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a liberdade não se faz com ordenados de 600 euros

por Patrícia Reis, em 28.04.18

Ontem celebrámos a liberdade, mas a que liberdade podem aspirar aqueles que hoje não têm nem memória do 25 de Abril, nem condição económica para ter direito ao sonho?

Há uns dias, a celebrar a liberdade, com o sol a dizer-nos que há esperança, repletos de sonhos por cumprir e sem se atreverem a tanto, dois jovens almoçavam num pequeno café de bairro. O almoço era composto pelo menu da casa, no valor  de seis euros: pataniscas de bacalhau com arroz de legumes, garrafas de água. Um dos homens não deveria ter mais de 23 ou 24 anos, percebi que tinha uma licenciatura e mestrado e que fazia um estágio numa empresa ligada à engenharia civil. Dizia: “Pois, acho que vou ficar a fazer estágios até aos 30 anos”. E o outro, de idade similar, acrescentava com desgosto: “Não vamos sair de casa dos nossos pais. Nunca conseguiremos”.

Sim, a ganhar 600 euros nunca conseguirão, pensei eu enquanto fazia contas rápidas. Mesmo que optem por ir viver para os arredores da grande cidade – não lhes resta mesmo qualquer outra hipótese –, a verdade é que não têm como assegurar renda, transportes, comida para o frigorífico. O rendimento não chega.

A educação que nos distinguia, pelo menos na minha geração, não faz qualquer diferença nos dias que correm. Três anos de licenciatura, dois anos de mestrado, fluentes em inglês e com vontade de liberdade, de autonomia, os jovens ficam em casa dos pais num esforço inglório de conseguir “fazer-se à vida”. Um destes jovens explicava que a namorada estava nas mesmas circunstâncias e que o rendimento conjunto não ia dar para nada. “E agora pensa: queres ter filhos? Deve ser idiotamente caro!”. Sim, ter filhos não é barato. Nada o é, nos dias que correm (nunca foi, na realidade).

Na televisão do dito café mostravam-se sucessivas imagens da Revolução de 1974, as comemorações, as cerimónias solenes. Os jovens não espreitaram nenhuma das reportagens, estavam alheados do mundo, um pouco deprimidos, diria, disponíveis apenas para não comemorar a pouca liberdade de um ordenado que não cumpre com as expectativas criadas. E, um deles, rejeitando a oferta de café do empregado, adianta em tom sarcástico. “Nem sei por que carga de água fui tirar a carta de condução. Foi dinheiro atirado à rua”. Depreendi que não tem carro, nem possibilidades de o ter. Pagaram a conta, cada um o respectivo menu, e foram pela rua, lambidos pelo sol, a ver se conseguiam ir mais longe.

Ontem celebrámos a liberdade, mas há quem seja demasiado novo para ter memória do que foi viver a ditadura e esteja apenas focado nos dias que correm, na forma como a vida se desenha agora.

Há 44 anos, no dia extraordinário “inicial inteiro e limpo” sobre o qual escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, tínhamos em nós todos os sonhos do mundo. Hoje, quem tem vinte e poucos anos, dificilmente consegue alimentar os seus desejos, porque a vida é madrasta e as condições de empregabilidade são o que está à vista de todos. Só não vê quem não quer.

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8 comentários

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De Alexandre Policarpo a 28.04.2018 às 18:29

É o Portugal que descreve que os socialistas e a esquerda em geral querem para os portugueses, enquanto enchem a boca nos media com as "politicas para os mais desfavorecidos". É assim desde 1995, mas parece que os portugueses gostam, porque continuam a votar neles, até os doutorados que ganham 600 euros.
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De Herr Von Kälhau a 28.04.2018 às 18:35

Ganhar mais, ou desejar menos, eis a questão?
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De V. a 28.04.2018 às 19:10

“Não vamos sair de casa dos nossos pais. Nunca conseguiremos”.

Vão, vão. Quando eles morrerem (espero que não, sinceramente) vão direitinhos para a rua. Viva o ordenado mínimo e outras coisas do género que permitem que empresas que pagam mal sobrevivam.
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De Graça Sampaio a 28.04.2018 às 22:23

Triste! Lamento muito pelos jovens de hoje em dia. Também tenho duas filhas (também licenciadas e mestradas) e, se bem que estejam já um patamar à frente, continuam a ter uma vida muito pouco livre...
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De lucklucky a 29.04.2018 às 01:35

Orwell explica este título de típica manipulação da linguagem vinda do jornalismo Marxista.

Educação?
A educação publica (e a falsa privada) existe para nivelar por baixo, para colocar todos iguais.

Os que defendem o 25 de Abril nunca quiseram a Liberdade.
Mas sim dirigir os outros. De indicar o caminho aos outros. De obrigar os outros.
A Constituição bem o explica.
A Liberdade implica entre outros Desigualdade. Implica caminhos diferentes pois as pessoas são diferentes. Implica escolha, implica risco, implica sucesso, falhanço e graus entre os dois. Implica Escolas e "Educações" diferentes.
Implica poder não fazer parte de, porque se não concorda. Objecção de Consciência. Isso sim é Liberdade.

Protestar contra a condições de empregabilidade é hilariante se não fosse trágico. Talvez devesse ler o que os Socialistas dos Sec.XIX escreviam contra o empregadedorismo: http://www.gutenberg.org/ebooks/24701

Já atraz alludimos á emprêgo-mania É com effeito um dos males que affligem as sociedades contemporaneas, e nomeadamente a portugueza. Tem a sua origem immediata na superabundancia de individuos que se dedicam ás profissões liberaes, abandonando as artes e as industrias exercidas por seus paes e avós. Em vez de procurarem na instrucção, nos estudos a que se consagram, elementos salutares e especiaes para desenvolverem e aperfeiçoarem o trabalho manual ou mechanico, aproveitam o saber que adquirem como instrumento para d'elle se tornarem independentes e invadirem de preferencia as posições officiaes. D'esta tendencia cada vez mais manifesta, apesar das difficuldades creadas com as exigencias de propinas, de exames, de concursos, tem resultado o excessivo desenvolvimento do funccionalismo. É esta, sem duvida, uma das causas geradoras da grande crise economica da actualidade, e provém ainda em parte do preconceito moral de origem biblica que faz considerar o trabalho como castigo imposto ao homem, e em parte da tradição herdada das épochas de conquista em que as artes manuaes eram o apanagio dos escravos ou dos servos. A liberdade, proclamada pela revolução que deu o triumpho politico ao terceiro estado, teve por consequencia, não tanto a rehabilitação ou a dignificação do trabalho, como a abertura das profissões liberaes aos filhos de todas as classes.




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De Sarin a 29.04.2018 às 11:49

"A liberdade não se faz com ordenados de 600 euros"

Mas quando os ordenados-base de 3600€ têm todas as liberdades com os ordenados de 600€ e estes apenas se lamentam, algo está muito bem no podre reino da Tugamarca.


Esta coisa da Liberdade e da Cidadania tem o reverso, perverso para muitos: exige que exijamos, e que para isso participemos. Na comissão de bairro, na assembleia da junta de freguesia, em qualquer lugar onde, mais do que a disposição dos vasos ou do que o preço da campa, interessaria discutir estratégias para a mobilidade local ou para reter/atrair serviços, comércio, ...
Porque andamos a fazer as coisas ao contrário: a Democracia não se faz de cima para baixo. Mas enquanto deixamos acontecer não há outro remédio que não fazer a liberdade com 600€...
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De lucklucky a 01.05.2018 às 20:08

O que é que você faz pelos outros?
Essa é a pergunta que justifica ou não o seu ordenado.

Na mente da maioria o emprego é uma construção política e não uma construção física para assim justificar a violência do Estado com que obrigam os outros a pagar empregos que não trazem nada.

A economia é fazer coisas que os outros queiram e precisam.
Mas isso já não dá poder político.

Por isso temos jornalistas-políticos socialistas aristocratas profundamente anti sociais, e empresários "merceeiros" na linguagem da elite governamental Lisboeta que é do mais social que há.

Temos ainda o conflito cultura vs trabalho.
Num país onde todos são doutores quem está disposto a limpar casas de banho deverá ser milionário pois são raros.
Ora isso é um anátema para o pensamento vigente que considera que o trabalho é valorizado pela instrução, curso - funcionando na prática como ordem nobiliárquica- e não pelas necessidades de trabalho. O mundo físico.
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De Anónimo a 29.04.2018 às 13:34

E agora minha Senhora, imagine uma velhota a viver com 362,92 €. Sim, leu bem, 362,92.
António cabral

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