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A geringonça e a caranguejola

por Pedro Correia, em 26.07.19

Pedro-Sánchez-António-Costa.jpg

 

1

A caranguejola em Espanha - o equivalente à geringonça em Portugal - funcionou muito bem para destruir, deitando abaixo o anterior Executivo, de Mariano Rajoy. Mas está a revelar-se totamente ineficaz para construir: à segunda votação consecutiva, Pedro Sánchez - o émulo de António Costa em Madrid - continua sem conseguir reunir os votos na Câmara dos Deputados que lhe permitam tomar posse como presidente do Governo. 

Ao contrário de Costa, derrotado por Passos Coelho nas legislativas de 2015, Sánchez venceu a eleição parlamentar de 28 de Abril - após quase 11 meses de Executivo interino, governando com o orçamento de Rajoy e sem se sujeitar ao teste das urnas. Mas foi uma vitória muito insuficiente para governar sem parcerias: não chegou aos 29% dos votos recolhidos nas urnas e apenas conseguiu eleger 123 deputados, num hemiciclo em que são necessários 176 lugares para atingir a maioria absoluta.

Virou-se então para as forças políticas que se associaram ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) no derrube de Rajoy: desde logo o equivalente local do Bloco de Esquerda fundido com as migalhas que restam do quase defunto Partido Comunista sob a sigla Unidas Podemos (UP). O líder desta formação política, Pablo Iglesias, apressou-se a exigir várias pastas ministeriais e uma vice-presidência do Governo - mesmo tendo obtido nas urnas apenas 14,3% dos votos e os seus 42 deputados, somados aos do PSOE, serem insuficientes para formar maioria sólida no parlamento.

 

2

Na monarquia constitucional espanhola não existe tradição de coligações governamentais: as que existiram no país vizinho remontam ao atribulado sistema republicano, na década de 30, e não deixaram saudades. Desde a reintrodução da democracia, há 42 anos, todos os Executivos foram monocolores, à esquerda e à direita. Os minoritários acabaram por vingar com apoios pontuais do Partido Nacionalista Basco ou da antiga Convergência catalã, entretanto dissolvida na deriva independentista. 

Sánchez está hoje prisioneiro da própria armadilha que montou a Rajoy: mostra-se incapaz de transformar a anterior maioria de bloqueio ao Partido Popular em maioria de governo. Após o segundo "não" recebido pelo PSOE no hemiciclo - onde ontem só recolheu 126 votos favoráveis, contra 154 negativos e 66 abstenções - o líder socialista começa a render-se à evidência: pouco mais lhe resta senão enfrentar novas eleições, que não deverão ocorrer antes de Novembro. Quando Espanha se prepara para entrar no quarto mês de Executivo interino, sem orçamento com marca socialista e o parlamento permanece impedido de se constituir em comissões de fiscalização da actividade governativa.

 

3

Nos últimos dias, Sánchez deve ter sentido ciúmes do amigo Costa: a vida é muito mais dura para os socialistas espanhóis. Isto ficou bem evidente, no frustrado debate de investidura travado ontem nas Cortes, quando a dirigente socialista Adriana Lastra - número 2 do PSOE - subiu à tribuna para arrasar os putativos parceiros de esquerda.

«A UP exigiu [para formar coligação] controlar mais de metade da despesa pública e todas as fontes de receita - impostos, inspecção tributária, autoridade da responsabilidade fiscal. Exigiu, praticamente, controlar a economia deste país. Em privado, exigiu quatro das seis áreas de Estado prioritárias nesta legislatura: trabalho, ciência, área energética e área social», declarou no seu duríssimo discurso, sublinhando: «O PSOE necessita de sócios leais. Não necessita de quem se apresenta como guardião das essências da esquerda.»

E, visando directamente Iglesias, disse-lhe: «Não queria um Governo de coligação com o PSOE: queria um Governo exclusivamente à sua medida. Quer gerir um carro sem sequer saber onde está o volante. Esta é a segunda vez que impedirá a Espanha de ter um Governo de esquerda. Curioso progressismo, o seu...»

 

4

Costa e o seu braço direito, Mário Centeno, não têm dificuldades semelhantes às de Sánchez. Pelo contrário: o dócil BE e o cordato PCP passaram uma legislatura a aprovar sucessivos orçamentos sujeitos às regras do pacto de estabilidade imposto por Bruxelas e Berlim. Nunca mais saíram à rua a exigirem a «renegociação da dívida». Assistiram quase sem pestanejar ao mais brutal aumento da carga fiscal de que temos memória, à maior redução do investimento público de que há registo e a um montante de cativações ditadas pelo Ministério das Finanças nunca antes ocorrido em democracia. E nem se escandalizaram pelo facto de - mesmo sem tróica - o Executivo Costa/Centeno ter ultrapassado as metas do défice fixadas pelo Banco Central Europeu. 

Ao contrário dos camaradas espanhóis hoje integrados sob a sigla Unidos Podemos, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa jamais perturbaram a navegação austeritária dos socialistas, justamente premiada pela elevação de Centeno à presidência do Eurogrupo e talvez até ao cargo de director-geral do FMI.

 

5

Costa, ao invés de Sánchez, não precisa de incluir os "parceiros de esquerda" no Governo, à luz da original solução governativa que concebeu em 2015. Ao contrário do colega espanhol, que anda a negociar há três meses sem sucesso, por cá bastaram-lhe três dias e ainda lhe sobraram várias horas desses dias. Obteve quase tudo do BE e do PCP, oferecendo-lhes em troca uma mão cheia de quase nada. Manteve a legislação laboral, manteve o mapa administrativo, manteve o essencial da organização judiciária, manteve as traves mestras da ortodoxia financeira: os que antes gritavam contra tudo isto passaram a pronunciar-se sotto voce, de sorriso ameno e aplauso garantido. 

Se em Outubro lhe apetecer reorganizar o Governo oferecendo duas ou três secretarias de Estado a simpatizantes do Bloco, Costa comprará outros quatro anos de "paz social" à esquerda. Não precisa de mais para uma governação tranquila. Calculo que Sánchez deva invejá-lo. Seria bem diferente se o espanhol pudesse exportar Iglesias para cá, cambiando-o pela doce Catarina.


42 comentários

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De Robinson Kanes a 26.07.2019 às 11:23

Sabe Pedro, para um lado e para o outro a negociação é complicada porque em Espanha os ideais não se vendem... Já em Portugal a coisa é mais simples, afinal uns bilhetes para a bola ou um almoço e a coisa dá-se. É mais fácil que subornar um polícia no Zimbabwe :-)

De forma muito simples:

O Podemos quer tudo e não vai ter nada (um partido que cada vez mais vai mostrando a sede de poder - e de encaixe financeiro - de Iglesias e esposa).

O PSOE não quer entregar o Governo e colocar a Espanha nas mãos da extrema-esquerda.

Em Portugal, tudo isto se ultrapassou, PCP e BE esconderam os ideais a troco de promessas, o PS escondeu outros tantos e pronto, a coisa deu-se... Sempre a bem do país... Sempre a bem do país...

Sem jargões, é assim :-)
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 16:10

Em Portugal, incluindo nos debates nas redes, abusa-se do jargão - desde logo, o jargão político.
Eu sou militante anti-jargão. E saúdo sempre quem não se verga a ele.
É o caso.
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De Luís Lavoura a 26.07.2019 às 11:25

está a revelar-se totamente ineficaz para construir

Revelou-se eficaz durante 11 meses. Esse era o seu compromisso de eficácia (até às eleições), e foi cumprido. Depois das eleições, foi uma realidade nova.
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 13:10

Você bem implora, Zagalo. Mas o Abranhos não lhe passa cartucho.
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De Luís Lavoura a 26.07.2019 às 11:27

Costa, derrotado por Passos Coelho nas legislativas de 2015

Já múltiplas vezes foi explicado que, numas eleições legislativas, ninguém que eleja deputados é "derrotado": todos são vencedores na exata medida do número de deputados que elegem. Uns elegem mais deputados, outros menos, mas ninguém é derrotado.
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 12:58

Se o segundo é que ganha, Santana venceu em 2005, Manuela Ferreira Leite triunfou em 2009 e Socrates sagrou-se vencedor em 2011.
E afinal Sampaio da Novoa derrotou Marcelo em 2016. É ele o verdadeiro inquilino do Palácio de Belém.
Fantástico. É toda a história a ser reescrita.
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De Luís Lavoura a 26.07.2019 às 14:42

Já lhe disse, não é o segundo que ganha: todos que elegem deputados ganham (alguma coisa).
O seu conceito de "ganhar" está completamente errado, como se mostra aliás neste post: Pedro Sánchez "ganhou" mas não conseguiu formar governo, enquanto que António Costa "perdeu" mas conseguiu ser primeiro-ministro durante 4 anos.
Na verdade, tanto Sánchez como Costa ganharam os deputados que conseguiram eleger - nem mais, nem menos.
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 16:05

Originalíssima teoria essa: quem ganha, perde; quem perde, ganha. Experimente candidatar-se a uma cátedra de Ciência Política.
Talvez tenha sucesso.

À luz dessa teoria, Sánchez, vencedor das legislativas de 28 de Abril, foi afinal... um derrotado. Porque ainda não conseguiu formar governo.
Como não há derrotados sem vencedores, quem triunfou nesse acto eleitoral foi o PP, de Pablo Casado. Que ficou em segundo.

Genial.
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De jo a 26.07.2019 às 23:28

Deve ser bastante imbecil quem ganha e não consegue formar governo.

Ou se calhar não é isso, quem não consegue formar governo perde.

Na política como no futebol os perdedores gostam de inventar vitórias morais.

Mas isto é uma discussão oca, a direita desta vez vai ter maioria absoluta e a conversa acaba.
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De Pedro Correia a 28.07.2019 às 22:54

Isso quer dizer que nas eleições espanholas de 28 de Abril o vencedor afinal... não venceu.
Como não há ainda governo, três meses depois, perderam todos.

Bestial.
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De Anonimus a 26.07.2019 às 19:35

Segundo essa lógica, Pedro Santana Lopes era PM legítimo, e a saída do Barroso não devia causar eleições.
É que a "esquerda" tinha diferente opinião.
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 22:05

Lógica "lavouriana".
Ou seja: sem pés nem cabeça.
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De Luís Lavoura a 27.07.2019 às 16:28

Claro que Pedro Santana Lopes foi PM legitimamente.
E sim, a saída de Durão Barroso não causou eleições. Barroso saiu e Santana Lopes entrou sem que tenha havido eleições.
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De Pedro Correia a 28.07.2019 às 22:55

Então Santana, tendo chegado a chefe do Governo, foi um vencedor. Mesmo não tendo vencido, pois nem sequer houve eleições.

Cada vez mais bestial.
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De Anónimo a 26.07.2019 às 12:35

Sim, quatro anos de "paz social".
Famoso, a inveja de dos seus pares. Perder eleições e governar. Manter o poder político e tornar a o obter, sempre em "paz social". É obra.
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 13:00

Costa socialdemocratizou a esquerda radical, que passou a piar fininho.
É obra. Não admira que chegue fatigado ao fim desta legislatura.
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De Anónimo a 26.07.2019 às 17:47

Bem visto. Assim como teve que ser um militar (PR Gen. Eanes) a re-enviar os militares para dentro dos quarteis após a sua extrovertida actividade cá por fora, no pós 25 de Abril (de boa memória) ... teve que ser um socialistas de gema (A. Costa) a re-enviar as extrovertidas, e as nem por isso, extremas esquerdas para os seus respectivos aquartelamentos. Sem dúvida um meritório trabalho.
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De Pedro Correia a 28.07.2019 às 22:57

Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Costa desempenhou um papel histórico, neutralizando a esquerda radical portuguesa.
O PCP tornou-se um tigre de papel com este "desvio de direita", como diria Álvaro Cunhal. Caramba, já nem Almada é comunista.
O BE prepara-se para entrar no PS pela porta das traseiras.
Socialdemocratizaram-se, um e outro.
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De Justiniano a 26.07.2019 às 12:40

"Seria bem diferente se o espanhol pudesse exportar Iglesias para cá, cambiando-o pela doce Catarina."
Valha-nos Deus Nosso Senhor!!
Já temos aspirantes ressentidos, prestidigitadores místicos, insidiosos, subversivos, charlatães encartados e outros alucinados mais ou menos desembraiados em excedente, novos e recauchutados!!
Não sobreviveríamos a um profissional subversivo do mais profundo ressentimento, singularmente sectário, de uma estirpe com o peso da história e a sombra do seu rancor!! É esse o calibre do Iglésias!

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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 13:02

Falta-nos um político com rabo de cavalo. Embora abundem políticos com rabos de palha.
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 16:07

Luís Monteiro é um puto porreiro.
Rima e é verdade.
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De Vorph Valknut a 26.07.2019 às 12:46

Alterações à Lei Laboral houve, inclusivamente nos chamados Recibos Verdes.

O aumento da salário minimo também foi uma decisão social marcante (só em 2011 e 2012, não foi aumentado, justificado, com base na conjuntura económica). Se o SMN tivesse sido aumentado todos os anos de acordo com os valores da inflacção, sem perdas nem ganhos de poder de compra, o valor desta retribuição seria só em Janeiro de 2011 superior a 540 euros e se tivesse tido os aumentos do poder de compra correspondentes aos ganhos médios de produtividade (1,5 por cento) seria superior a 880 euros. Adiante...

Lembremos:

Passos avisa que subida do salário mínimo pode conduzir a mais desemprego.

"Este Governo começa mal. Começa a impor a todos os privados uma decisão que não resulta de concerto com os parceiros sociais", comentou Pedro Passos Coelho aos jornalistas sobre o aumento do salário mínimo para 530 euros.

https://www.google.com/amp/s/www.jornaldenegocios.pt/economia/emprego/amp/passos_avisa_que_subida_do_salario_minimo_pode_conduzir_a_mais_desemprego

Ora com a subida do salário minimo:

Número de desempregados inscritos cai para mínimo de 28 anos:

https://www.noticiasaominuto.com/economia/1273403/numero-de-desempregados-inscritos-em-minimo-de-28-anos

Detestando este Governo, não posso com os I\ que, ao que me dizem, invadiram o PSD.









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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 13:09

Já lhe disseram que você tem traços fisionómicos muito semelhantes aos do Doutor Oliveira Salazar?
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De Anónimo a 26.07.2019 às 13:56

Cada vez admiro mais o homem:

"Teoricamente os partidos representam a agremiação de forças políticas que se constituíram à volta de sistemas de princípios doutrinários ou de conjuntos de interesses quer materiais quer morais, num e noutro caso para efectivação no governo. Teoricamente ainda — o doutor Mário de Figueiredo versará com a habitual profundeza este assunto - teoricamente ainda os programas partidários subentendem-se como conjuntos de soluções para problemas concretos nacionais. Isto quer dizer: o partido ao serviço da Nação. Sendo assim, conhecer-se-iam através da formação de partidos as correntes de ideias ou sentimentos que atravessam a alma da Nação, a força das suas aspirações, a importância das suas necessidades. Isto é a teoria.

Na prática verifica-se o seguinte:
Em numerosos países, e em Portugal sem dúvida, a noção, o espírito, a finalidade dos partidos corromperam-se e as agremiações partidárias converteram-se em clientelas, sucessiva ou conjuntamente alimentadas pelo Tesouro. Findo o período romântico, ou até antes disso, que se segue às revoluções ditas liberais do começo do século XIX e em que os debates parlamentares revelavam com erudição e eloquência preferência pelas grandes teses da filosofia política, a realização partidarista começou a envilecer-se. Duvido se alguma vez representou o que se esperava; desde os meados do século passado até 1926 - em monarquia e em república — a vida partidária tem seus altos e baixos, mas deixa de corresponder aos interesses políticos e distancia-se cada vez mais do interesse nacional. A fusão ou desagregação de partidos, as combinações políticas são fruto de conflitos e de paixões, compromissos entre facções concorrentes, mas nada têm que ver com o País e os seus problemas.

Aqui e além tenta-se regulamentar, moralizar, constitucionalizar a vida partidária. Tudo embalde. Um partido, vários partidos dispõem do poder - são governo; mas não se encontra, como poderia supor-se, relação concreta nem entre os actos de governo e os programas partidários nem entre os programas e as exigências da Nação. Nós chegámos aos últimos extremos na república parlamentar, com cinquenta e dois governos em menos de dezasseis anos de regime.

A única conclusão possível é que a forma partidária faliu, e de tal modo que apregoá-la como solução para o problema político português não oferece o mínimo de base experimental que permita admiti-la à discussão. Mas pode ir-se mais longe e invocar para contraprova a experiência de mais de vinte anos de política sem partidos, de política nacional simplesmente.
O espírito de partido corrompe ou desvirtua o poder, deforma a visão dos problemas de governo, sacrifica a ordem natural das soluções, sobrepõe-se ao interesse nacional, dificulta, senão impede completamente, a utilização dos valores nacionais para o bem comum. Este aspecto é para mim dos mais graves.

Vejo na minha frente os mais variados, numerosos e intrincados problemas. O ritmo que a vida nacional atingiu nos últimos anos multiplica-os quase ao infinito; a transformação e a crise do Mundo emprestam a muitas questões alto grau de acuidade e delicadeza. «Todos não somos demais.» Como pensaríamos que bastariam alguns, quando a parte sã da Nação, os seus maiores valores intelectuais e morais já se verificou exuberantemente não estarem dispostos a imiscuir-se na balbúrdia partidária e a ideia dos «homens do partido» é por si exclusiva dos restantes? Só por esse aspecto a política de partidos seria contrária à unidade nacional. Mas já vi afirmado, já vi escrito, que é exactamente através da liberdade de organização partidária que melhor se garantirá essa unidade. Há pois diversas maneiras de ver as coisas; duvido se há mais de uma de as ver bem."

https://m.youtube.com/watch?v=9EksApCA35k

Vorph Valknut
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De Costa a 26.07.2019 às 16:01

Já agora, Vorph, desviando-me do tema, deixo-lhe isto (presumindo o consentimento do autor do blogue, há tanto tempo lamentavelmente inactivo):

https://portugaldospequeninos.blogs.sapo.pt/2612328.html

Foram tempos em que, independentemente do conteúdo, e de com ele se estar ou não de acordo, se cultivava o idioma. Por estes dias, claro, berra-se em comícios e jornadas de facto par(a)lamentares; e o que se pretende, e é copiosamente servido "ao people", são "cenas bué da altamente". E "tá-se bem!"

Ou apenas "tá-se" (ou como já pude ler repetidamente, e decerto sob o beneplácito das facultatividades do AO90 - e em qualquer caso dentro do império da ortografia reduzida a mera transcrição fonética -: "tásse!").

Ya!

Costa
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De Vorph Valknut a 26.07.2019 às 17:17

OK, Costa, se me permite o estrangeirismo! Mas isso vem a propósito do quê? Raramente digo, ya, tá-se, ou bué.. Eu sou mais de,"da-se"...



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De Costa a 26.07.2019 às 19:20

Nada consigo, Vorph. Ou sobre si. A não ser pelo facto de ter, você, citado longamente um português, visceralmente odiado por uns e incondicionalmente idolatrado por outros, que expunha com particular cuidado formal e de fundamentação as suas ideias (pense-se delas o que se quiser).

E lembrei-me desse breve elogio fúnebre, palavras do mesmo autor, como outro exemplo desse cuidado com o idioma, desde logo em actos oficiais ou públicos, hoje manifestamente arredado das preocupações dos poderes de turno. Não o têm, nem me parece que o actual "soberano" deste tão republicano regime (isto é: o povo, desde logo na sua, consta, geração "mais bem preparada de sempre"), inchado de orgulhoso desprezo por essas minudências e feliz no seu crescentemente monossilábico vocabulário de corruptelas, seja minimamente sensível perante o assunto. Estão, digamos, bem uns para os outros.

Se quiser, meu caro, foi uma minha solitária e fundamentalmente ociosa, elegia. Desculpe lá ter tomado o seu tempo e tê-lo incomodado.

Costa

Ps: não tenho, acredite, uma posição fundamentalista quanto a estrangeirismos (ou neologismos). Só procuro, por mim, que o seu uso se modere pelo bom senso, a efectiva oportunidade e a verdadeira consagração do termo empregue.

"Ok" está muito bem. E "da-se" é de bem português e claríssimo significado.
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De Vorph Valknut a 26.07.2019 às 21:27

Costa, o problema do Estado Novo, ou de qualquer outra ditadura, embora, para mim, Salazar tenha sido um governante singular da nossa, mas também da história europeia - um intelectual, clássico no uso da palavra, mas cínico no plano filosófico ; acreditaria Salazar, realmente, nalgum sistema de ideias (cedo perdeu, até, a Fé)? Parece-me que Salazar foi mais um fatalista - nada havia a fazer neste Portugal, senão "o viver, habitualmente" . Instintivamente julgo que Salazar desprezava o país e sobretudo o povo, o alto e o baixo, mas por uma razão que só o próprio saberia permaneceu como nenhum outro no Poder (o especialista na arte de durar).

Por vezes sonho, para Portugal, um ditador iluminado, recto, correcto, honesto, que me faça de novo querer pertencer à comunidade nacional, sentir-me, nela integrado, percebendo, aceitando os sacrificios pedidos em nome de um Renascimento Nacional. Porra, esta terra pariu o Afonso de Albuquerque, o Vasco da Gama, Gualdim Pais, Francisco de Almeida, Pombal, o Pessoa, Camões....que raio de bicho é este que nos infecta o sangue? Foi o Parlamentarismo? Não. A Monarquia faliu também moralmente e intelectualmente o país.

Mas depois, "caindo na real" como diabos posso eu avaliar o Estado Novo, se naqueles tempos havia uma censura transversal no país. Havia indústria, diz? Sim, já perto do final, quando a Europa voava, economicamente, e as pressões sobre Portugal e as colónias eram constantes e crescentes. Tinhamos uma indústria, na sua maioria caduca, sem qualquer possibidade de concorrer no plano europeu, em mercado livre, aguentando-se com as tarifas e as matérias primas, a saldo, provenientes das áfricas.

Como gostaria de ver esses sabujos dos partidos, da Direita, à Esquerda, serem arrastados, vergastados.....

A despreocupação com a Língua resulta, a meu ver, com uma mudança no paradigma educacional, previligiando-se o Novo Saber Técnico-Cientifico, Tecnológico, Transformativo e não o antigo, Humanista, dos Monismos artificiais, Jesuitico e anti-cientifico.


PS: escrevi de jorro. ..desculpe erros e omissões....vou jantar
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De Costa a 27.07.2019 às 01:14

Nada a desculpar, Vorph. Você suscita uma série de questões que bem poderíamos por aqui debater (nem que fosse para uma vez mais concluir com vivacidade que discordamos frequente e substancialmente).

Uma delas é desde logo essa de, após tanto tempo de democracia como de estado novo, gente bem formada sonhar com, "para Portugal, um ditador iluminado, recto, correcto, honesto". E parecer fazê-lo para lá do simples desabafo inconsequente de uma irritação momentânea. Será que afinal e inapelavelmente o regime actual, a democracia, "faliu também moralmente e intelectualmente o país"?

Mas eu meti-me nesta cadeia de comentários apenas a pretexto do culto da língua-mãe. Ou da sua crescente ausência. Apenas isso. Você parece ligá-lo ao estudo, que tomará por obsoleto, das Humanidades. E com isso dispensar o "Novo Saber Técnico-Científico, Tecnológico, Transformativo", da maçada de dedicar, levemente que seja, alguma atenção ao que, por definição e de forma maniqueísta parece tomar por fatalmente anti-científico.

É o seu ponto de vista. E magistralmente tratado em obras literárias que se convencionou chamar de "distopias". Orwell e Huxley, não lhe serão, Vorph, decerto estranhos.

Costa

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De Vorph Valknut a 27.07.2019 às 09:56

Costa, não se pode pensar bem , com poucas, ou sem palavras. Lembre-se, no Inicio era o Verbo, o Logos....ou seja, o inicio começa quando o Homem se pensou , falou (a um som articulado, um significado) ...o tal "Eu sou o que sou", posto, por nós, mais tarde, na boca de deus. Não previligio um conhecimento sobre o outro.
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De Vorph Valknut a 27.07.2019 às 10:04

1984 o meu livro de eleição.
Não faço a apologia do Estado Novo, mas esta democracia é funesta (Sócrates e muitos filósofos gregos eram também, dela, adversários. O regime da mediocridade, dos populismos....como poderia a eleição do governo depender da vontade dos ignorantes?). Talvez uma Aristocracia?
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De Vorph Valknut a 27.07.2019 às 10:17

Um Génio! Não tenhamos medo de usar as palavras com justiça.

https://youtu.be/3NqG2lAojNQ
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De Anónimo a 26.07.2019 às 13:12

Sobre este assunto, o atrevimento de uma sugestão de leitura : Ignacio Camacho e Luís Ventoso no ABC.es de hoje.


JSP
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 16:01

E recomenda muito bem.

Ignacio Camacho é, há muito, um dos meus colunistas favoritos da imprensa espanhola.
Destaco estes trechos da coluna de hoje:

«Ahora la prioridad es "construir un relato" para cebar la conversación de las redes sociales y anticiparle los argumentos al adversario. Los guionistas de los partidos parecen saturados de devorar series y necesitan crear episodios trepidantes acabados en clímax, como si en vez de gobernar, o algo parecido, un país tuviesen que alcanzar records de audiencia a base de suspense y tramas rocambolescas.»

«Pablo Iglesias entró al hemiciclo con la camisa de cuadros arremangada y la mochila a la espalda, elementos que en su semiótica visual constituyen el uniforme de combate. Forjado en la televisión, utiliza su ropa, su gesto y su semblante para emitir señales, y todas ellas eran propias de momentos graves.»

«El presidente está herido en su narcisismo; sólo la moción de censura le evita el marbete de coleccionista de fracasos. En las últimas dos semanas ha sufrido un ataque de vértigo al darse cuenta de que estaba abocado a compartir el poder con un enemigo más que con un aliado.»

https://www.abc.es/espana/abci-frankenstein-sin-piernas-201907260240_noticia.html

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De paulo ferreira a 26.07.2019 às 16:31

Doce Catarina !? É do mais amargo que conheço.
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 16:51

Caramba, já vi que prefere o Iglesias.
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De paulo ferreira a 26.07.2019 às 16:54

Só da humilde casinha dele.
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De Pedro Correia a 26.07.2019 às 17:00

Eheheh... Já somos dois.
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De Vorph Valknut a 26.07.2019 às 17:55

Iglesias, Crazy

https://youtu.be/ziliGKfW2I0

Worry...
Why do I let myself worry
Wondering
What in the world did I do?

Crazy
For thinking that my love could hold you...

I'm crazy for trying
I'm crazy for crying
And I'm crazy
For loving you

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