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A História por cinco euros

por Pedro Correia, em 21.09.20

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Frequentar alfarrabistas, como vou fazendo apesar das restrições impostas pelo novo coronavírus, tem as suas compensações. Aconteceu-me recentemente, ao encontrar num desses estabelecimentos muitos exemplares de uma antiga colecção de revistas Paris-Match que tiveram repercussão histórica. Pertenciam a uma senhora que faleceu com 103 anos. Como tantas vezes acontece, os herdeiros desmancharam a casa e desfizeram-se de livros e revistas, que acabam dispersos um pouco por toda a parte.

Cheguei a tempo de adquirir alguns exemplares. Por exemplo, o n.º 758 da Match de 19 de Outubro de 1963, dedicado em grande parte ao falecimento de Edith Piaf e Jean Cocteau, ocorridos no mesmo dia. Ou ao n.º 777,  de 29 de Fevereiro de 1964, reservado em larga medida a pormenores então inéditos do duplo homicídio de Dallas (visando o presidente John Kennedy e o seu suposto assassino, Lee Oswald).  Ou ao n.º 617, de 4 de Fevereiro de 1961, centrado no assalto ao navio de cruzeiros Santa Maria, tomado em alto mar por um grupo de declarados opositores ao salazarismo. 

Na altura a Paris-Match foi a única a entrar a bordo do navio sequestrado, fotografando e relatando o que lá se passava numa edição que teve eco em todos os continentes. «A fantástica aventura de [Henrique] Galvão e dos piratas da revolução», titulava a revista nessa capa - exclusivo mundial do repórter (mais tarde romancista) Dominique Lapierre, hoje com 89 anos, e do fotógrafo (também actor e duplo de cinema) Gil Delamare, que se lançou de pára-quedas sobre o navio. 

Edições que fizeram história. Abandonadas por alguém num alfarrabista. Trouxe-as, a cinco euros por exemplar: agora posso chamar-lhes minhas. Garanto que ficam em boas mãos.


19 comentários

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De Pedro Correia a 21.09.2020 às 10:59

Viva, Vorph. Boa semana.
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De balio a 21.09.2020 às 09:26

Frequentar alfarrabistas, como vou fazendo apesar das restrições impostas pelo novo coronavírus

Quais restrições??? Não há mais restrições do que a frequentar qualquer outra loja: por álcool nas mãos à entrada.
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De Pedro Correia a 21.09.2020 às 11:02

Restrições óbvias. Podemos sempre encontrar fulanos como você, que proclama a intenção de "contrair e propagar" o vírus.

https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/um-caso-irrecuperavel-11790407?thread=95893319#t95893319


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De balio a 21.09.2020 às 09:28

Os meus pais assinaram, durante muitos anos, a Paris-Match. Li-a por isso muitas vezes. Sempre a achei uma revista frívola e de pouco interesse analítico.
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De Pedro Correia a 21.09.2020 às 11:04

Absolutamente irrelevante o que você pensa, Lavoura. Preocupe-se antes em lavar essa máscara fedorenta que traz consigo.

https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/um-caso-irrecuperavel-11790407?thread=95879751#t95879751
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De a 21.09.2020 às 10:26

Também sou de guardar "imprensa escrita" antiga...tenho, p. ex., o último número do jornal O Independente [primeira página a negro com letras garrafais a branco, onde se lê: PONTO FINAL], a revista Visão - edição histórica/um ano depois - Foi uma vez na América - edição dedicada ao 11 de Setembro, a revista Única do jornal Expresso - 10 anos que mudaram o mundo.
(...)
Fico-me por aqui, o comentário já vai longo!! :)

Votos de uma boa semana, Pedro Correia, tudo de bom!
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De Pedro Correia a 21.09.2020 às 10:59

Sou coleccionador de primeiros números de jornais e revistas. Tenho vários. Faz parte da história. E da História, com agá maiúsculo.

Obrigado, Té. Desejo-lhe o mesmo.
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De Francisco Almeida a 21.09.2020 às 11:54

Sempre achei estranho que as consequências do assalto ao Santa Maria nunca (que me apercebesse) tivesses sido escalpelizadas.
Creio que foi o primeiro assalto a navio na época moderna e, nesse sentido, inovador. Recordo que o governo de Salazar tentou sem êxito a intervenção da marinha norte-americana que tinha navios a pouca distância e, igualmente sem êxito, uma condenação internacional por pirataria.

O que é certo é que a moda pegou - diga-se que pelo menos em parte pela impunidade permitida - e desde casos chocantes como o do "Andrea Doria" até à situação actual, calamitosa: "Foram reportados ao International Maritime Bureau (IMB) da International Chamber of Commerce’s (ICC), em 2017, 180 incidentes de pirataria e assaltos armados contra navios, de acordo com o mais recente relatório daquele instituto. É o número anual de incidentes mais baixo desde 1995, em que foram reportados 188 casos."

E essa vocação inovadora de Portugal repetiu-se em Novembro do mesmo ano, com o desvio em voo do avião da TAP que vinha de Casablanca e lançou milhares de panfletos anti-regime sobre Lisboa. Também aqui o governo de Salazar não conseguiu a condenação internacional e também aqui os desvios de aviões vieram a tornar-se uma praga internacional, com consequências de enorme visibilidade no 11 de Setembro de 2001 mas outras, não despiciendas porque, os custos das medidas de segurança encareceram significativamente o transporte aéreo.
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De Pedro Correia a 21.09.2020 às 20:28

Sim, esse ano de 1961 ficou assinalado pelo primeiro assalto a um navio comercial da era moderna e também pelo primeiro desvio de que há registo, tanto quanto sei, de um voo comercial por motivações políticas.
A captura do "Santa Maria" teve maior repercussão porque seguiam a bordo mais de 600 passageiros, de diversas proveniências (mas sobretudo dos EUA), e foi muito mediatizada nas suas diversas etapas, que se prolongaram por mais de dez dias, até o navio atracar no Recife, onde os participantes no assalto receberam asilo político garantido pelo recém-emposssado Governo brasileiro, do presidente Jânio Quadros. E também pelo debate que suscitou - tanto em termos políticos como no domínio do direito internacional público.
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De Anónimo a 22.09.2020 às 03:11

Franciso Almeida penso que se queria referir a Achille Lauro e não ao Andrea Doria - afundado por colisão -


lucklucky
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De Francisco Almeida a 22.09.2020 às 09:52

Exactamente. Obrigado pela correcção.
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De Fernando Antolin a 21.09.2020 às 12:24

A Paris-Match foi compra lá de casa durante anos e anos. O meu Pai resolveu um dia doá-las ao asilo de rapazes lá de Santarém, para serem encadernadas na oficina dessa arte, que funcionava no dito estabelecimento e usadas na biblioteca do mesmo. Na altura ele era membro da chamada Mesa da Misericórdia local, com o pelouro do asilo, entre outros, por exemplo a parte relacionada com a praça de toiros. Curiosamente, a única vez que o vi ir sem pagar à praça, foi na despedida do forcado Ricardo Rhodes Sérgio, histórico cabo do grupo de forcados local, estava toda a "vereação" da Misericórdia, todas as outras idas, no qual o acompanhei por vezes, foi a pagar o seu bilhete e o meu. Também mandou encadernar bastantes livros lá na dita oficina, exigindo sempre o respectivo pagamento e factura. Muito aquilo espantava quem disso tomava conhecimento...

Abraço e boas leituras
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De Pedro Correia a 21.09.2020 às 20:29

Grato pela partilha dessas saborosas recordações, caro Fernando. O DELITO sempre foi, e continua a ser, um espaço de partilha.

Abraço retribuído, com todo o gosto.
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De Paulo Sousa a 21.09.2020 às 17:48

Fiz há umas semanas uma compra a um alfarrabista que tem o respectivo espólio digitalizado e disponível na internet. Uma dos exemplares tem anotações a lápis, o que cria a sensação positiva de estarmos claramente a ler páginas que já foram usufruídas por alguém antes de nós.
O ambiente dos alfarrabistas é incrível. Existe mais conhecimento numa daquelas prateleira do que nas bancadas da Assembleia da República.
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De Pedro Correia a 21.09.2020 às 20:18

Eu gosto muito de frequentar alfarrabistas. Sempre gostei. Só têm um problema: podemos encontrar por lá o Lavoura com a sua máscara fedorenta.
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De Anónimo a 21.09.2020 às 21:56

Boa noite Pedro Correia
Alfarrabistas e livrarias, locais que sempre gostei de frequentar.
Quanto à Paris Match, na minha opinião naturalmente, como acontece com outras publicações nacionais e internacionais, acontece por vezes que em alguns números o seu conteúdo possa sair menos apetecível. É a vida, mas sempre a entendi interessante.
Aliás, se a memória não me atraiçoa, ia jurar que nos anos 1969 a 1973 essa revista teve um ou dois exemplares com notícias sobre António Spínola.
Quanto ao Santa Maria, contaram-me um dia que logo no início pós assalto o governo de então terá mandado sair no seu encalço uma fragata da Marinha, navio que havia sido comprado a Itália. Chamava-se salvo erro Pero Escobar, e salvo erro havia num dos alojamentos uma fotografia de Gina Lolobrigida, pelo que a fragata era conhecida no meio naval por “Gina”. Ao que me disseram também, essa perseguição durou pouco, pois parece ter tido avaria grave de máquinas propulsoras.
Saúde.
António Cabral
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De Pedro Correia a 21.09.2020 às 22:56

Viva, caro António Cabral. Estas edições (em bom estado) que adquiri têm interesse documental e jornalístico. Hoje ainda mais. Pena colecções deste género serem vendidas ao desbarato e desarticuladas mal o seu titular morre, mas muitos herdeiros não sabem nem querem saber de "papéis velhos", mesmo impressos a cores, e tratam logo de se desfazer de tudo.

Retribuo os amáveis votos de boa saúde.
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De Anónimo a 22.09.2020 às 23:02

O Senhor compra revistas antigas? Só estrangeiras ou também nacionais? É que tenho um baú cheio delas, mas são portuguesas e muito mais caras que estas aqui. Não tenho conseguido quem me fique com elas. Comprei muitas. Diziam que eram de "liberdade de escrita" e, pensei que era bom para mim, do povo. Mas quê?! Nunca as entendi. Punha-me a ler aquilo e algumas crónicas só me faziam lembrar aquelas empadas ou folhados de carne que vendem nos cafés daí dos arredores, que a gente nunca percebe o que tem o recheio...? Enfim...
Agora fiquei com toneladas de monos em casa e a roubar-me o espaço .Se calhar , até me podem vir a ser úteis , sabe-se lá, em dias maus. Quem sabe?
Se calhar vou fazer como o senhor - guardar tudo e pronto!

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