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A GNR

por jpt, em 05.12.18

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A Few Good Men (Uma Questão de Honra) é um até penoso filme, protagonizado pela então conhecida Demi Moore, o ainda jovem Tom Cruise e Jack Nicholson (num dos mais histriónicos overactings da sua longa carreira no género). Quase todos o terão (entre)visto, num qualquer serão televisivo. Mas lembro o argumento, completamente típico, um padrão de Hollywood: Cruise representa o jovem, algo desinserido, mais arisco do que rebelde, que enfrenta as perversões do "sistema", provocadas pelo desvio (psicológico) de um malvado Nicholson, comandante de uma unidade de tropas especiais no qual um soldado morrera devido à recruta. No final, contra todas as expectativas (menos a de todos os espectadores, claro), o Young Rebel redime-se da sua apatia e derruba o mau indivíduo, purificando o sistema. O filme é de 1992, podemos dizer que passara o tempo dos anti-heróis. Mas também podemos dizer que exactamente nesse mesmo ano Hollywood produziu uma macro obra-prima, pois Mestre Clint realizou Unforgiven. Que serviria, (muito) mais que não fosse, para mostrar a tralha cinéfila e cultural que este "Uma Questão de Honra" era.

Ao saber do que vai acontecendo na GNR bem que me lembrei do filme. O comandante do centro de formação, um coronel Ramos, já foi apeado. E um antigo dirigente da escola da GNR, Carlos Chaves, com o posto de general, já veio dizer que o problema foi de o instrutor ter perdido a cabeça e o exercício não ser supervisionado. Pronto, está resolvido o assunto. O coronel Ramos segue para outro serviço, o tal instrutor irá dar instrução para outro lado. O sistema purificado, pois arejado. E mantendo-se tudo igual.

Entretanto, e para (hipotética) vergonha do general Chaves, aparecem outras imagens. Outro exercício, outro instrutor, mesma modalidade de instrução: oficiais super protegidos a darem porrada em recrutas desprotegidos, estes nem um capacete protector têm, como é usual nos treinos de boxe. Ou seja, por mais que o general Carlos Chaves, do alto dos seus 3 anos de director da Escola da GNR, nos queira mentir, protegendo a sua corporação reduzindo tudo a uma má-prática individual, o que se passa é que há uma metodologia de treino alargada. Não é um erro de falta de supervisão. Não é um instrutor destrambelhado. É um modus operandi: a instrução passa por oficiais protegidos a espancarem recrutas. São estes instrutores, estes oficiais, que o general Carlos Chaves - pressuroso a mentir-nos, reduzindo o caso a um infeliz incidente - e os colegas (gente desta não é camarada de ninguém, nunca subiram acima de colegas) formou. Brotaram do molde que ele manuseou (ou criou, não sei).

Caladinho, e decerto que muito protegido, com a armadura necessária para dar porrada nos recrutas, e pronto a roçar-se nos políticos, está o tenente-general Luís Francisco Botelho Miguel, comandante da GNR, responsável máximo, e obviamente conhecedor, destes métodos de instrução. Alguns dirão que este oficial tem muitos méritos. Com toda a certeza que terá. Os necessários para passar à reserva. Já. Sem honra. Pois nenhum oficial que deixa espancar os seus homens merece qualquer respeito. Nem estar ao serviço.

 

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32 comentários

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De Pedro Vorph a 05.12.2018 às 09:11

Ontem ao jantar falou-se acaloradamente sobre dito assunto. Concordo a 267% consigo. Excepto na questão do filme uma Questão de Honra. É imortal, esta cena:

https://youtu.be/9FnO3igOkOk

Já agora a GNR não é uma força militar? Bem sei que é tutelada pelo MAI mas o oficiais são militares. Como se nomeiam as chefias? Passa pelo PR?
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De jpt a 05.12.2018 às 17:10

O estatuto da GNR foi discutido há uns anos e se o seu comando deveria ser de oficiais próprios ou não também o foi, acho (ou terá sido a PSP ou ambas). Mas eu estava fora e é-me questão algo lateral, não sei como ficou Talvez algum comentador nos possa elucidar
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De jpt a 05.12.2018 às 17:14

Confesso que há fui mais adepto das nicholsonadas Digamos que a cena é um bom solo de guitarra de southern rock - os velhos Lynard Skynard por exemplo Mas não mais que isso Envelheço, está visto
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De Sarin a 06.12.2018 às 16:37

Não fui espreitar mas aposto que sei qual é; e só não a identifico porque you can't handle the thruth... (vá, chuta yes, i can!)
Já sobre as percentagens, fazia-te bem ler um postalito sobre o assunto aí num burgo qualquer, grande exagerado!

Derivando, achas mesmo que a concordância é um círculo?

Há essa pecha entre GNR e FA, e também nunca percebi muito bem a organização das nossas forças de segurança. Espero sempre que quem as coordena perceba, mas.
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De jpt a 06.12.2018 às 17:09

Não sei se vocês conseguem aguentar esta verdade mas foi-me perguntado, nesta caixa de comentários, qual o meu público alvo para este tipo de trabalho e na muito explícita resposta incluí-vos (e a mais alguns convivas)
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De Pedro Vorph a 06.12.2018 às 18:16

jpt, mais preocupante seria se lhe enviassem, dita pergunta, para o email pessoal. Conheço boa gente que já foi "aplacada" por ser considerado inconveniente. Em guarda, jpt!! Se for imputável, em virtude da minha débil sanidade, estarei ao seu lado
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De jpt a 07.12.2018 às 07:34

Penso que não se trata de um disso. Mas mais de alguma ingenuidade blogal
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De Luís Lavoura a 05.12.2018 às 09:49

Muito bem jpt. Totalmente de acordo.
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De jpt a 05.12.2018 às 17:08

Obrigado
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De Luís Lavoura a 05.12.2018 às 09:51

Este caso da GNR faz-me lembrar os padres pedófilos. É a mesma metodologia: os bispos movem os padres pecadores de uma paróquia para a outra, a corporação (Igreja) protege-se, uma mão lava a outra.
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De jpt a 05.12.2018 às 17:07

São os tiques das corporações
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De Desconhecido Alfacinha a 05.12.2018 às 11:39

Militar na reserva e TOTALMENTE de acordo revendo-me no ultimo parágrafo.

O Exercito é espelho da Nação, enfim...
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De jpt a 05.12.2018 às 17:07

Obrigado pela sua concordância com este civil
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De Anónimo a 05.12.2018 às 16:35

Este assunto não é de importância menor, ao invés, reflete uma situação que nos deve preocupar, porque se passa com uma Força de Segurança, que se pretende "Humana, de confiança e próxima", acompanho o que o artigo pretende dizer, concordo, porque sei, com o que vem referido no último parágrafo. Aliás, ponho em causa a própria formação dos Oficiais, no caso instrutores, com o forte pendor militar, quando a missão a que se destinam dar cumprimento é mais que 90% civil. Por fim, nunca entendo porque pedem opiniões a militares que passaram pela GNR em comissão de serviço, e, sobretudo, para que haja promoções no exército.
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De jpt a 05.12.2018 às 17:04

A questão da miltarização da Guarda é muito relevante. Mas é algo sobre o qual eu não devo comentar pois não tenho quaisquer informações - e também por isso lhe agradeço o comentário, levantando questão relevante. Num âmbito mais estreito, mais preso ao caso aludido no texto, eu quero salientar que o espancamento de recrutas como forma de moldar práticas e disposições de agentes policiais é inaceitável mas também o é se para instrução de militares. Esta gente, este oficialato perdeu o tino
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De jpt a 05.12.2018 às 17:06

E tem absoluta razão no que diz, que tipo de formação para a interacção de cidadania se dá a agentes que sofrem na sua instrução este tratamento aviltante
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De Pedro Vorph a 05.12.2018 às 17:37

A GNR, julgo ter sido criada/reformada, com o propósito de proteger o Governo republicano, saído do 5 de Outubro de 1910, dos "lealistas" do Exército...assim como uma divisão de forças/poderes.
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De Sarin a 06.12.2018 às 16:41


A GNR tem história anterior à República, herdeira que foi dos medievos Quadrilheiros, depois da Guarda Real da Polícia e finalmente da Guarda Municipal nascida do liberalismo do Séc. XIX.
Natural que, com a Res Pública (tiro-lhe o chapéu, por motivos vários), se tenha, mais uma vez, renomeado. A estrutura terá sofrido alterações, mas a missão pouco variou, parece-me.
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De Pedro Vorph a 06.12.2018 às 17:24

Pois, tinha a noção que advinha da Guarda Municipal...já não me recordo mas penso que esta lutou contra os liberais, em Lisboa...
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De Anónimo a 05.12.2018 às 19:52

A instrução musculada existia no tempo da guerra colonial mas aí tinha a finalidade de preparar os militares para a guerra, para defesa dos próprios. E a tropa estava bem preparada sem praticamente nenhuma motivação política.Tecnicamente os Instrutores eram de elite, os instruendos não tendo,de nascimento, como outros, possibilidade de "dar o salto" sabiam que quanto melhor preparados mais hipóteses teriam de voltar para a amada Laurindinha.
Na GNR o assunto é outro. No entanto, fico surpreendido, conheci a Escola de Portalegre onde fui, algumas vezes, no âmbito da minha profissão, contactei muito próximo os recrutas e NUNCA ouvi tal. Era considerada Escola Modelo.
O que passou-se?
Ps : não sou militar , muito menos anti-militar.
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De jpt a 06.12.2018 às 08:09

A instrução musculada, para determinado tipo de militares (e até mesmo de polícias) não pode passar pelo mero espancamento de recrutas. Eu também não vou nada anti-militar. E quanto aos polícias ao ver este tipo de instrução posso perceber algum tipo de atitudes desajustadas que vão ocorrendo.
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De Francisco Laranjeira a 05.12.2018 às 21:40

Boa noite.
Li este post e respeito o seu conteúdo, à semelhança do que faço com a generalidade dos posts e artigos de opinião, mesmo aqueles, cujos conteúdos, não passam de "conversa da treta". Pensando que este trabalho, não foi produzido, só porque sim, ser-me-há legitimo perguntar-me a quem servirá o seu conteúdo: aos pescadores de Matosinhos ? aos 20.000 habitantes dos montes do Concelho de Serpa ? aos 11.000 transmontanos, das aldeias, do Concelho Montalegre ? Ou, será que não sou suficientemen culto, para... ver longe ? A comentar também aprendo. Melhores cumprimentos. fl
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De jpt a 06.12.2018 às 08:08

O que quer que lhe diga? Que acertou, que o problema está em que você não vê longe? Ok, eu digo.
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De Francisco Laranjeira a 06.12.2018 às 12:14

Boa tarde.
Eu só gostaria de ficar a saber qual o público alvo do seu artigo. Longe mim fazer qualquer juizo de valor sobre o mesmo. Um dos valores convivenciais que mais prezo é, o respeito pelo trabalho dos outros. A comentar também aoprendo. Melhores cumprts. fl
Francisco Laranjeira
https://www.facebook.com/francisco.laranjeira.796
https://franciscolaranjeira.blogs.sapo.pt/?utm_source=posts&utm_content=1543775192192
...........
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De jpt a 06.12.2018 às 17:05

público alvo? do artigo? deste trabalho? ó homem, V. parece estar um bocado ao engano. Sim, há uns blogs de moda que dão dinheiro a ganhar, diz nos jornais. E talvez haja uns turísticos, viagens e gastronomia que possibilitem umas atençõeszinhas, no repasto e num quarto com melhor vista. Depois há um ou outro amigo das amigas do Sócrates que terá ganho taco no blog por via do trabalho - mas isso já foi tempo ...
Isto é uma conversa, para quem está à mesa ou aparece pelo balcão do bar/tasca; há os clientes habituais neste outono, o sempre Lavoura (com os quais às vezes me chateio), o Pedro, o luckyluke (a quem eu, quando já carreguei nos bagaços chamo, malcriadamente, jollyjumper), por vezes o regicida, com o qual temos que ter cuidado não vá por uma bomba nisto tudo, a Sarin, a quem eu (e não só, e não só) vamos relanceando pelo canto do olho, quando ela se distrai, mas não nos atrevemos a mais, que pela verve se percebe que não é para brincadeiras, há um ou outro doutor (acho que um até é doutor juiz) que vem beber o seu café e que saudamos mais respeitosamente, o Pedro Correia está atrás do balcão, alguns dos clientes falam mais com ele e evitam a nossa mesa, às vezes do Largo do Rato chega um trolha ou outro, daqueles que falam alto e nem o nome dizem, um ou outro dia um dos sócios da casa vem visitar (a indagar dos lucros) e abeira-se da mesa destes habituais, numa "palavra amiga", a indagar da saúde (e a pensar nas nossas bolsas, claro). E por vezes vëm do bar És a Nossa Fé ver a bola, que lá ainda não têm o canal Eleven
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De Francisco Laranjeira a 06.12.2018 às 21:39

Boa noite.
Obrigado pelo seu esclarecimento. Fiquei a saber que esta peça jornalistica se destina ao consumo caseiro, i.e., uma espécie de "vinho da casa", para degustação exclusiva, algures, nas imediações do Largo do Rato. Melhores cumprts. fl
....
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De jpt a 07.12.2018 às 07:37

Nem tanto isso da degustação, é mesmo beber. O vinho é corrente, honesto mas não degustável. Algumas vezes até vem em pacote.
E o problema é que todo o país são imediações do Largo do Rato, os tipos de lá movimentam-se muito.
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De Francisco Laranjeira a 07.12.2018 às 18:49

Boa tarde.
Assunto esclarecido e, "processo arquivado". Não vai haver "julgamento", pelo simples facto de se reconhecer mérito, a pessoas que se esforçam.
A Bem da Nação.
Melhores cumprts. fl
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De Sarin a 06.12.2018 às 16:50

Crítica cinematográfica: pois.


Sobre a metodologia de treino e a sua maior ou menor influência nas atitudes dos formados por via do que passam enquanto formandos, e apesar de concordar com o nexo causal, penso que o problema será corporativo, cultural mesmo, não meramente da formação. A formação obedece a uma política corporativa - nesta ou noutras corporações e grupos profissionais.
O problema não será deixar espancar os seus homens, mas talvez promover o espancamento.
Os tais "red codes", implícitos.
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De jpt a 07.12.2018 às 07:35

Também acho. Uma hiper-"musculização", advinda de uma depressão por submilitarização
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De Sarin a 07.12.2018 às 09:14

Bem apontado, o complexo... basicamente, o formando é Prozac.

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