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A maldição endogâmica

por Diogo Noivo, em 26.02.19

Há muitos anos, quando estudava os sistemas políticos dos países lusófonos, o docente da cadeira enquadrava os males de São Tomé e Príncipe numa moldura demográfica. Com cerca de 120 mil habitantes, dizia, a endogamia era inescapável. O problema reflectia-se na vida política, mas não só. Num tribunal, a elevada probabilidade de juiz e réu se conhecerem tanto podia jogar a favor como contra o acusado, mas nunca jogava em benefício da Justiça. A reduzida dimensão populacional era, portanto, uma maldição.

Mais tarde conheci um pequeno país, também insular, chamado Islândia. Não chega aos 350 mil habitantes. Por razões geográficas e climatéricas, o país é feito de concentrações demográficas, o que, em teoria, deveria acentuar a predisposição para os males que advêm da endogamia. Contudo, e independentemente das razões que o justificam, a realidade é outra: há lisura na condução da vida pública e cuidado com os potenciais conflitos de interesses. Quando uma linha vermelha é cruzada, os mecanismos legais e a vontade popular repõem a normalidade democrática.

O que separa estes dois Estados é a cultura política e a noção de cidadania plena. Qualquer outro argumento não passa de uma desculpa.


10 comentários

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De Rão Arques a 26.02.2019 às 12:02

Por cá até vão elegendo as redes sociais como principal, ou mesmo único bode expiatório das nossas tristes e mal disfarçadas misérias.
Poupam-se cobardemente rádios e televisões, grandes potes de veneno em caca ao serviço dos grandes e poderosos, a quem descaradamente fazem fretes sem lhes chegar o mau cheiro às ventas.
Por isso é que se arrogam o direito de tentar abater quem com defeitos e feitios lhes vai fazendo mossa, mas onde se mija tão à vontade que até se pode fazer fora do penico sem nos sacudirem o coiso, e não tendo que afocinhar de queixos na imunda gamela da porcaria.
O pecado mortal da nossa cidadania ainda está acima e além, fora de avaliação estruturada e escrutínio validado do comum dos mortais.
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De Luís Lavoura a 26.02.2019 às 12:05

Mais ou menos a meio caminho entre São Tomé e a Islândia fica a Madeira, terra dos Jardins e dos Perestrelos.
E logo a seguir ficam os Açores.
São endogâmicos?
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De Luís Lavoura a 26.02.2019 às 12:09

Tal como este post torna claro, a endogamia não é uma maldição; o que é preciso é "lisura na condução da vida pública e cuidado com os potenciais conflitos de interesses".
Ou seja, o facto de ser toda a gente das mesmas famílias não implica que não haja "lisura na condução da vida pública e cuidado com os potenciais conflitos de interesses".
Não se pode propriamente falar de endogamia antes de se provar que não há "lisura na condução da vida pública e cuidado com os potenciais conflitos de interesses".
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De Vorph Valknut a 26.02.2019 às 14:58

Tenho um conhecido que foi apanhado com 2 kg de coca no porta luvas do carro. Perante o facto esse meu conhecido disse, às autoridades, que alguém o tinha posto ali, porque não tinha trancado o carro, quando foi ao Pingo Doce comprar umas costeletas de porco...ouvi dizer que as não comeu, mesmo com toda a lisura da sua explicação
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De Anónimo a 26.02.2019 às 12:58

Na sociedade islandesa está muito presente o problema da endogamia, pelo que está disponível a qualquer cidadão a possibilidade de averiguar os seus antepassados e saber se numa dada relação existem laços de consanguinidade com a(o) parceira(o). Par além de uma sociedade civil muito forte e reinvindicativa, a democracia directa é praticada a muitos níveis e os recursos naturais (embora) escassos e sobretudo geotérmicos proporcionam um nível de vida bastante alto, num país onde os impostos servem efectivamente para proporcionar serviços de alta qualidade à população.
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De Luís Lavoura a 26.02.2019 às 14:14

Os recursos naturais da Islândia são escassos?!
Eu diria que são relativamente abundantes. Grande quantidade de energia (não somente geotérmica mas também hídrica), o que faz com que grandes produtores de alumínio se instalem na ilha, uma vez que a eletricidade é muito barata, e também muito peixe.
Em termos de recursos naturais, a Islândia está bem fornecida. Foi aliás o que lhe valeu a seguir à crise financeira - voltaram-se para o peixe, em que são imbatíveis.
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De Vorph Valknut a 27.02.2019 às 01:05

Eles têm o peixe, nós a sopinha
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De Anónimo a 26.02.2019 às 16:42

Na Islândia é tudo óptimo, não é como Portugal. Lá não há vigaristas, nem ladrões nem banqueiros aldrabões. É tudo certinho.
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De Anónimo a 26.02.2019 às 18:07

Tiro respeitosamente o chapéu : dão-se várias voltas " ao problema" sem mencionar , uma única vez, " a fauna", para o dizer de alguma maneira...
Viva o pulhiticamente correctíssimo...


JSP
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De alexandra g. a 26.02.2019 às 22:11

A minha mana esteve por lá e disse-me, no regresso, que as mulheres são basicamente todas aparentadas da Björk, que a(s) via partout.

Tratando-se de um território, de facto, pequeno - zonas habitadas - pareceu-me normal, a ela causou-lhe uma certa confusão a incrível semelhança entre as mulheres.

_________
O pior foi a parte - viagem de trabalho - onde tentaram oferecer aos palradeiros (uma conferência, colocando em contexto) as "melhores iguarias" e, após o tubarão podre, lhe terem dado pela goela abaixo um copo de uma aguardente capaz de alevantar naves espaciais :D

_________
(ainda hoje não sei se recuperou... :)))

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