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Da legitimidade de António Costa

por José Maria Gui Pimentel, em 11.10.15

Está António Costa a fazer bluff ao negociar um governo à esquerda? Provavelmente.

 

Ou estará antes a alimentar essa hipótese com o objectivo principal de adiar a sua iminente morte política? Possivelmente.

 

Do outro lado, estão o PCP e o Bloco a simular uma negociação com o PS que só perante grandes cedências deste aceitariam? Certamente

 

Por outro lado, é grande parte do eleitorado do PS, que em 40 anos sempre governou perto do centro, avesso a uma coligação à esquerda? A minha intuição é que sim.

 

Mas não constitui mais que isso mesmo: intuição. Dificilmente é possível afirmar esta última conclusão com certeza perante o resultado da votação de 4 de Outubro. A presunção de saber interpretar a vontade do eleitorado é um erro no qual estas eleições mostraram ser demasiadamente fácil incorrer. E, se já conhecemos alguma opinião publicada do PS com influência, a verdade é que não podemos afirmar saber para onde pende a opinião pública. A natureza das eleições é apenas, como o nome indica, eleger, não constituindo, na sua configuração actual, um referendo a opções deste tipo. Ora, o PS teve 1.74 milhões de votos que transmitem, tecnicamente, a mesma mensagem: um voto para representação parlamentar, um voto no que propõe, de forma agregada, o seu programa. Retirar mais do que esta ilação da votação num determinado partido é um exercício de base altamente precária, por muito que eu tenda a concordar com as conclusões que têm sido tiradas.

 

Sendo assim, será legítimo António Costa tentar negociar um acordo à esquerda em que esta ceda apenas em alguns pontos específicos, na justa medida da diferença de votação no PS face ao Bloco ou PCP? Não me parece possível negá-lo se desconhecemos a vontade dos eleitores para além do que diz o seu voto.

 

A outra face da questão da legitimidade prende-se com o facto de o PS não ter sido o partido mais votado. A este respeito também não consigo catalogar como ilegítima a negociação com outros partidos (que não a coligação). Sendo certo que a tradição dita que ser a força política minoritária com maior votação a formar governo, não me parece, na teoria, ilegítimo que outras forças se coliguem para formar governo.

 

Por tudo isto, não entendo à partida como ilegítima a conduta de António Costa. Se antevejo que não vá dar em nada? Provavelmente. Se entendo que esse acordo, a concretizar-se, obrigaria o PS a desviar-se perigosamente da sua matriz ligada à democracia liberal e ao euro? E que o apoio da 'esquerda' se revelaria rapidamente instável? Infelizmente, parece-me bem que sim. Mas a isso só poderei reagir uma vez divulgados os termos desse (improvável) acordo.


47 comentários

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De queima beatas a 11.10.2015 às 18:57

Eu até seria capaz de votar bloco ou num qualquer dos mais pequenos só para entalar o PS de Costa, daí que juntos a somar não passa de uma indecorosa falácia. Fui arrebanhado abusivamente contra a minha vontade pelo que vou apresentar recurso no Tribunal Constitucional para saber se é licito impingirem-me um Costa que pretendia rejeitar. O meu argumento é que o anuncio do produto em vez de indiciar esse desfecho bem pelo contrário afirmava sem papas na língua o seu oposto. Publicidade enganosa deliberada é ou não crime?.
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De Anónimo a 12.10.2015 às 16:13

Deduzo do seu comentário que também fez o mesmo relativamente às promessas eleitorais de Pedro Passos Coelho em 2011...
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De queima beatas a 12.10.2015 às 17:42

Dedução abusiva.
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De José Maria Gui Pimentel a 12.10.2015 às 22:12

Percebo. Mas isso não inviabilizaria qualquer coligação que não fosse pré-eleitoral?
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De queima beatas a 12.10.2015 às 22:59

Não necessariamente. Só que Costa em pânico quis queimar etapas para ganhar tempo. Vai ser-lhe fatal pedir emprestado para arriscar em desespero tudo na roleta da sorte.
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De Vento a 11.10.2015 às 19:54

Os movimentos especulativos do intelecto oferecem uma infinidade de legítimos quadros perante qualquer situação. Sem negação do anteriormente afirmado creio que há um tipo de especulação que o Homem recusa fazer.

E o que o Homem recusa fazer é questionar suas próprias raízes e procurar verificar da solidez das mesmas. Estas raízes dizem respeito à ontologia. Neste sentido, cada vez menos me restam dúvidas que o percurso criativo do Homem, para que o seja, tem de se dotar de uma natureza reconstrutiva.
Todavia, só é possível reconstruir se existir também a coragem de questionar: questionar se os modelos viciados do pensamento em toda a esfera sociológica são efectivamente assentes na verdade que a tradição aceita.

Talvez seja incómodo questionar tais bases, pois levará necessariamente a compreender que aqueles que mais amamos e nos são próximos não são a princesa que se senta no pedestal. E estes são a família, os professores e todos os demais de quem fomos recebendo toda uma panóplia de informação que, tal como uma esponja, se entranha no mais íntimo de nosso íntimo.
Compreendo que tal exercício seja doloroso. Mas há momentos na vida em que devemos encarar com pragmatismo que o que arde também pode curar-nos.

Vem tudo isto a propósito da situação que hoje histericamente se debate neste Portugal. Pergunto se esta "anormal" possibilidade de um acordo aparentemente antagónico não será um daqueles exercícios e oportunidade que a coragem da razão e a força da existência, perante os infindos erros do passado, deva oferecer ao Homem (?).
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De José Antunes a 12.10.2015 às 10:32

Tanta palavra para não dizer nada?!
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De Vento a 12.10.2015 às 12:19

Se tanto te interrogas por eu nada dizer imagina tu o quanto não te indignarias se eu escrevesse o que escrevi.
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De Rui Mendes a 12.10.2015 às 17:58

Tu é que davas um grande politico!
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De Vento a 12.10.2015 às 20:15

Nunca se contesta pessoas experientes.
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De lucklucky a 11.10.2015 às 23:03

O Programa do PS está mais próximo do PAF que do PCP.

Logo se o António Costa diz que não quer nada com o PAF então por maioria de razão não pode querer nada com o PCP.

Por isso é ilegítimo o que António Costa está a fazer. No seu putativo Governo alguém atraiçoará o seu eleitorado.
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De André a 12.10.2015 às 16:48

O Costa só recusou a PàF porque, Paulo Portas mandou destruir o PS e o Passos foi na onda.
Se um governo ditatorial mandou durante 4 anos no país, ignorando tudo o que o resto do parlamento lhe pedia, imagina que esses mesmo ditadores vão aceitar negociar alguma coisa com outros?
Começou pela noite das eleições onde a PàF só não pediu a execução pública do líder da oposição, porque os resultados começaram a encolher, em relação às previsões. (3 dias antes, TODAS as sondagens davam 128 a 150 deputados à coligação) Nessa altura, não puderam ir tão longe e limitaram-se a deitá-lo no caixote do lixo.
Para obrigar o governo a não ser ditador, é preciso entendimento à esquerda. É a única forma de manter o governo fora das suas medidas de ditadura, ao estilo do ministro da economia que fala muito bem quando são resultados positivos e desaparece de circulação quando surgem resultados negativos.
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De jj.amarante a 12.10.2015 às 00:56

Os seus argumentos pareceram-me sensatos, de apreciar no meio de tanto ruído retórico.
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De José Maria Gui Pimentel a 12.10.2015 às 22:13

Agradeço as suas palavras
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De Anónimo a 12.10.2015 às 10:14

A questão é esta:

Durante anos alguem teve interesse em passar a mensagem que em portugal só valia a pena votar no PS ou no PSD, pois o que tivesse mais votos formaria Governo.

Com esta invenção, o PS e o PSD foram-se mantendo no Governo, alternando sem serem alternativa um do outro, e essa situação levou o País ao estado a que chegou, as desigualdades sociais são cada vez mais evidentes.

Para além disso, numa situação igual à que temos atualmente, os partidos da oposição (que são maioritários) são obrigados a deixarem passar o que a minoria (que é Governo) quer, pois, caso contrário, serão considerados "partidos do bota-abaixo".

ORA, ISTO NÃO É DEMOCRACIA!!!

Esta negociação vem provar que esta história nunca fez e não faz qualquer sentido. Fica provado que o voto útil é nos partidos com eleitorado mais reduzido, pois são estes partidos que são o fiel da balança, entre os interesses que se servem do bloco central e os interesses dos portugueses.

Espero, sinceramente, que o PS chegue a acordo com o PCP e BE, pois esta situação iria dismistificar, de uma vez por todas, que os portugueses não votam para eleger um primeiro-ministro, votam, isso sim, para eleger deputados, que por sua vez formam maiorias e dão suporte a um Governo... É o que diz a Constituição, e é esta que ainda diz como é organizado o sistema político...
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De Anónimo a 12.10.2015 às 10:38

O Costa está refém da situação que ele próprio criou ao perder a identidade politica (fosse ela qual fosse) começando por dizer que não aceitaria coligações á esquerda, até terminar dizendo que não viabilizaria qualquer orçamento da direita, é obvio que lhe resta ficar sozinho ou assumir um travestismo politico.
Qualquer aliança á esquerda significa ficar refém de politicas radicais na sua essência, logo é uma questão de tempo até ter que ficar sozinho (de novo). A colagem á direita implica aceitar tudo o que andou a criticar desde há largos meses, com o detalhe que ainda terá que lidar com o parasitismo do CDS. Parecem-me ser gatos a mais no mesmo saco. Caso não houvesse um Portas na equação á direita, tudo seria mais fácil (e obvio), neste caso, resta-lhe escolher por qual das portas (dos fundos) vai sair, pois não há saída digna para esta situação.
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De José Maria Gui Pimentel a 12.10.2015 às 22:17

Tendo a concordar. Mas, lá está, isso não lhe retira legitimidade.
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De Makiavel a 12.10.2015 às 11:08

Análise bastante equilibrada do autor.
Durante a campanha A Costa sempre recusou a teoria do arco da governação (comparando com o futebol, tão na moda agora, é mais ou menos 11 contra 11 e no fim governam os mesmos).
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De José Maria Gui Pimentel a 12.10.2015 às 22:18

Obrigado. Costa na campanha 'chutou' sempre para canto este tema, na verdade. Mas também o fez (se não até em maior grau) em relação a um bloco central, que agora seria provavelmente visto com maior naturalidade.
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De Makiavel a 13.10.2015 às 00:52

Em matéria de teoria dos partidos do arco da governação, Costa sempre foi claramente contra esse conceito deturpador dos resultados eleitorais. Basta ver algumas intervenções na Quadratura o Círculo sobre esse tema. Na campanha faz-se o que se pode para vencer sem precisar de alianças, depois das eleições, lida-se com os resultados. Sempre foi dito que a margem de progressão da coligação era inferior à do PS. Esse facto traduz-se na capacidade de diálogo para estabelecer alianças, que tanto PS como a PàF necessitam para formar governo formalmente estável. Um tem, o outro não, por erros próprios na governação de 4 anos. Estranho a diabolização de uma aliança com a CDU quando em Loures o PSD viabilizou um executivo camarário CDU. Quanto ao suposto oportunismo político de A Costa nesta situação, acusando-o de tentar salvar a pele e outras acções menos abonatórias, isso chama-se política. Em 2011, Passos viu o combóio do poder passar-lhe à frente e não hesitou em fazer uma aliança negativa com a mesma esquerda radical, anti-europeia e anti-NATO para derrubar um governo minoritário. Ou então teria eleições no seu partido, disputando-lhe a liderança.
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De Anónimo a 12.10.2015 às 13:20

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De Anónimo a 12.10.2015 às 14:14

Pois, só que em 201 o PSD teve mais deputados que todos os outros partidos somados excluindo o CDS! Assim, sem ter a maioria absoluta, fez uma coligação pós eleições com o CDS para garantir estabilidade governativa. Se se lembrarem, o próprio PPC disse antes das eleições que estaria disposto a uma coligação com o CDS mesmo que o PSD tivesse a maioria absoluta! Às vezes a memória é curta quando convem aos argumentos, não é?
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De André a 12.10.2015 às 16:53

Nessa altura, a união com o CDS tinha em vista os 166 deputados necessários para alterar a constituição. Foi por isso que o PPC disse que se aliava ao CDS mesmo tendo a maioria absoluta.
É uma ideia que a direita tem tentado levar a avante já desde 1977 e nunca conseguiu: ter 166 deputados e poder mudar a constituição para eliminar a esquerda do parlamento português.
Naquela altura, o PSD surgia com 120-130 deputados. O CDS surgia com 18 a 25. O que estava nas margens para poderem vir a somar os 166 necessários.

Mesmo nestas eleições, há um discurso de Paulo Portas que foi mal comentado pelos locutores... Paulo Portas referiu-se à maioria qualificada e não absoluta, pois falou da alteração constitucional. Estranhamente, nenhum comentador tocou nessa pequena "falha" do líder do CDS. (quando a TVI e um jornal surgiram com o PSD entre 47% a 51% dos votos)
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De Anónimo a 12.10.2015 às 14:24

Interpretar a vontade do eleitorado! O que é isso?
A vontade do eleitorado ficou expressa nos votos, que somados, elegem os seus representantes e juntos formam o Parlamento. E este, que é real( não resulta de qualquer interpretação), tem nos seus deputados, nas possíveis convergências e divergências dos seus grupos, o destino da governação do país.
Encontem eles a solução que ela existe.
Assim, simplesmente.

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