Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A manifestação das Forças de Segurança

por Diogo Noivo, em 21.11.19

imagemPublico.jpg

 

Por dever de um ofício passado, dialoguei e negociei diariamente com os sindicatos da PSP e com as associações profissionais da GNR ao longo de quase três anos. Terminadas essas funções, o respeito que tinha pelas Forças de Segurança transformou-se em profunda admiração.

Sei que muitas das reivindicações que estão na base da manifestação de hoje são inteiramente justificadas. Falta de material e de equipamento, postos e esquadras em condições deploráveis, e insuficiência de efectivo em algumas zonas do país são queixas com basto fundamento. Sei também que nenhum governo português terá capacidade financeira para colmatar os problemas existentes, uma dificuldade muito agravada pela calamitosa gestão do actual Executivo na área da Administração Interna.

Dito isto, há quatro aspectos que têm sido convenientemente esquecidos pelas estruturas sindicais e que, salvo raríssimas excepções, a comunicação social não percebe (honra seja feita ao Diário de Notícias, que por sistema aborda os temas relacionados com as Forças de Segurança com a atenção e profundidade devidas).

 

1. Carreiras e remunerações. Ao longo de décadas, os sucessivos governos – de esquerda e de direita – foram incapazes de aumentar os salários na PSP e na GNR de forma estruturada porque isso implicaria redesenhar por completo a organização de carreiras e de categorias profissionais, uma caixa de pandora que ninguém quer abrir. Em compensação, criaram-se subsídios e foi-se aumentando o seu valor – subsídio de patrulha, subsídio de operações especiais, subsídio de binómio cinotécnico, subsídio de fardamento, etc. Em resultado, entre 20% e 50% da remuneração mensal de um elemento das Forças de Segurança depende de subsídios, que são variáveis, o que faz com que uma parte importante dos polícias e dos militares da GNR não saibam ao certo quanto ganham por mês. Em síntese, em vez se de pensar as remunerações de maneira racional e sustentável, optou-se por ir colocando remendos. A alteração deste estado de coisas é onerosa, mexe com interesses corporativos e, por isso, conta com a firme oposição de sindicatos e associações profissionais. Porém, se nenhum governo tiver a coragem de mexer neste aspecto, o problema continuará a agravar-se.

 

2. O valor político dos subsídios. Na época em que trabalhei no MAI, e apesar do programa de assistência financeira ao qual Portugal se encontrava sujeito, foi possível aumentar o subsídio de fardamento em 100%, passando de 25€ mensais para 50€. Este complemento salarial tem duas particularidades: está isento de tributação fiscal; e, não obstante se designar “de fardamento”, pode ser usado para qualquer fim, sendo por isso parte do salário. Na altura, foi proposto aos representantes sindicais a alternativa de ser o Estado a fornecer o fardamento, o que naturalmente implicaria o fim do dito subsídio. Sem surpresa, os sindicatos não aceitaram a proposta, entre outras razões porque a manutenção de subsídios lhes permite afirmar que o salário de muitos polícias ronda os 700€ (esquecendo-se de referir que este valor é o salário base) e, dessa forma, conseguir a simpatia da opinião pública para mais reivindicações.

 

3. A falta de efectivos. Há zonas do país onde faltam profissionais. Por outro lado, os poucos que estão ao serviço têm mais de 45 anos de idade. É a mais absoluta das verdades. Contudo, esquecem-se habilmente os sindicatos e as associações profissionais que parte do problema se deve à alocação de recursos humanos, em particular aos milhares de elementos da PSP e militares da GNR que se encontram em funções de apoio operacional (vulgo ‘funções administrativas’ ou 'de secretaria'). São funções cobiçadas, desde logo porque, em regra, decorrem em horário de expediente, não implicando por isso a realização de turnos penosos. Os representantes sindicais não o referem porque têm associados a desempenhar funções de apoio operacional, que obviamente desejam manter. Uma melhor alocação de recursos não resolverá a falta de pessoal – até porque há funções administrativas que só podem ser realizadas por gente da PSP e da GNR –, mas ajudaria bastante a mitigar o problema.

 

4. O aparecimento Movimento Zero. Criado há não muito tempo por profissionais da PSP e da GNR, não tem liderança nem porta-vozes. É aquilo a que agora se chama ‘movimento inorgânico’. Teme-se que nas suas fileiras haja gente de extrema-direita e indivíduos apostados em desestabilizar as Forças de Segurança.

Em Julho deste ano, membros do Movimento Zero viraram as costas ao Ministro da Administração Interna e, mais grave, ao Director Nacional da PSP numa cerimónia pública. Julgo que foi a primeira vez que tal aconteceu. Dada a natureza hierárquica das Forças de Segurança e o espírito de corpo que as caracteriza, foi um gesto muito sério. A classe política – governo e partidos da oposição – foi incapaz de perceber a seriedade do acontecimento. Salvo honrosas excepções, a comunicação social noticiou o sucedido com a mesma atenção com que informa sobre a ocorrência de um acidente rodoviário.

Não sei o que é o Movimento Zero nem quem o conduz. É o resultado da profunda insatisfação que existe nas Forças de Segurança, agravada pelo alheamento do actual governo. Mas, não menos importante, é fruto da ineficácia dos sindicatos e das associações profissionais: até há bem pouco tempo, a PSP tinha 12 sindicatos e a GNR pelo menos cinco, mas juntos não representavam metade do efectivo. Não me surpreende que tenham sido ultrapassados por um grupo sem rosto que ninguém controla. O inenarrável André Ventura e o PNR tentam apanhar boleia do Movimento, no qual suspeito que têm apoiantes. Mas aposto que o Movimento Zero não se deixará capturar por interesses partidários, com tudo de bom e de mau que daí resulta.

 

São muitos os problemas em causa, alguns complexos e antigos. Por incapacidade dos vários governos e por resistência dos sindicatos e associações profissionais, o que eram pequenas dificuldades transformou-se em desafios graves e prementes. Porque não vejo quem seja capaz de inverter a marcha, creio que a manifestação de hoje é apenas o início de algo que veio para ficar.


46 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 21.11.2019 às 16:54

E pronto...André Ventura e a camisola do Movimento Zero vestida!
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 21.11.2019 às 18:22

Cá temos as 'redes sociais' a fazerem mais uma promoção.
E tal a factura da compra de 'material de segurança' e o governo não respondeu.
Afinal quem é que vende o material (algemas, coletes à prova de bala, gás mostarda) para a PSP? É fácil de se verificar a quem foi vendido e as quantidades vendidas. Pode um guarda da PSP comprar individualmente este material sem uma autorização de superiores hierárquico?
Quer dizer, sendo da PSP pode-se comprar este 'material' quando lhe apetecer?


Sem imagem de perfil

De Anónimo a 22.11.2019 às 04:16

Pode!! Aliás qualquer um pode..menos o gás...
Se assim nao fosse lhe garanto que quase nao cia policias com algemas...
Sem imagem de perfil

De Tiro ao Alvo a 21.11.2019 às 17:02

Posso estar errado, mas, para mim, os membros das forças de segurança não deviam ter liberdade para fazerem manifestações de rua. Acho que lhes bastava o direito de reunião. Digo isto porque me parece que essas forças ficam descredibilizadas com essas manifestações: polícias a controlarem polícias, onde pode ser necessário utilizar a força, é coisa que nunca devia acontecer.
Por outro lado parece-me que as ofensas aos polícias deveriam ser consideradas faltas graves, com penas a dobrar, relativamente aos paisanos. De forma semelhante os crimes cometidos por agentes de autoridade também deveriam ser agravados, e muito.
Por fim, também penso que esses agentes deviam ter um salário base razoável para também lhes proporcionar uma pensão de reforma de valor razoável, mas somente aos 65 ou mais anos de idade, podendo nos últimos anos de serviço desempenharem apenas trabalhos de secretaria.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 22.11.2019 às 04:19

Nao se esqueça que os policias nao têm direito à greve..e dai o grande problema destes profissionais.
Um direito constitucional só para alguns...
Se nao se pudessem manifestar ai então mais valia baixarem os braços e comerem o que lhes dão.
Imagem de perfil

De Isabel Paulos a 21.11.2019 às 17:16

Este post é serviço público.
Imagem de perfil

De Diogo Noivo a 22.11.2019 às 11:09

Obrigado, Isabel.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 21.11.2019 às 18:01

Serviço público, Diogo. Como já sublinhou uma leitora.
Imagem de perfil

De Diogo Noivo a 22.11.2019 às 11:10

Como todos os 'postais' do DO, Pedro. Aqui estamos, ao serviço de quem nos lê.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 21.11.2019 às 19:15

não
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 21.11.2019 às 19:59

Serviço Publico?!
Tem pouco que ver com euros. Os euros tapam a boca por momentos mas o mal está e só vai piorar. Tem que ver com incentivos culturais. E os incentivos são a favor de violência e do crime.

lucklucky

Sem imagem de perfil

De jonhy a 21.11.2019 às 20:54

Movimento zero em todo o país precisa-se. Contra a cubanização do país e a elite corrupta que nos desgoverna .Ao mesmo tempo que o antigo primeiro corrupto e herói socialista se prepara para escapar a julgamento, os amigos de partido preparam-se para empobrecer ainda mais a classe média com aumentos de impostos e cativações pelo Ronaldo das finanças agora desaparecido. Atacar as forças de segurança em qualquer oportunidade sempre foi um must da esquerdalha. Destruir o sistema de ensino com ideologia progressista/gayzista e prender os médicos ao SNS depois de cubanizarem o SNS é a nova ideia dos iluminados. Pobre país que não tem quem consiga drenar o pântano em que os socialistas-comunistas nos afundam.
Sem imagem de perfil

De Politicamente Incorrecto a 21.11.2019 às 21:29

Subscrevo. Estamos entregues aos bichos e o povo gosta!
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 21.11.2019 às 21:54

Ó jonhy estás na onda da trumpice com gestos da lepenice. Copianço é muito feio.
Arranja lá uma novidade.
p.ex. ser proibido utilizar as forças de segurança para fins políticos.
Cuidado com o gesto do braço no ar e mão aberta com o polegar e indicador unidos fazendo um 'ó' pq pode passar um gayzista e julga que é um convite pra coiso.
É uma chatice o grupo espirito santo saúde estar a admitir médicos especializados em doenças tropicais e só aparecerem médicos cubanos. É que nem um américas (branco), filipino (sem olhos em bico), húngaro (sem ser eslavo).
Ó jonhy continua que vais longe, mas muda pra nome mais patriótico.
Sem imagem de perfil

De Makiavel a 22.11.2019 às 12:46

Eehehehehehhe, este jonhy é um bolsonarito de pacotilha.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 21.11.2019 às 21:04

ola estou do lado dos gnr e psp o meu pai e meu padrinho ambos guardas dapsp grduados ja partiram alguns anos e fico triste por todos terem de se manifestar pra terem direitos a barios anos de promessas eu estou do lado de voces fiquem bem boa noite obrigada
Sem imagem de perfil

De maria a 21.11.2019 às 21:06

ola estou do lado dos gnr e psp o meu pai e meu padrinho ambos guardas dapsp grduados ja partiram alguns anos e fico triste por todos terem de se manifestar pra terem direitos a barios anos de promessas eu estou do lado de voces fiquem bem boa noite obrigada
Sem imagem de perfil

De Politicamente Incorrecto a 21.11.2019 às 21:27

Eu vejo é polícias a guardar obras nas estradas, a guardar superfícies comerciais, a formar sindicatos para se escaparem ao trabalho, a caçar multas, a passear-se com as carrinhas blindadas em grande velocidade sem que revelem qualquer civismo e preocupação para com os automobilistas, a pavonear-se com umas fardas que parecem o robot-cop... PqP! Enfim, cada vez tenho menos respeito pelos "agentes da autoridade". Se não estão bem procurem outro trabalho e façam-se à vida, produzindo algo de útil para a sociedade.
Sem imagem de perfil

De Guarda Serôdio a 22.11.2019 às 13:21

Sinceramente, com esse discurso devia mudar o seu nickname para POLITICAMENTE CORRETO. Porque é esse discurso que está na moda.
Sabe porque é que os polícias guardam obras, e lojas?
Primeiro porque a lei exige que qualquer obra na via pública tenha de ser acompanhada por um agente controlador de trânsito. Para garantir a segurança do trabalhador e dos utentes da via e para controlar e ajudar na fluência do trânsito. Ou seja, para ajudar o condutor, como o senhor, a não ter acidentes e a não ficar preso em engarrrafamentos. Estão lá debaixo de sol intenso, ou de chuva e frio, para o senhor não se atrapalhar no trânsito e chegar a horas a casa. Estão nas lojas porque os seguranças privados não tem qualquer competência . Não podem identificar quem vai para lá roubar, ou furtar, não pode usar armas de defesa pessoal, não pode fazer revistas pessoais a quem furta objetos.
Esses polícias que estão nesses serviços oferecem-se para poderem compor um bocadinho o seu ordenado miserável. Mas estão lá por períodos de 4h, depois de fazerem o seu serviço de 8h, ou nas folgas, onde abdicam do descanso e do tempo com a família, para poderem encher o frigorífico. Ganham 34 euros por essas 4h, deduzidos impostos, pouco mais de 8 euros por hora, o senhor paga mais à sua empregada de limpeza... com todo o respeito.
Sobre a condução de carrinhas blindadas... só lhe posso garantir que se vão em marcha de urgência, não é para chegarem a tempo de ver o jogo da bola na tv. É porque é necessário, fazem pequenas irregularidades, sim, mas está previsto e fariam muito menos se o senhor, no seu carro respeitasse e facilitasse a passagem de um carro com as sirenes ligadas. Porque se vão com pressa, pode ser para chegarem rapidamente junto da sua mulher que está a ser roubada, agredida ou teve um acidente.
O senhor é daqueles que só se lembra do polícia quando precisa dele. Mas o polícia, mesmo se soubesse que escreveu isto aqui, continuaria a socorre-lo com a mesma competência, continuaria a ligar as sirenes e a cometer irregularidades no trânsito para chegar até si o mais rapidamente possível para o ajudar.
O polícia não é melhor que o senhor... mas é diferente... ainda bem.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.11.2019 às 09:43

Em cheio!!
Falam mas não conhecem a realidade!

Um pequeno reparo, a policia não tem carrinhas blindadas...tem uns quantos veiculos blindados sim mas que não saem à rua..
Mas não se preocupe...quando houver um tiroteio e toda a gente fugir..são eles, mesmo nas carrinhas que não são blindadas, que irão na direcção do tiroteio, para salvar pessoas e prender criminosos...isto por 789€...

Comentar post


Pág. 1/3



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D