bem e cada vez melhor.
Foi assim na música e é assim na literatura.
Li todos os livros que o Pedro refere, e desses quatro o meu favorito também é o Leite Derramado.
Agora entre o Leite Derramado e 'O Irmão Alemão', que adorei mesmo ler, o meu coração balança. Embora sejam livros completamente distintos, achei a história fascinante (baseada num facto real) e também lhe daria cinco estrelas.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 24.07.2016 às 22:51

'O Irmão Alemão' ainda não li, Antonieta. Está na minha lista de livros a ler a curto prazo.
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De M. S. a 24.07.2016 às 22:34

Caro Pedro:
Praticamente deixei de comentar na blogosfera.
Alguns dos seus posts serão a excepção que confirma a regra.
Gostei muito da frase: «A memória é uma vasta ferida».
E que não queremos curar, direi eu, pois assim olhamos permanentemente para o passado que lhe deu origem: a nossa vida vivida.
Outra escritora de valia, curiosamente oriunda de outra actividade fora da literatura, o jornalismo, de seu nome Rosa Montero, tem outra frase que muito me diz também: «A memória é uma história que contamos a nós mesmos».
Ambas verdadeiras, ambas geniais.
(Manuel Silva)
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De Pedro Correia a 24.07.2016 às 22:53

Excelente frase também, a de Rosa Montero, meu caro. Outro nome grande da literatura contemporânea. Gosto muito dela.
É como diz: "Não queremos curar, pois assim olhamos permanentemente para o passado que lhe deu origem: a nossa vida vivida."
Agradeço-lhe muito as suas palavras. E espero que não deixe de comentar aqui.
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De Ana Vidal a 24.07.2016 às 22:39

Gostei imenso de Leite Derramado e de Budapeste, os dois livros que li dele. Concordo contigo, é um óptimo escritor injustiçado pelo estigma de ser também letrista. Aconteceu o mesmo com Jacques Brel, por exemplo, um poeta maravilhoso e nunca verdadeiramente reconhecido como tal. Preconceitos.
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De Pedro Correia a 24.07.2016 às 22:49

Passam os tempos mas os preconceitos dessa ordem mantêm-se, Ana. O que não invalida - como faço questão de acentuar - que Chico Buarque, além de grande compositor de canções, seja também um excelente novelista/romancista.

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