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A lei do menor esforço

por Isabel Mouzinho, em 27.02.15

A recente proposta do CNE no sentido acabar com as "retenções" no Ensino Básico e Secundário é muito mais que uma aberração. Parte mais ou menos do pressuposto que se o número de reprovações é demasiado elevado e atinge proporções "preocupantes", acaba-se com elas e está o problema resolvido. As consequências destas "passagens administrativas", que me recordam vagamente os tempos do PREC, já não são relevantes. A formação de cidadãos cada vez mais incultos, incapazes de pensar e de emitir opiniões consistentes também não é de todo pertinente.

É o expoente máximo do facilitismo reinante. Assustador, no mínimo...

Dei-me ao trabalho de ler a recomendação do CNE de uma ponta à outra. Cita uns números do PISA, como convém a qualquer estudo/relatório para que ele pareça ter maior seriedade e rigor "científico", e faz uma série de recomendações muitíssimo genéricas, que se traduzem em pouca coisa, para não dizer coisa nenhuma. Deste género: que têm que ser dadas condições às escolas para isto e aquilo, que as dificuldades de aprendizagem têm que ser diagnosticadas precocemente para se poder apoiar os alunos com dificuldades e, claro, como não podia faltar, lá surge o inevitável  apelo ao maior envolvimento das famílias.

Só quem está na escola e a vive por dentro todos os dias no que ela tem de mais duro e desgastante do ponto de vista físico e psicológico sabe como tudo isto é pura "conversa fiada". Sabe, também, que 95% dos maus resultados escolares não representam quaisquer dificuldades de aprendizagem, mas apenas falta de trabalho, de empenho e de esforço, promovidos por uma cultura de anos que, a pretexto da "democratização" do ensino e absurdas experimentações / reformas foi sempre nivelando por baixo, promovendo o facilitismo mais ou menos generalizado, a lei do menor esforço, a incompetência e a falta de rigor e de profissionalismo.

Este é só mais um passo no caminho do abismo. Ou talvez até o empurrão final...

Fico sempre a pensar por que se pedem estes pareceres a quem pensa muito, mas faz pouco. Quantos destes "conselheiros" saberão o que é a realidade de uma sala de aula actualmente?

E, já agora, faço(-lhes) também uma recomendação: e pensar em fechar as escolas de vez? Não?

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8 comentários

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De lucklucky a 28.02.2015 às 00:29

O objectivo do Ministério da Educação é a Igualdade, nunca foi "ensinar" e a Igualdade só se atinge no vazio marxista.

Por isso é que o "ensino" é obrigatório ao mesmo tempo que só tem um programa e uma velocidade.

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De da Maia a 28.02.2015 às 18:15

Antes de falar sobre estes assuntos, convém saber deles.
Lembrar que temas introduzidos recentemente no ensino básico, foram, entre outros, Diagramas de Venn, Diagramas de Carroll, operações com fracções, etc...
Se algum dos senhores que fala sobre estes assuntos, aprendeu isso na sua formação primária, naquela muito exigente do tempo do Salazar, que levante o dedo.

Já vi problemas de geometria colocados em provas de ensino básico, que duvido que as pessoas que falam sobre isso façam a mínima ideia de como os resolver.
Pior, as professoras que não os sabiam resolver, e mesmo assim tiveram instruções para colocá-los. Sabiam apenas a resposta, não faziam a mais pálida ideia da razão, e muito menos de saber explicar.
Existem hoje não sei quantas competições a nível nacional - Olimpíadas, Canguru, Pangea, etc... tudo à procura de geniozinhos.
Foi esse espírito elitista que se fomentou, e é claro, como nem todos têm as mesmas preparações, só serve para mostrar as diferenças ab initio.

No entanto, as crianças não se podem queixar, e os pais também pouco se queixam, porque tomam a postura da avaliação como séria.
Pior, são induzidos, por textos como estes, que os seus filhos é que são burros inatos, nascidos de burros inatos.

Não é séria. A postura deste Ministério da Educação é uma total fraude, com pretensões vaidosas de ser elitista, conduzida por gente medíocre, começando pelo Ministro, que deveria ter vergonha, e esconder-se num canto, pelos erros mais básicos, de simples contas, que conduziu ao caos nas colocações.

Crato, inapto para contas, foi o último a chumbar nos seus exames.
No entanto, a impunidade permite que ele se mantenha, e só a vergonha permite que se esconda cada vez mais.

Um dos problemas típicos, dos que aparecem agora na primária, e que ao mesmo tempo fazem parte de programas universitários avançados:
- Indique três formas de perfazer 100 litros, usando todos os recipientes de 3, 11 e 23 litros.
Se não souber resolver, pergunte ao Crato!
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De Isabel Mouzinho a 28.02.2015 às 19:19

Centro-me apenas na primeira frase do seu comentário e posso dizer-lhe sem presunção excessiva nem falsa modéstia que dificilmente haverá quem saiba mais destes assuntos do que eu e por isso estou muito à-vontade para falar deles.

Não concordo em nada consigo e no seu discurso centrado na maledicência sobre "o Crato", que terá muito de criticável (como toda a gente) mas que nem tudo o que faz é assim tão mau.
E nem me apetece dar-lhe exemplos...
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De Anónimo a 28.02.2015 às 19:23

Não podia estar mais de acordo com a sua análise.
Durante 40 anos trabalhei e lutei por uma escola que realmente permite ensinar e aprender, com empenho, dedicação, profissionalismo e muito, muito trabalho. Vim embora por estar cada vez mais desiludida...Tive pena, saudades, mas afinal fiz o melhor. Não aguentava ver o que se estava a passar e o caminho que as coisas estavam a levar.
Lamento. Obrigada.
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De Luís Lavoura a 02.03.2015 às 16:19

Nada disso.
O que se constata é que a reprovação em nada ajuda o aluno nem a sociedade.
A reprovação atua como uma punição sobre o aluno e a família, mas essa punição em nada ajuda a emendar o problema. Muito pelo contrário. O aluno fica estigmatizado e deslocado, e o seu problema tende a agravar-se com o tempo.
Por isso, o CNE propõe uma abordagem diferente, que não agrave o problema com o tempo, mas procure antes diminui-lo. Que passa por manter o aluno inegrado na sua classe, mas procurar reforçar o empenho dos professores sobre o seu caso particular.
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De Isabel Mouzinho a 02.03.2015 às 22:19

Também não sei em que medida ajuda o aluno (e a sociedade) passar sem saber nada, como já acontece com tanta frequência, mesmo havendo reprovação.
Acho muito graça a esse argumento da "estigmatização" que permite tudo em termos do facilitismo crescente. Disse-o, e repito (e sei muito bem do que falo): a percentagem de alunos com dificuldades de aprendizagem é mínima. Os maus resultados a que assistimos só têm uma explicação: falta de trabalho.

Também acho muita graça à expressão "procurar reforçar o empenho dos professores sobre o seu caso particular". Suscita-me um provérbio. Este: "quem está no convento, é que sabe o que lá vai dentro".
E fico por aqui...
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De Luís Lavoura a 03.03.2015 às 09:28

O Expresso desta semana (salvo erro) traz uma interessante reportagem sobre o agrupamento de escolas de Carcavelos, no qual já há uns anos se pratica esta política de zero reprovações, aparentemente com algum sucesso. Eu não percebo nada da matéria, mas pelo que li fiquei convencido.

em que medida ajuda o aluno (e a sociedade) passar sem saber nada

É claro que não ajuda. Mas a alternativa (chumbar o aluno) é muito pior.

Eu sou pai de dois miúdos que andam na escola. Nem quero imaginar o desastre, em termos psicológicos para os meus filhos, e para mim próprio, que seria chumbarem um ano. Ficarem um ano só com colegas mais novos, que nunca foram anteriormente seus conhecidos, e a repetirem uma matéria que já ouviram no ano anterior. Isso é altamente traumatizante e desmotivador.

Compreenda: o chumbo é uma punição. E o que se pretende é educar as crianças, não é puni-las. Pretende-se que elas aprendam alguma coisa. Puni-las em nada contribui para esse objetivo.
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De Isabel Mouzinho a 04.03.2015 às 20:49

Percebo o seu ponto de vista, Luís, mas temo que a abolição das reprovações propicie um facilitismo muito maior do que já existe, mesmo com elas.

Não as defendo em si mesmas e não me choca a existência de alternativas, mas bem pensadas e com lógica. E tudo o que tenho ouvido até agora, incluindo o que diz o CNE, é mero blablabla.

Claro que a reprovação pode ser entendida como uma punição, mas também lhe posso garantir que os alunos que reprovam não são os que têm dificuldades, são os que não fazem nada para aprender o que quer seja e - mesmo de entre esses - ainda há muitos que vão passando sabe Deus como.

Podia dar mil exemplos (ainda hoje pude testemunhar um) de como os alunos por maiores que sejam as suas limitações conseguem superar-se a prender e progredir. Quando querem (e aí garanto, não faltam os apoios e tudo o mais). A questão mais funda e mais grave é o número crescente dos que não querem esforçar-se minimamente e querem ainda assim ir passando, seja como for, com os pais a incentivarem este tipo de atitude, o que é também cada vez mais frequente.

Quanto ao que leu no Expresso sobre o Agrupamento de Carcavelos (eu também li) dir-lhe-ia que não deve acreditar completamente em tudo o que lê nos jornais, e vê/ ouve na comunicação social. Em matéria de educação (que é assunto que eu domino muito bem) tudo o que se diz, vê, ouve, nunca é bem assim, mas sempre um pouco mais "ao lado".
Não quero alongar-me aqui sobre a questão, que tem muito que se lhe diga, mas digo-lhe só que também trabalhei recentemente no ME durante quatro anos e conheço muito bem a realidade da maior parte das escolas da zona de Lisboa.

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