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Delito de Opinião

A marcha da desinformação na TV

Pedro Correia, 27.06.16

Ontem à noite todos os telediários portugueses - mesmo com correspondentes e enviados a Madrid - caíram na esparrela das sondagens, que em Espanha falham por sistema. Confundindo projecções com números reais, sem um sobressalto de dúvida, foram desinformando os portugueses sobre o resultado da eleição para o novo Parlamento espanhol.

Foi preciso que um par de comentadores, sem carteira de jornalista, repusesse a verdade dos factos. O que, reconheçamos, não abona nada a favor dos profissionais da informação.

Eis o filme dos acontecimentos:

 

RTP, 19.02: «Deu-se o sorpasso, essa expressão italiana que dominou esta campanha. Esta coligação de Pablo Iglesias, unido aos comunistas, consegue ultrapassar o Partido Socialista.»

RTP, 19.03: «O PP de Mariano Rajoy desce pelo menos dois lugares no Congresso em termos de deputados. Este é um terramoto político. É um abalo sem precedentes em Espanha.»

TVI, 19.57: «A principal mudança no sufrágio de hoje foi a passagem do Podemos para segundo lugar, ultrapassando o PSOE.»

SIC, 19.59: «O Unidos Podemos acaba por ser o grande vencedor da noite e é nesta coligação que pode estar a chave para o futuro governo espanhol.»

TVI, 21.02: «O Podemos deve ultrapassar o PSOE como segunda força política. Em termos de deputados, há a possibilidade de uma maioria de esquerda.»

SIC, 21.13: «A grande surpresa aqui é o segundo lugar do Unidos Podemos.»

 

Este, repito, foi o discurso jornalístico. Que se prolongou por mais de duas horas nas pantalhas lusas.

Felizmente havia comentadores - um em estúdio, outro em Madrid - a recomendar moderação, mais atentos aos factos do que à espuma.

O primeiro foi Paulo Portas, recém-contratado como comentador de temas internacionais da TVI. Eram 21.03 quando ele alertou, falando em directo da capital espanhola: «O resultado dos votos contados aponta para um sentido completamente diferente das sondagens.»

Dez minutos mais tarde, na SIC, Luís Marques Mendes também deitava água na fervura: «Aquilo que foram as sondagens à boca das urnas não está a confirmar-se na contagem dos votos.»

Tinham ambos razão. Os jornalistas é que andavam distraídos: foram os últimos a saber.

2 comentários

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    J. M. 28.06.2016

    Para mim, viver em Democracia é respeitar o voto dos eleitores nas "proporções" que são atribuídos, até porque se trata de uma Democracia Representativa.
    Logo, por esse mesmo motivo, não entendo porque se negam governos minoritários, quando o Parlamento deverá trabalhar em consenso, respeitando o mandato dado pelos eleitores, na proporção que lhes é dada. coligações pré-eleitorais são uma coisa, coligações ou consensos pós-eleitorais são uma interpretação livre dos partidos sobre uma suposta intenção dos eleitores.
    E, sendo um utópico, um sonhador sem remédio e um crente na qualidade da Humanidade, não entendo porque é que os eleitores saem prejudicados em caso de governo minoritário, se a ideia é a representatividade.
    Por outro lado, entendo porque é que os partidos saem prejudicados. Daí acreditar que a teoria do "apenas ser possível governar em maioria" ser uma invenção da classe política. E se calhar - só se calhar - é por isso que os (políticos-)comentadores se espumam (de um lado ou do outro).
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