Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




A hipótese inaudita

por José António Abreu, em 16.03.16

Discordo da escolha de Pedro Passos Coelho no caso da votação das ajudas à Grécia e à Turquia. Acho que, a cada oportunidade, devia forçar Bloco e PCP a assumirem as responsabilidades inerentes à viabilização do governo. Mas, por incrível que pareça neste mundo de enviesamentos, no qual a alguns é exigida a perfeição e a outros tudo se perdoa, das políticas mais irresponsáveis à corrupção mais óbvia, até ao instante em que fingir se revela impossível (vide Sócrates, Lula e Dilma, Tsipras, Maduro, Kirchner), por incrível que pareça num político que «nasceu» no partido e se rodeou - e ainda rodeia - de algumas figuras de ética questionável, vai-se a ver e as decisões de Passos Coelho decorrem muito mais daquilo que ele entende ser o interesse nacional do que de jogos político-partidários. Relembrem-se as hipóteses que deu a Sócrates, a tirada «que se lixem as eleições», a insistência durante a campanha num assunto tão pouco eleitoralista como a reforma da Segurança Social ou a resistência, em finais de 2014, ao desejo do CDS de eliminar parte da sobretaxa de IRS no orçamento para 2015 (uma solução que, sabemo-lo hoje, teria sido irresponsável, e que foi substituída por outra que, embora responsável e inteligente, acabou por lhe causar mais problemas do que a cedência pura e simples teria alguma vez causado). Tudo posições na linha do sentido de voto nos casos do Banif e das ajudas à Grécia e à Turquia. Num país de chico-espertos, de orgulhosos especialistas no «desenrascanço», onde se elogia acima de tudo a capacidade de, a cada instante, manobrar as situações em benefício próprio e não a assumpção de responsabilidades ou a visão de longo prazo (e, por conseguinte, onde António Costa é um génio e o radicalismo do PS durante os anos da Troika algo natural), as posições de Passos Coelho constituem uma aberração que pode fazê-lo descer nas sondagens e até mesmo perder a liderança do PSD. Mas - e escrevo-o consciente de que, não obstante as frases iniciais deste texto, rapidamente surgirá quem me acuse de «facciosismo» e/ou «ingenuidade» - podem também constituir um dos poucos gestos dignos de verdadeiro respeito que a política portuguesa produziu nos últimos meses.


16 comentários

Imagem de perfil

De J. M. a 16.03.2016 às 14:19

Concordo com a sua apreciação à atitude de Pedro Passos Coelho.
Contudo, nem todos concordarão, pois parece que os eleitores se começam a habituar a uma política demagógica e radical, de posições fixas e clientelas para satisfazer.
E fica esquecido que, para que se fale em Democracia, se devem tomar as decisões que relevem para o interesse nacional; que um Governo se deve reger por uma atitude de Gestor e não de Político em campanha eleitoral; e que os Deputados exercem livremente o seu mandato em representação de quem os elege, não devendo continuar a agir exclusivamente como ovelhas de um rebanho, obedecendo incondicionalmente aos líderes dos Partidos.
Sem imagem de perfil

De Alexandre Carvalho da Silveira a 16.03.2016 às 14:59

Totalmente de acordo com o post. Apesar dos erros de estratégia e das decisões erradas que tomou ao longo dos últimos anos, há uma coisa que ninguém pode negar a Passos Coelho: o sentido de estado e do interesse nacional que colocou à frente dos interesses partidários de ocasião.
Mas num país onde o chicoespertismo e a manhosice são considerados grandes qualidades e sinónimos de grande inteligência politica, Passos Coelho pode esperar sentado pelo reconhecimento publico do seu desapego ao facilismo.
Andam por aí notícias mais ou menos envergonhadas sobre o crescimento da Irlanda em 2015, que terá ficado acima dos 7,5%. Para além de o governo irlandês ter feito o que precisava de fazer para cumprir o ajustamento com que se comprometeu, houve um factor decisivo para que isso tivesse acontecido: o Tribunal Constitucional Irlandês logo no início do ajustamento e perante um défice de 32%, anunciou que não se pronunciaria sobre as medidas por dolorosas que fossem que o governo tivesse de tomar para resolver os problemas do país. Em Portugal fizemos exactamente o contrário e o resultado está à vista.
Sem imagem de perfil

De do norte e do país a 16.03.2016 às 22:08

"Andam por aí notícias mais ou menos envergonhadas sobre o crescimento da Irlanda em 2015, que terá ficado acima dos 7,5%."

É isto que incomoda a esquerda da demagogia. Austeridade levada a sério ter resultado.
Sem imagem de perfil

De Ribas a 16.03.2016 às 16:41

O povo português ao longo destes 42 anos de uma pseudo-liberdade tem-se deixado enveredar pelos actos anedóticos de uma certa escumalha de pseudo-políticos que a bem da Nação vão enxendo os bolsos enquanto o trabalhador vai-se aconchegando ao empobrecimento. Porém, temos uma divisão no povo onde há um grupo que trabalhou e se aposentou mais ou menos com um justo valor de aposentação que proscrito no DR não metia dó e grandes disparidades entre trabalhadores. Os trabalhadores que descontaram 20 ou 30 anos e em conformidade os valores eram aconchegados superficialmente em função do trabalho que executaram. Hoje, no século XXI, dói ver ao final do mês a inserção de dados onde os trabalhadores com 20 ou 30 anos e em conformidade com os descontos levam para casa 300 ou 400 euros. Pergunto: É justo? Claro que não. Se cordialmente houvesse justiça social, estes trabalhadores deveriam levar para casa no mínimo 500 ou 600 euros e então os outros em vez de usufruirem 1000 ou 1100 euros deveriam de levar para casa 800 ou 1000 euros para não tramitar nos ordenados de aposentação com os 3000/4000/5000 ao qual deveriam contribuir mais para as reformas de miséria.
Nesta politica de desigualdade, hoje temos trabalhadores com 60 anos ou mais de idade que contribuiram 40 ou mais anos de serviço e ao se aposentarem levam cortes na ordem de 50/60/70%
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 16.03.2016 às 16:47

Portanto: o José António considera que a forma como o PSD votou é "digna de verdadeiro respeito" mas, não obstante, discorda dela. O José António não passa portanto de um "chico-esperto", um "orgulhoso especialista no «desenrascanço»", e "elogia acima de tudo a capacidade de, a cada instante, manobrar as situações em benefício próprio". Muito interessante.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 16.03.2016 às 17:14

O seu silogismo tem uns exageros (o uso dos termos "chico-espertos" e "desenrascanço" não implica que todas as opiniões distintas das de Passos Coelho configurem chico-espertice ou desenrascanço) e umas imprecisões (releia o texto e encontrará salvaguardas como "vai-se a ver" e "podem também constituir") mas, genericamente, tem razão: em muitos aspectos, sou um português típico; Passos é que por vezes parece não ser.
Sem imagem de perfil

De do norte e do país a 16.03.2016 às 22:12

chico espertismo é ler de um texto apenas o que nos convém!
Sem imagem de perfil

De Nuno a 16.03.2016 às 17:07

Não acho que, neste caso, o PSD tenha ficado particularmente bem na fotografia. A sua posição (votar contra o original, abster-se em todas as alterações), foi descaradamente manipulada pelo PS.

Infelizmente, não me parece que existisse alternativa melhor.

Votar o orçamento medida a medida, com "coerência" (como agora é moda exigir-se ao PSD) permitiria ao PS fazer da democracia portuguesa aquilo é o seu grande objectivo: governar em minoria absoluta, aprovando umas coisas à esquerda e outras à direita, mas sobretudo, eternizar-se no poder e impedir quaisquer outros de governar.

Impedir o PS de governar, levar-nos-ia para eleições numa situação precária, em que os resultados não seriam muito diferentes dos que temos agora.

O PS escolheu este caminho. Podia ter escolhido outro. Os eleitores (do PS) não parecem estar suficientemente incomodados com o caminho escolhido pelo PS para mudarem a sua intenção de voto. Enquanto assim for, nada mais há a fazer que deixá-los governar.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 17.03.2016 às 10:01

Não acho que, neste caso, o PSD tenha ficado particularmente bem na fotografia.

Eu acho que ficou decididamente mal.

A sua posição (votar contra o original, abster-se em todas as alterações), foi descaradamente manipulada pelo PS.

O PSD não somente foi manipulado, como tinha consciência de o estar a ser e, apesar disso, deixou-se continuar a ser manipulado. O que é próprio de alguém sem caráter nem vontade própria.
Sem imagem de perfil

De Nuno a 17.03.2016 às 15:03

Muito bem. Qual era a alternativa? Eleições?
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 17.03.2016 às 16:10

Qual era a alternativa? Eleições?

Claro que não. A alternativa era o PSD ter dito desde o início que concordava com aquela alínea em particular do Orçamento (não com o Orçamento todo) e que portanto votaria a favor dela.

O PSD, se pretende ser um partido sério, com ideias, então tem que assumir que concorda com muito daquilo que o PS faz. Não pode fingir que discorda de tudo e dizer que vota contra tudo.

Aquilo que distingue o político do politiqueiro é que o político defende certas ideias, mesmo que seja o eu adversário a implementá-las; o politiqueiro só quer chegar ao poder e está-se portanto nas tintas para a ideologia.

Ao anunciar que votaria contra tudo no Orçamento o PSD fez politiquice.
Sem imagem de perfil

De Nuno a 21.03.2016 às 15:33

Ou seja, em nome da coerência, o PSD devia ajudar o PS a fazer exactamente aquilo que o PS pretende fazer da politica portuguesa.

Podia ter dito logo que concordava com essa parte do meu comentário original! Ficava arrumado o assunto.

Quando à sua reflexão sobre a coerência e a politiquice, o caminho escolhido pelo PS face aos últimos resultados eleitorais reconfigurou profundamente a política portuguesa. Para aqui chegar, o PS e os seus parceiros embrulharam-se nas mais variadas contradições, talvez compreensíveis dada a dimensão da tarefa (e.g. ver a votação do PS em 2015 das medidas em apreço).

É mais que natural que PSD e PP se envolvam nalgumas contradições enquanto acertam estratégias para defender os seus ideais neste novo quadro. A não ser que se espere que ambos aceitem de bom grado o seu novo papel secundário na política portuguesa.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 21.03.2016 às 15:54

o PSD devia ajudar o PS a fazer exactamente aquilo que o PS pretende fazer

Não. O PSD pode, e deve, votar contra muitas das medidas do governo PS, e contra muitas das alíneas do Orçamento. Mas não deve votar sistematicamente contra todas.

O PS está autorizado a governar em minoria absoluta? Sem dúvida. Mas não está autorizado a governar da maneira que quiser. Algumas das suas medidas podem sempre ser chumbadas por uma maioria da oposição. Se o PS propuser algo com que nem a direita nem a esquerda concordam, esse algo será chumbado.

Isto nada tem de novo: foi desta forma que Sócrates governou no seu segundo governo. Governou até ao dia em que uma maioria da oposição o derrubou.

espere que ambos aceitem de bom grado o seu novo papel secundário na política portuguesa

É o papel normal de partidos que não estão no governo: apoiar o governo umas vezes, discordar dele noutras (a maior parte) da vezes. Mas não discordar sistematicamente.

Como eu digo, isto é profundamente normal: no passado o PS já governou em minoria diversas vezes, e o PSD também uma vez. Quando há um governo minoritário, os partidos da oposição têm que se comportar de forma responsável, medindo adequadamente o alcance dos seus votos contra. Sob pena de o país se tornar ingovernável.
Sem imagem de perfil

De Nuno a 22.03.2016 às 00:44

Um orçamento não é uma árvore de natal onde cada um pendura a sua bola.

Nesse sentido a posição do PSD é lógica: votar contra um orçamento de que discorda e abster-se de votar quaisquer alterações que não mudem o essencial.

Governar o país medida a medida é a estratégia do PS para o país.

O Luís aparentemente concorda e acha que é assim que se governa em minoria. Eu discordo.
Sem imagem de perfil

De Vento a 16.03.2016 às 22:30

O JAA escreve sobre o PSD como se fosse um partido que existisse. Creio que não tem andado muito atento às afirmações de Passos, como por exemplo: "O PSD tem de compreender que eu (Passos) não sou um sempre-em-pé".

O sentido desta afirmação diz-me que tal partido é constituído por esqueletos que necessitam de um corpo moribundo para um não sei quê.

E como tudo indica ser feito por um não sei quem concluiremos sempre que a política executada é para um não sei quê. Isto é, não há sentido algum. É preciso pensar por eles, pelo facto de existirem. Foi o que Costa fez.
Sem imagem de perfil

De WW a 17.03.2016 às 00:01

Mais um texto laudatório a um politico que vive de jogadas e para quem a vergonha não existe. Continua a fazer jogadas para se manter á tona.

P.S. - Como se comprova facilmente Costa não é diferente, só dá mais nas vistas.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D