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A grande viragem

por Luís Naves, em 29.10.18

O poder tem regularmente inversões de ciclo, quando os eleitores rejeitam a ordem vigente e escolhem, no meio de grande resistência, uma nova geração de políticos que reflecte as novas gerações de pessoas. Estamos a assistir a uma dessas viragens regulares, muito semelhante à que ocorreu no final dos anos 70, inícios dos anos 80, quando os governos do mundo industrializado foram varridos pela vaga liberal, na altura chefiada por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Tudo o que recordo desse tempo é semelhante ao que vemos agora. A simples intenção de tentar perceber os factos suscita reacções de grande violência retórica por parte daqueles que não aceitam qualquer mudança e que tentam defender o mundo anterior. E, no entanto, as sociedades viram as páginas que querem virar. Em várias democracias avançadas, (o movimento começou no Reino Unido, alastrou aos Estados Unidos) significativas franjas do eleitorado rejeitaram a ordem instituída e votaram a favor de projectos nacionalistas, que defendem o recuo da globalização, a limitação das migrações, o regresso daquilo a que chamam os valores tradicionais, além do reforço da soberania, incluindo no plano económico. Esta é, de alguma forma, a inversão do ciclo liberal da era de Reagan e Thatcher, mas há também a recusa veemente dos avanços sociais ligados ao Maio de 68, os quais visavam contestar as estruturas da autoridade e negar a moral dominante. A ordem instituída (jornalismo, mercados, partidos) tenta travar a enxurrada diabolizando o adversário emergente. Foi o que aconteceu nos anos 80, quando o tsunami liberal era classificado abaixo de fascismo. A definição estava errada, como se viu, e o novo poder alastrou um pouco por todo o lado, tornou-se a ortodoxia, acelerou a globalização, derrubou o Muro de Berlim e, agora, depois de mostrar os seus limites na Grande Recessão, é a velha ordem que ameaça ser substituída.


20 comentários

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De q a 29.10.2018 às 01:06

Sim, sim... E esse tsunami (neo)liberal a quatro mãos trouxe-nos até aqui. E é importante saber o que é esse "aqui": esse "aqui" é a completa destruição daquilo a que não poucos chamaram o Ocidente democrata-liberal, com a sucessiva erupção dos novos fascismos e dos novos nazismos. Quando a ortodoxia totalitária de matriz financista (do interesse da elite !%) se sobrepõe à escolha entre diversas orientações políticas e as suas necessariamente diferentes opções e praxis governativas (mais ou menos do interesse dos povos), e quando a isso se junta uma deliberada campanha de atomização das sociedades em minúsculos "eu" cada um deles olhando para o seu próprio umbigo, o resultado é o parto de monstros. Chamar ao monstro recém-nascido "mudança" é benevolência parental do paizinho e da mãezinha da coisa e só pode ser cegueira interesseira das parteiras que assistiram ao sucesso.
Já sei que vão acusar-me do inevitável "reductio ad Hitlerum", mas se a mudança fosse positiva só por ser mudança - e o conceito de "mudança" tem os seus problemas quando essa "mudança" tem o passo do caranguejo e, como tal, é "mudança" que se opõe à mudança ou seja, é reacção contra a evolução efectuada até um dado momento - ainda hoje existiriam estátuas do tio Adolfo na pátria de Merkel (que não a dele).
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De Rui Henrique Levira a 29.10.2018 às 01:07

Sim, sim... E esse tsunami (neo)liberal a quatro mãos trouxe-nos até aqui. E é importante saber o que é esse "aqui": esse "aqui" é a completa destruição daquilo a que não poucos chamaram o Ocidente democrata-liberal, com a sucessiva erupção dos novos fascismos e dos novos nazismos. Quando a ortodoxia totalitária de matriz financista (do interesse da elite !%) se sobrepõe à escolha entre diversas orientações políticas e as suas necessariamente diferentes opções e praxis governativas (mais ou menos do interesse dos povos), e quando a isso se junta uma deliberada campanha de atomização das sociedades em minúsculos "eu" cada um deles olhando para o seu próprio umbigo, o resultado é o parto de monstros. Chamar ao monstro recém-nascido "mudança" é benevolência parental do paizinho e da mãezinha da coisa e só pode ser cegueira interesseira das parteiras que assistiram ao sucesso.
Já sei que vão acusar-me do inevitável "reductio ad Hitlerum", mas se a mudança fosse positiva só por ser mudança - e o conceito de "mudança" tem os seus problemas quando essa "mudança" tem o passo do caranguejo e, como tal, é "mudança" que se opõe à mudança ou seja, é reacção contra a evolução efectuada até um dado momento - ainda hoje existiriam estátuas do tio Adolfo na pátria de Merkel (que não a dele).
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De Sarin a 29.10.2018 às 03:04

"A simples intenção de tentar perceber os factos suscita reacções de grande violência retórica por parte daqueles que não aceitam qualquer mudança e que tentam defender o mundo anterior."

Eu diria que a retórica violenta subjaz aos factos. E que é esta a única semelhança que vejo entre o que ocorre na Europa, onde hoje a AfD entrou no único parlamento regional onde lhe faltava entrar, ou o que ocorre nos EUA, onde Trump continua irascível mas previsivelmente limitado pelas outras instituições a implementar as políticas pelas quais foi eleito, e o Brasil, onde a política que vi defendida e debatida por Bolsonaro e seus apoiantes foi apenas o anti-petismo - e por isso continuo a afirmar que não é comparável, não faz parte do mesmo movimento.
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De Tudo Mesmo a 29.10.2018 às 06:15

"What goes around comes around" e a verdade é que os eleitores tentam arranjar algo completamente oposto ao que existe em vigor, seja porque sofrem na "pele" as consequências das decisões tomadas, seja porque os que estão no poder rodeiam-se de uma "corte" que de todo tem qualificações, mas tem interesses próprios para os actos que praticam e isso é transparente para quem está no exterior desse círculo. Irá haver sempre os que discordam do "amarelo". Eu prefiro o "cor-der-rosa".

Pessoalmente, a questão política, no fundo, resume-se a uma "Sociedade de Interesses próprios" que "lutar pela camisola dos outros" é no período pré-eleitoral. No pós, como diz a letra "Eu quero lá saber..."

E, isso custa ao eleitorado. Daí a procura do oposto, que poderá ser ou não positivo para o eleitor. Neste contexto, o "namoro" é uma fase prolongada. O "casamento ou divórcio" é rápido.
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De Luís Lavoura a 29.10.2018 às 10:16

Nos anos 80 não houve nenhum tsunami liberal. Houve Thatcher e Reagan, apenas. Em dezenas de países, houve dois.
Ademais, Thatcher e Reagan não eram liberais. Eram militaristas, que aumentaram os gastos do Estado. Isso não é liberalismo.
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De Anónimo a 29.10.2018 às 16:07

Já para não falar no ódio desses dois à comunidade LGBT. Isso não é "liberalismo" mas sim conservadorismo do mais reaccionário.
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De Rui Henrique Levira a 29.10.2018 às 21:13

Ora deixa cá ver... O maior pecado do Reagan que financiou e armou Pol Pot, os Contras da Nicarágua (fazendo da CIA correio de droga), os democráticos e muito laicos mujahedin afegãos, a UNITA do muito humanista Jonas Savimbi e invadiu Granada e o maior pecado da Tatcher que deixou morrer à fome Bobby Sands e rebentou com o tecido social britânico foi... o ódio à comunidade LGBT. Não há como dar às coisas, na escala dos horrores, o lugar que verdadeiramente é o delas...
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De Anónimo a 30.10.2018 às 00:27

É impressão minha ou o Rui é escumalha homofóbica? Fica assim tão ofendido por se mencionar a comunidade LGBT?
Se eu mencionar que 6 milhões de judeus morreram no Holocausto, você vai ficar ofendido porque não falei dos russos que morreram em quantidade maior?
Você não quer saber de nenhuma dessas coisas que mencionou, quer sim destilar homofobia. Não merece ser apelidado de humano.
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De Rui Henrique Levira a 30.10.2018 às 13:29

Escumalha (homofóbica ou homofila ou lá o que quiser) é o seu paizinho sobre cuja verdadeira identidade, aliás, lhe mentiu a sua santa progenitora toda a sua vida, entendido?
Destilado, para mim, só o uísque, e o que verdadeiramente me ofende é o histerismo tremendista de imbecis que se colocam como o receptáculo de todas as calamidades do Mundo sendo, paradoxalmente, uma ínfima parte desse mesmo Mundo.
Percebeu ou terei que fazer o desenho para que os seus dois neurónios muito politicamente correctos entendam a coisa?

PS- E antes de trazer à colação o extermínio de 6 milhões de judeus na Shoa e de 26 milhões de cidadãos da ex-URSS na luta contra o Nazismo, lave a boca, certo?
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De Anónimo a 31.10.2018 às 01:13

Parece que o Rui ficou "triggered"... Alguém lhe arranje um safe space.
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De Anónimo a 31.10.2018 às 12:27

"Safe space" é coisa que lhe dará muito mais serventia a si do que a mim, e "triggered" só as espingardas caçadeiras depois do disparo.
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De Rui Henrique Levira a 31.10.2018 às 12:32

"Safe space" é coisa que lhe dará muito mais serventia a si do que a mim, e "triggered" só as espingardas caçadeiras no momento do disparo. Se a conversa lhe não agrada, menos me agradou o seu ordinário epíteto. Veja se cresce.
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De Anónimo a 29.10.2018 às 12:46

Fanatismo dificulta engolir as derrotas (das suas conviccções).
Até o informadíssimo comentador explica que "os brazileiros se arrepederão de terem elegido este Hitler".
Será que Bolsonaro tem ocultos planos para invadir, militarmente e em tom de vingança, toda a América Latina e logo de seguida os EUA?.
Haja Deus.
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De Anónimo a 30.10.2018 às 00:29

Ou seja, como o Brasil não tem o poderio militar que a Alemanha tinha, a comparação deixa de ser válida?
Cérebro procura-se...
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De WW a 31.10.2018 às 08:55

Para que conste, a Alemanha não tinha poderio militar por aí além, aliás o maior e melhor exército Europeu da altura era o francês e o russo também era bom apesar das purgas de Estaline.
Adoro ver os liberais de turno a tentarem perceber o que lhes está a acontecer.

WW
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De Pedro a 29.10.2018 às 14:40

A leitura poderá ser outra. O liberalismo promovido por Reagan e Thachter, apoiados por Milton Friedman, conduziu à globalização selvagem que nos tempos de hoje é responsável pelas respostas iliberais. Afinal para Thatcher a sociedade não contava para nada.
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De lucklucky a 29.10.2018 às 20:51

A abundância do Capitalismo depois de acabar com o Bloco Comunista puxou a Esquerda Marxista a encontrar outras Classes que explorar, isso deu-nos o nascimento do Politicamente Correcto, com o seu racismo, sexismo, criando classes de opressores e vítimas em tudo o que mexe. Possível devido à "marcha pelas instituições" como alternativa à luta directa pelo poder, anichou-se no jornalismo, academia e fundações. No fundo instituições de proselitismo e doutrinação, onde as coisas não precisam de funcionar, onde as métricas de avaliação são do mais maleável que existe. No entanto essa vantagem colocou a esquerda fora do mundo real.

Depois aparecem Tumps, Bolsonaros etc e a esquerda não conhece sequer alguém que vota neles. Nunca a esquerda esteve tão distante do povo.

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De Anónimo a 30.10.2018 às 00:28

Marxista era a sua mãe, lucklucky.
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De Pedro a 29.10.2018 às 14:43

Os movimentos de 68 visavam a liberdade contra o arcaísmo de políticas negativas de repressão do pensamento. Visava que as minorias, cada vez maiores , tivessem voz política. Os movimentos de hoje são o negativo de 68.

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De lucklucky a 29.10.2018 às 20:21

68 visava apenas facilitismo, nada mais. De resto é o vazio.

Essa das minorias ainda mais hilariante é, desde que fossem minorias escolhidas a dedo que estivessem no momento histórico a favor do Comunismo...veja-se a não preocupação do Maio de 68 com as minorias no mundo Árabe...
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De Anónimo a 31.10.2018 às 01:14

Quando é que o lucklucky se preocupou com as minorias do mundo árabe? Quando se opôs à emigração das mesmas para a Europa ou para a América do Norte? Hipócrita!

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