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A história da carochinha

por Pedro Correia, em 08.07.19

Lembram-se do Syriza que ia «libertar a Europa da austeridade» a partir do seu posto de comando instalado em Atenas?

Esta exemplar história da carochinha andou-nos a ser contada em dezenas de reportagens, centenas de artigos de opinião e milhares de proclamações avulsas de "figuras públicas" portuguesas que apontavam um fogoso mancebo de apelido Tsipras como o desengravatado reverso do sinistro Passos Coelhou. Meses a fio andaram elas, eufóricas, a bailar o fandango do "verdadeiro socialismo" livre de amarras austeritárias.

Sucediam-se na imprensa caricaturas "heróicas" como a que reproduzo aqui por baixo.

 

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Manuela Ferreira Leite e José Manuel Pureza irmanavam-se no louvor à «devolução da dignidade» do povo grego. «Pela Grécia passa a salvação da Europa», garantia Ana Gomes, insuflada de júbilo. «O Governo grego conseguiu dobrar a Alemanha», entusiasmou-se Diogo Freitas do Amaral. «A Alemanha teve de ceder», sorria Nicolau Santos. «A Grécia teve a coragem de resistir às pressões das potências europeias», celebrou André Freire. «Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo», proclamou a eufórica Catarina Martins.

«Viva a Grécia!», gritou a escritora  Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. Enquanto o pintor Leonel Moura constatava que «uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras» e do seu ministro das Finanças, por quem «muitas mulheres da Europa» andariam «perdidas de amores». Isabel Moreira, bem ao seu jeito, corroborava.

Boaventura de Sousa Santos, confirmando que de Coimbra também se observa o mundo, vislumbrou ali rasgos de odisseia homérica: «A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa.»

 

O que aconteceu no rescaldo desta histeria colectiva? Um elementar, expectável e gelado banho de realidade. Somado a uma imensa desonestidade política - à dimensão da península helénica. O moço "socialista revolucionário" chegou ao poder nas legislativas de Janeiro de 2015, convocou de imediato um plebiscito que o mandatou para pôr fim às normas orçamentais impostas pelos credores de Bruxelas e, munido dessa duplo mandato popular, fez o contrário do prometido. Vergou-se à disciplina orçamental e fez mergulhar a Grécia em quatro anos de duríssima contenção financeira, rasgando todas as promessas eleitorais. Coerente apenas na indumentária: resistiu estoicamente a usar gravata.

Ontem, foi inapelavelmente derrotado nas urnas. O partido Nova Democracia venceu de forma concludente as legislativas gregas. «A primeira maioria absoluta de um partido grego desde 2009», como correctamente assinala El País. Para a qual contribuíram milhares de jovens eleitores, com mais de 17 anos, que puderam votar pela primeira vez.

 

Onde andam, agora que se apagou a luz do "farol" revolucionário, todos aqueles que em 2015 propagaram por cá as tretas de apologia e louvor ao Syriza?

Onde foram parar aqueles "enviados especiais" que testemunharam em directo, nas ruas gregas, o «imenso júbilo» da população em intermináveis hossanas ao messias revolucionário?

Folheio a imprensa, espreito os telediários: quase como se nada tivesse acontecido. Nem parece que houve eleições na Grécia, muita gente por cá nem se terá apercebido que Tsipras foi varrido do poder. Nem aberturas de serviços noticiosos, nem repórteres deslocados a Atenas.

Nada de manchetes jubilatórias. Nem vestígios de reedição daquele título garrafal do Jornal de Notícias, em 26 de Janeiro de 2015: «Grécia - o princípio do fim da austeridade». Nem o equivalente, sequer aproximado, das palavras impressas a toda a largura da capa do Público, no mesmo dia: «Grécia vira a página da austeridade e deixa Europa a fazer contas». O contraste com a capa de hoje, onde mal se detecta uma notícia envergonhada em rodapé, não podia ser maior.

 

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26 de Janeiro de 2015

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Hoje

 

No Jornal da Noite de ontem a SIC despachou o tema num apressado minuto, ia decorrida meia hora de noticiário: na peça, o partido vencedor recebe o rótulo correspondente à "direita conservadora", enquanto o derrotado nunca é identificado em termos políticos ou ideológicos. Nem há qualquer alusão aos factores económicos e sociais que explicam o fracasso eleitoral do Syriza.

No Jornal das 8, da TVI, a notícia surgiu mais cedo, às 20.17, e durou três minutos: não houve reportagem no local, mas o primeiro-ministro derrotado foi correctamente inserido entre os representantes da "esquerda radical" e é expressamente mencionada a existência de 18,5% de desempregados na Grécia - a mais elevada taxa entre os países da zona euro.

No Telejornal da RTP, houve que esperar pelas 21.08. Mas só aqui surgiu a frase essencial de leitura política deste escrutínio: «A esquerda dá lugar à direita». Por ironia, na apresentação deste serviço noticioso estava José Rodrigues dos Santos, que foi crivado de críticas em 2015, quando acompanhou as eleições gregas como repórter em Atenas.

Entre aqueles que então o criticaram, aposto que hoje não sobra um que ainda teça louvores à defunta "esquerda radical" corporizada por Tsipras, apenas exemplar pela negativa. Na Grécia, sepultados os "amanhãs que cantam", a história da carochinha chegou ao fim.


52 comentários

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De Miguel a 08.07.2019 às 13:58

Foi uma esperança momentânea, um momento lírico. É essa capacidade que pode por vezes elevar-nos acima da mediocridade. Mas foi seguido por uma enorme desilusão, como é de esperar quando o balanço das forças é francamente desfavorável. Mas não confundamos nem ilibemos os culpados: a oligarquia que tem a Europa na mão - assumidamente anti-democráticos na linha dos pais fundadores da "democracia moderna" (sec XVIII francês e americano). Escreve isto um europeísta.
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De Pedro Correia a 08.07.2019 às 15:26

A culpa é da "oligarquia"?
Eu pensava que a culpa é dos políticos mentirosos, que prometem aos eleitores aquilo que não têm a menor condição para lhes oferecer.
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De Anónimo a 08.07.2019 às 16:19

Tem razão o best off do Dr. Passos Coelho prova-o.

WW
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De Pedro Correia a 08.07.2019 às 21:10

A propósito da derrota eleitoral do Syriza em 2019 e da esquerda radical que ludribriou os gregos com falsas promessas e mentiras, eis que chega alguém a falar no Passos Coelho.
Extraordinário. A menos que WW seja pseudónimo de Pacheco Pereira.
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De Anónimo a 09.07.2019 às 08:02

Deve haver um qualquer best-off também do 44 que prometeu e deu 2.9% de aumentos aos funcionários publicos e tirou-lhes logo 10% no ano a seguir.
E deve haver qualquer coisa também sobre a devolução de uma sobretaxa qualquer.
Extraordinário é que vamos pelo mesmo caminho agora e os que ajudaram a que se chegasse a 2011 são os mesmos.

WW
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De Pedro Correia a 09.07.2019 às 14:25

A história repete-se, como ensinou o outro.
Tragédia de início, farsa depois.
Pagam os mesmos de sempre.
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De Miguel a 08.07.2019 às 16:28

Não entremos em demagogias baratas. Os principais responsáveis do descalabro pós 2008 Europa fora são os que detêm o poder, especialmente na Alemanha e França. Não são os gregos. Houve pelo menos um ministro grego que prestou bom serviço aos cidadãos europeus revelando o funcionamento anti-democrático do eurogrupo. Algo que os jornalistas deveriam ter feito então há muito tempo. Eles prometeram aquilo que de facto se revelou impossível realizar porque toda a Europa revelou a sua pusilanimidade abandonando-os aos tubarões na altura crítica. Não se tratava de apoiar o "esquerdismo", era apenas um espírito de decência humana para com os cidadãos gregos e de respeito mínimo para com a nação grega. Há coisas que não se fazem. Ponto.
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De Pedro Correia a 08.07.2019 às 21:18

A ver se eu percebo.
O principal responsável pelo que acontece na Grécia não é o Governo grego.

Portanto:
- Afinal «pela Grécia não passa a salvação da Europa», ao contrário do que bradava Ana Gomes em 2015;
- Afinal o Governo grego não conseguiu «dobrar a Alemanha», como vaticinava Freitas do Amaral em 2015;
- Afinal a Alemanha não «teve de ceder», como jurava Nicolau Santos em 2015;
- Afinal a Grécia não conseguiu «resistir às pressões das potências europeia», como bradava André Freire em 2015;
- Afinal a austeridade europeia não começou a ser colocada «no caixote do lixo», ao contrário do que sugeria a elegantíssima metáfora de Catarina Martins;
- Afinal não houve a «devolução da dignidade» ao povo grego, como entoavam em coro Manuela Ferreira Leite e José Manuel Pureza;
- Afinal a vitória do Syriza não foi «uma segunda libertação da Europa», desmentindo o categórico juízo do catedrático Boaventura de Sousa Santos.
- Afinal o grito «Viva a Grécia!», da escritora Hélia Correia, ficou a ecoar no vazio.

É chato. Como diria o pensador Bruno de Carvalho.
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De Vorph Valknut a 08.07.2019 às 21:33

Pedro, a Goldman Sachs avisou a Comissão das aldrabices das contas gregas. Havia conivência entre as duas instituições, para "salvar" o €.

https://www.asktheeu.org/en/request/documents_concerning_goldman_sac
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De Miguel a 08.07.2019 às 22:29

Percebeu bem, nem sempre é. Na altura não foi. Todos os governos gregos (incluindo o do Syriza) têm muitas responsabilidades. Isso não serve de desculpa para o que os governos alemão, francês e restantes fizeram à Grécia. À Grécia e à União Europeia que ficou virtualmente reduzida à burocracia e às lutas de poder inter-estados com as míopes (mas fortes, para não dizer brutas) elites alemãs à cabeça e as elites francesas a fingir que ainda querem contar para alguma coisa.

O que eu não percebo é o que é que o leva a desfilar todo esse rol de digníssimas personalidades. É por serem todas de "esquerda"? Faço excepção ao último, claro está, pois o seu sofisticadíssimo pensamento universalista justifica que seja invocado em qualquer tipo de situações por mais intrincadas que possam parecer. É caso para dizer: a situação é desesperada, mas não é grave.
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De Pedro Correia a 08.07.2019 às 23:02

Se não percebe por que motivo invoco aqui este ilustre rol de opinadores fervorosamente pró-Syriza, lamento mas tenho dificuldade em explicar-lhe.

Curiosamente, não ouvi até ao momento nenhum deles enviar um abraço solidário ao derrotado das legislativas gregas.
Era o mínimo, caramba.
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De Miguel a 09.07.2019 às 07:55

Mais umas farpas, estou a ver ... Às vezes, mais vale o silêncio se ao menos servisse para reflectir sobre as condições de possibilidade do exercício do poder.

Miserável mesmo foi a atitude de Mélenchon para com Tsipras no parlamento europeu, especialmente se tomarmos em conta que aquele pertencia à "família Miterrand" quando esta em 1983, e em condições muito menos adversas, fez bem pior que Tsipras. E nos deixou como legado estas tristes instituições que vão pouco a pouco destruindo a ideia de uma Europa solidária.
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De Pedro Correia a 09.07.2019 às 14:26

Não posso discordar de si.

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