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A fechar o ano

por Sérgio de Almeida Correia, em 31.12.15

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(Bansky) 

 

"Moving forward, Europe must rediscover a progressive sense of universal values, something that the continent’s liberals have largely abandoned, albeit in different ways. On the one hand, there is a section of the left that has combined relativism and multiculturalism, arguing that the very notion of universal values is in some sense racist. On the other, there are those, exemplified by such French assimilationists as the philosopher Bernard-Henri Lévy, who insist on upholding traditional Enlightenment values but who do so in a tribal fashion that presumes a clash of civilizations." - Kenan Malik, The Failure of Multiculturalism

 

A diversos níveis, 2015 foi um ano de grande turbulência. Política e socialmente, na Europa e fora dela. O ano que se prepara para chegar ao fim foi também um ano de catástrofes naturais, de acidentes no ar, no mar, na terra, debaixo dela também, e sabe-se lá onde mais, de terrorismo, de pungentes dramas humanos, enfim, numa palavra, um ano de tragédias, um ano de excessos e radicalismos perigosos e inusitados. Sabemos hoje que se a nossa mão tem tido um papel no desenvolvimento, nos avanços técnicos e científicos que têm servido para minorar o sofrimento de muitos, a sua acção tem servido igualmente para acelerar desgraças, seja pela forma imponderada como se tem olhado para as questões do clima, cujos efeitos nefastos se fazem sentir com cada vez maior frequência, seja pela leviandade com que se mercantilizam direitos e obrigações, humanos e desumanas, ignorando-se questões essenciais para a nossa sobrevivência, para a construção de sociedades mais decentes e mais justas, e para o equilíbrio da nossa espécie e das que connosco sobrevivem e com as quais repartimos o espaço e o ar que respiramos. A falta de líderes e políticos preparados, responsáveis, sérios, interessados pelas questões que nos afectam, com estatura e pedigree não explica tudo. Nenhum de nós tem uma varinha mágica para resolver os problemas que nos afligem. Da nossa rua à nossa cidade, do nosso país ao mundo há, porém, muita coisa que pode ser feita sem custos, apenas com um pouco de esforço, olhando com olhos de ver, pensando no que merece ser pensado e discutido. Não podemos fugir de nós próprios, estamos condenados a viver e a compartilhar alegrias, dramas e sobressaltos. Há muitas maneiras de o fazermos e todas as que possam fazer-nos sair da modorra, do conformismo, da inércia, e que sejam susceptíveis de nos obrigar a agir são legítimas. Se por vezes é preciso falar das coisas a brincar, muitas vezes mesmo gozando com as situações, ironizando, satirizando, provocando, gerando desconforto, incomodidade, reacções contraditórias de amor e ódio naqueles que nos rodeiam, outras haverá em que temos de nos confrontar com o que fizemos, com o que não fizemos e com o que ficou por fazer devendo ter sido feito. Nas páginas deste e de outros blogues, nos meus textos avulsos, em redes sociais, em jornais, em debates ou em seminários e conferências, escrevendo cartas, confrontando os poderes formais e informais, por vezes sendo voluntariamente excessivo na adjectivação, contundente na farpa, incisivo na crítica, porque achei que assim devia ter sido, porque águas paradas não movem montanhas, porque é a indiferença que nos mata, que nos mói e que vai corroendo os alicerces da nossa vida colectiva, fui dando conta das minhas preocupações, muitas vezes enaltecendo posições que não são as minhas nem as que defendo apenas para obrigar os outros a reagirem. Um texto que gere a indiferença não serve para nada. É um amontoado de palavras. Até poderá ser um jogo de imagens agradáveis, bonitas, sensíveis, mas não passará disso mesmo, de uma inutilidade, de um desperdício sem consequências de maior. A sua função esgota-se com a composição e dissipa-se com a leitura. O que aqui ficou registado deve também ser visto nesta perspectiva. E como nos próximos dias muitos terão tempo - os que puderem ou tiverem pachorra - para foliar e descansar, aproveitando a circunstância do primeiro de Janeiro coincidir com uma sexta-feira, resolvi aqui deixar-vos a frase que acima transcrevi e convidar-vos a, num momento mais sossegado, perderem algum tempo a ler este texto de Kenan Malik. Penso que seria uma forma saudável de terminarem este ano antes de se atirarem ao próximo, aos encontrões, ao marisco, ao leitão, às passas, ao champanhe e a outros excessos da nossa "civilização", hoje mais dada ao insulto, à estupidez, à vacuidade e à veneração da mediocridade, apesar de excessivamente sensível para algumas coisas menores que deveriam merecer o nosso desprezo. Espero que a leitura, desta vez, não vos tenha sido indigesta, e que no próximo ano tenhamos todos direito à criminalização da imundície, de toda, e da idiotia. Entretanto, desejo-vos um ano farto. De saúde, porque sem ela nada feito, de luz e de paz, a começar pela de espírito, esperando que se continuem a indignar, criticar, exaltar, amofinar com o que por aqui vou deixando. Será sinal de que estão vivos, de que este blogue continuará o seu caminho e de que eu continuarei a ter motivos para aqui voltar quando me apetecer para exercer a minha cidadania. Quanto mais não seja para de vez em quando vos ir provocando a exercerem a vossa. De preferência num português inteligível. E a deixarem os vossos piropos, mesmo os mais ordinários, mesmo os destinados ao desprezo e à censura, com tesura. Porque a liberdade também passa por aqui.


7 comentários

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De lucklucky a 31.12.2015 às 01:18

O chorrilho de contradições do narciso humanista bien pensant e o seu
pensamento irracional elevado ao patamar de idoneidade.

Boa parte da razão do desastre.

A Sharia ou é ou não é. E a Sharia é um conflito de civilizações.

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De jj.amarante a 31.12.2015 às 01:56

O Amartya Sen escreveu um livro sobre este tema que refiro em (http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2010/06/identidade-e-violencia-ilusao-do.html)
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De jj.amarante a 31.12.2015 às 01:58

O texto do Malik é interessante, apontando erros de caminho e fazendo propostas que me parecem boas.
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De Costa a 31.12.2015 às 12:09

Os "erros de caminho" tendem a ser muito convenientemente apontados como a fonte de todos os males, responsabilizando irredimivelmente os europeus - cuja actuação nunca será suficientemente expiada. Sucede que se foram de facto erros, foram fruto de uma avaliação falhada, mas tomada de boa-fé, de uma questão ao tempo nova ("nova" desde logo no volume). E é extraordinariamente fácil apontar, a posteriori e na posse de todos - ou mais - dados, e doutamente, o erro a quem o cometeu.

O erro não será desculpável sem mais, mas importa ter em conta essa actuação de boa-fé, ao apontar dedos acusadores e ao pretender impor uma espécie de obrigação europeia de tudo suportar e uma explicação dogmaticamente atenuadora - ou mesmo de exclusão - de culpa nos crimes praticados contra os europeus (ou o ocidente). Se além do erro ou em vez dele houve dolo, a questão poderá ser a da responsabilização dos filhos ou netos pelos actos deploráveis dos pais ou avós. E a menos que masoquisticamente queiramos conceder às "minorias", e contra nós, o que entre nós tomamos por inaceitável, tal tem que ser afastado.

Eu não posso - nem posso ser forçado a - aceitar com bonomia ou culpa histórica que os meus e os meus bens vão pelos ares, ou se afirme impunemente que o meu país ainda será um califado e todos os meus valores espirituais espezinhados, porque algures um meu antepassado mais ou menos remoto ou recente foi (pelos padrões actuais) um tirânico colonizador ou um racista anfitrião. Essa argumentação está mais do que esgotada.

Solução para isto que se passa na nossa Europa, quando o outro não vê na sua religião a sua legítima forma de encontro com o Divino, mas sim o fundamento absoluto, omnipresente e omnipotente, para me destruir e ao meu modo de vida e em minha casa? Ceder ainda mais, dar a outra face, acompanhando os bem-pensantes negacionistas, ou aceitar que há de facto uma guerra (a que só não chamarei "de civilizações" por evidente indignidade da outra parte) em curso na minha terra; uma guerra que visa confessadamente destruir a minha civilização, em que o inimigo é guiado pelo ódio e pelo desejo de provocar o máximo de baixas civis - pois que para ele não há inocentes nem alvos ilegítimos - que será longa ainda que de aparente baixa intensidade, e que é um perigosíssimo absurdo desvalorizar?

Costa
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De lucklucky a 01.01.2016 às 14:40

"Essa argumentação está mais do que esgotada."

Tal nunca foi argumentação válida. Só o facto de ter expressado isso mostra o buraco onde estamos metidos devido ao Marxismo Cultural.
Aliás o facto de se considerar a esquizofrenia do Malik - a única maneira de pressupor a sua honestidade- como válida já o demonstra.

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De Costa a 01.01.2016 às 21:36

Claro que nunca foi uma argumentação válida. E para além disso, de tão invocada sem a menor preocupação de lhe conferir substância minimamente honesta, esgotada: vulgarizada até ao tédio, tornada irrelevante antes até de qualquer discussão de um seu (inexistente) mérito.

Mas se prefere a sua formulação, directamente e sem mais, por mim nada contra.

Já isso de me considerar contaminado por um tal de marxismo cultural, é coisa para que lhe peço o favor de elaborar.

Grato,
Costa
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De Vento a 31.12.2015 às 14:04

O texto que sugere confrontou-me com a opção cristã que há muito tempo persigo.
Compreendi que a opção feita não surge pela busca do divino pelo Homem nem tampouco pela (im)possibilidade do Homem encontrar a Verdade. A Verdade é algo que o Homem jamais encontrará per si. Porque a Verdade é uma Pessoa, Jesus, o Cristo por antonomásia; e é esta Pessoa que vem ao encontro do Homem.
Ela, a Verdade, tem a forma de Palavra; e tem-na precisamente para se deixar encontrar, sendo Ela a primeira a vir ao encontro.

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