A hora dos Cidadãos
Fixem este nome: Albert Rivera. É o nome do líder do partido Cidadãos, que irrompeu apenas há dois meses na cena nacional espanhola, oriundo da Catalunha, com uma meta ambiciosa: regenerar o sistema político. "Somos um partido constitucionalista, democrata e progressista", sublinha Rivera, que tem apenas 35 anos.
Dir-se-iam lugares-comuns. Mas na Espanha de 2015, com uma taxa de desemprego de 24%, políticos de todos os quadrantes detidos por corrupção e sérias ameaças separatistas na Catalunha e no País Basco, nada está tão arredado da prática quotidiana como o senso comum.
Rivera não promete a lua, não proclama a revolução, não sonha com o impossível. Traça objectivos muito concretos: luta sem quartel contra o cancro da corrupção, que tem minado a democracia duramente implantada na década de 70; oposição frontal aos nacionalismos que ameaçam fragmentar o Estado espanhol; pacto constitucional destinado a preservar o essencial do espírito da lei fundamental de 1978, conciliando a economia de mercado com as conquistas já alcançadas no campo social.
São mensagens que os espanhóis querem ouvir e explicam a crescente popularidade de Rivera, expressa em diversas sondagens.
Mensagens que transcendem barreiras ideológicas e se impõem num quadro social muito complexo. Rivera, que é deputado no Parlamento autonómico da Catalunha, decidiu dar o salto para a política nacional fazendo frente aos dois principais blocos políticos espanhóis: os conservadores do Partido Popular, liderados pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy, e os socialistas agrupados em torno do PSOE, agora encabeçado por Pedro Sánchez.
Dois partidos em crise, duas famílias políticas em risco de desagregação. Já valeram mais de 80% dos votos. Nas europeias do ano passado, pela primeira vez, não ultrapassaram os 50%. E estão em recuo ainda mais acelerado. Porque foram perdendo o contacto com as aspirações populares e não acompanharam as profundas mudanças ocorridas no País.
A boa notícia do ano político espanhol é o fim do bipartidarismo, pulverizado à esquerda com a erupção do Podemos, de Pablo Iglesias (que agora, curiosamente, se proclama "nem de esquerda nem de direita" e apela ao voto "pós-ideológico"), e fragmentado mais à direita pela aparição do partido de Rivera, moderado, centrista, mas radical na recusa dos velhos vícios ancorados no país.
Amanhã ouviremos falar dele quando fecharem as urnas na Andaluzia - região onde o PSOE governa ininterruptamente desde 1982 e deve revalidar o primeiro posto, embora com um sério recuo eleitoral.
Seguir-se-ão mais quatro escrutínios em 2015: municipais, autonómicas, eleições antecipadas na Catalunha e legislativas a nível nacional.
Em vez de dois partidos dominantes, haverá pelo menos quatro. O que é salutar. Porque o imobilismo político é um dos factores que mais potenciam a corrupção.
Em Portugal, vários anos atrás, surgiu um embrião de Podemos - corporizado no Bloco de Esquerda. Foi uma boa tentativa, mas falhada devido a um clamoroso erro estratégico da liderança bloquista, que transformou o partido numa espécie de PCP dos pequeninos, sem duas componentes essenciais: a autárquica e a sindical.
Falta surgir o equivalente aos Cidadãos. Mas é bem possível que a dinâmica criada em Espanha por Rivera inspire alguns deste lado da fronteira.
Por mim, seria óptimo.
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