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A literatura sobrevive a tudo

por Pedro Correia, em 18.06.18

No ano passado, antes de rumar às férias primaveris, comprei um livro de um autor muito recomendado em determinadas selectas - figura com presença regular nos ecrãs televisivos e incensada em solos de violino nas gazetas da praxe. Dispus-me a ler aquilo: era volume grosso, de quatrocentas e tantas páginas.

Deu-me para três horas de viagem de comboio. Chegado ao destino, apeei-me na página 100. E nunca mais retornei ao calhamaço. O romance - é de um livro de ficção que falo - permanece adormecido na prateleira de um armário. Não tenciono despertá-lo.

Lembro-me vagamente do fio do enredo: havia uma mulher fechada em casa, assombrada por fantasmas íntimos. Cem páginas adiante, nada sucedera de relevante, aquilo dava um passo em frente e outro atrás sem nunca sair do mesmo sítio.

O que não invalidou que a obra em causa recebesse hossanas em ritmo cadenciado. Certos autores têm este condão de suscitar coros afinados, sempre em estilo laudatório.

 

http___i.huffpost.com_gen_3357726_images_n-READ-BO

 

Ontem, ao entrar numa das livrarias que frequento com regularidade, deparei com dois romances de estreia, assinados por jovens autores. Uma menina e um rapaz.

Senti curiosidade em ler as frases iniciais.

Escreveu ele: «Se existe algo que eu aprendi é que a vida é estranha.»

Escreveu ela: «Adoro o cheiro dele quando chega perto de mim. Ele ainda não chegou e eu já sei que ele vem.»

 

Não sei o que mais me impressionou nestes parágrafos de abertura.

Talvez o monumento à irrelevância em letra impressa. Ou a vacuidade do estilo. Ou a profusão de pronomes pessoais, por clara influência da sintaxe brasileira hoje dominante nos circuitos digitais. Ou o culto narcísico tão característico destes dias em que o auto-retrato domina todas as modas.

Talvez a impressionante compressão vocabular nesta era em que há quem jure ser capaz de escrever romances no Twitter - algo equivalente a dançar o tango numa cabina telefónica.

Mas não duvido que ambos, com a rede de conhecimentos adequada, serão capazes de se tornarem "autores de sucesso". Talvez mesmo se elevem à condição de "bestas céleres", como dizia o arguto Alexandre O'Neill.

Espreito-lhes os perfis nas badanas: surgem-me como figuras exemplares desta época. Ele tem «45 mil seguidores no Facebook» - anoto as conotações quase litúrgicas do vocábulo seguidores. Ela é «formadora de softskills», expressão cujo significado ignoro mas que me soa a algo importante. Não me admirava que venham a cometer mais romances. Podem até fazê-lo a um ritmo semestral: há quem viva disto e seja sempre anunciado com laudatórias trombetas mediáticas. Como se estivéssemos perante uma Cartuxa de Parma ou uma Guerra e Paz.

 

Africa-Minha[1].jpg

 

Regresso a casa, retomo a leitura de um dos meus livros favoritos: Africa Minha, de Karen Blixen. E de novo me salta à vista aquela suave cadência das frases de abertura que logo nos convidam a viajar no tempo e no espaço. Recuando cem anos, ao Quénia colonial.

«Tive uma fazenda em África, no sopé das montanhas Ngongo. O equador passa 160 quilómetros a norte desta região e a fazenda ficava a uma altitude de mais de dois mil metros. Durante o dia sentíamo-no mais perto do sol, mas as madrugadas e o fins de tarde eram límpidos e tranquilos e a noites frias. A situação geográfica e a altitude combinavam-se para criar uma paisagem inigualável.»

A melhor literatura sobrevive a tudo. Até ao inqualificável abuso das más práticas que se multiplicam invocando em vão o seu sagrado nome.

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33 comentários

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De V. a 18.06.2018 às 10:55

Talvez o monumento à irrelevância em letra impressa

Se há coisa que eu aprendi com a vida é nunca subestimar a capacidade de um millennial para produzir banalidades literais e irrelevantes.
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 15:42

Há disso em todas as gerações.
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De V. a 18.06.2018 às 18:39

Sinceramente não sei... — como os millennials são quase todos snow flakes não cultivam o humor negro e o sentido figurado. Daí chegamos aos "estes" e "estas" porque aquelas criaturas não compreendem nem querem compreender que a linguagem é abstracta e os géneros gramaticais não são sexos.
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 19:13

É um facto: o sentido figurado, "neles" e "nelas", é nulo. Nítido nulo.
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De Anónimo a 18.06.2018 às 11:40

Bela imagem: "algo equivalente a dançar o tango numa cabina telefónica"!
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De Anónimo a 18.06.2018 às 12:26

Ou catar chatos com uma luva de boxe.
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 15:41

Os chatos das caixas de comentários "catam-se" com mais eficácia a pontapé.
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 15:43

Pois. É uma imagem que associo ao "romance" escrito em tuítes.
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De Luís Lavoura a 18.06.2018 às 12:35

É uma lei: 90% de tudo o que é feito é uma porcaria. 90% das obras literárias são uma porcaria, 90% das pinturas não prestam, 90% dos artigos científicos não acrescentam nada, etc etc etc.
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 15:42

La Palice 'dixit'.
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De V. a 18.06.2018 às 18:41

É a melhor defesa do PCP alguma vez feita.
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 19:14

Nada que surpreenda.
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De lucklucky a 18.06.2018 às 23:39

Pareto talvez dissesse que é 80%...

https://en.wikipedia.org/wiki/Pareto_principle
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De V. a 19.06.2018 às 00:12

O Lavoura está mais crente na curva de Gauss (que eu tive de decorar também para praticar outros horrores): tirando uns 5% para cada lado, é tudo carneirada.
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De Maria Dulce Fernandes a 18.06.2018 às 14:03

É bem verdade que a Literatura sobrevive a tudo.
É como uma Fénix que se renova em cada ciclo de fogo. Escrever é para alguns uma prova de fogo. Para outros basta juntar agua e sai um romance instantâneo.
A Literatura como figura abstracta, deve ter sido a que mais vezes foi assassinado ao longo dos tempos, desde a invenção da escrita.
Tenho também uns 4 ou 5 livros de décor, que comprei porque era moda e não consegui passar do 2º capítulo. Estão para lá a aguardar que em desespero de leitura, como qualquer agarrado que se preze, lhes pegue para matar o vício.
A fama expressa em seguidores faz lembrar um daqueles cultos manhosos como o de Jonestown, que acabou tragicamente para quem seguia a palavra do senhor.
A palavra escrita bem escrita completa-nos ,une-nos e define-nos como amantes das letras, satisfaz-nos e realiza-nos.O resto é conversa.



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Soft skills are a combination of people skills, social skills, communication skills, character traits, attitudes, career attributes, social intelligence and emotional intelligence quotients among others that enable people to navigate their environment, work well with others, perform well, and achieve their goals with complementing hard skills. The Collins English Dictionary defines the term "soft skills" as "desirable qualities for certain forms of employment that do not depend on acquired knowledge: they include common sense, the ability to deal with people, and a positive flexible attitude."
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 19:16

É isso, Dulce. Lembro-me muitas vezes desse criminoso Jim Jones e da sua multidão de "seguidores" sempre que o malfadado vocábulo vem à baila. Como se a internet transformasse pessoas em carneiros.
O espírito de seita é mesmo assim.
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De Sarin a 18.06.2018 às 20:03

Grave, isso de haver "formadores de softskills"... bárbaro, até, vender a ideia de que se podem mudar atitudes de adultos sem palminhar "conhecimento adquirido". Darão biscoitos? E o bom senso, será pincelado ou esculpido?
Mas confesso que gostava de saber quais as habilitações para dar tal formação, criaturas de 20 anos a ensinarem atitude e bom senso parece-me qualquer coisa senso mas não é bom... pelo menos que seja consultor sénior com 5 anos de experiência!


Perante tal descrição, não admira que adore o seu cheiro e o sinta antes da chegada: seja ele quem for, faz-se acompanhar pelo restolhar das notas e pelo ping do paypal.
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 20:05

Tudo tão básico e tão esquemático...
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De Sarin a 18.06.2018 às 20:19

E o pior é chamarem-lhe Literatura.

(Juro que uma vozinha fria me segredou vvvvvvvelha do resteloooo! Mas nada disso: não é questão de estilo, antes da falta dele)
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De Sarin a 18.06.2018 às 23:42

Palmilhar! se bem que, com tal arte, o formador deve conseguir que o tragam nas palminhas, e o neologismo não será despropositado :p
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De Cristina M. a 18.06.2018 às 14:26

que "grande"texto, Pedro Correia! de mestre.
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 15:44

Obrigado, Cristina.
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De Sarin a 18.06.2018 às 14:54

O Escritor nunca esteve na moda. A sua obra - filha, prima ou enteada - apenas é reconhecida como genial entre os seus pares e entre ímpares desconhecidos.

Há autores que em vida se impõem - porque a escrita dá trabalho, sai-lhes da alma cheia e cheia exige o seu espaço nas prateleiras e os seus louros da atenção geral. Mas são poucos, tais autores, vivos trilhando a senda dos que os antecederam e tendo por isso mais estreito o caminho - porque a Literatura não deita fora nenhum, a todos guarda mas ao Homem foi dada capcidade limitada para nela se banhar. Dois olhos e um cérebro apenas!

E, ainda assim, para alguns são demasiados olhos e demasiado cérebro... só assim se compreende que incensem escrevedores.

Tenho como regra ler um livro de cada autor cujo nome vou ouvindo. Menos que isso é desconsiderar-lhe a escrita. Se chegar a meio do livro, é provável que me seja escritor. E há aqueles que já o são antes do meio, a história é o menos porque na minha história o mais é a sua música, o resto é bónus.

Falo da ficção e da poesia.
Porque isto de Literatura tem muito que se lhe diga... e mais que se leia.
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 19:17

Eu tenho deixado vários desses pelo caminho. A vida é demasiado curta para andarmos a perder tempo com aquilo que não interessa.
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De Sarin a 18.06.2018 às 19:30

Faço muito o que o Pedro fez - folhear um livro aqui e outro ali.
O escrevinhado tira a vontade de pegar, sequer; sou ou tento ser discreta, mas quando comigo e esquecida de outros à volta o semblante trai-me... no bom e no mau.
45.000 seguidores são muitos, nunca se sabe se não será o comprador ao lado... melhor nem chegar perto :)
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De Pedro Correia a 18.06.2018 às 19:54

Quem não é "seguidor", sente-se excluído do rebanho.
Coisa chata, como diria o filósofo B. de Carvalho.
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De V. a 19.06.2018 às 00:13

lol
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De Ventania a 19.06.2018 às 10:36

"Cometer romances". :) Obrigada, Pedro, por ser uma voz erguida contra a banalização da literatura e a cultura da produção massiva de irrelevâncias. Não poderia concordar mais.
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De LMR a 01.07.2018 às 22:56

«Se existe algo que eu aprendi é que a vida é estranha.»

Consegui encontrar um excerto; mas nem a FNAC me diz quem é o autor:

https://static.fnac-static.com/multimedia/PT/pdf/9789897761324.pdf

«Adoro o cheiro dele quando chega perto de mim. Ele ainda não chegou e eu já sei que ele vem.»
- "1001 Coisas Que Nunca Te Disse", por Catarina Rodrigues

"Lembro-me vagamente do fio do enredo: havia uma mulher fechada em casa, assombrada por fantasmas íntimos. Cem páginas adiante, nada sucedera de relevante, aquilo dava um passo em frente e outro atrás sem nunca sair do mesmo sítio."

Isto soa-me ao romance recente de Lobo Antunes, "Para Aquela que Está Sentada no Escuro à Minha Espera". Acertei?

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De Pedro Correia a 01.07.2018 às 23:54

Morno, morno...
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De LMR a 03.07.2018 às 12:59

"Ou a profusão de pronomes pessoais, por clara influência da sintaxe brasileira hoje dominante nos circuitos digitais."

A causa parece-me outra, a assimilação e tradução mental da língua inglesa.

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